Figura alguma é o bastante - Le Monde Diplomatique Brasil

PANDEMIA, CONCENTRAÇÃO DE RENDA E SMARTPHONES

Figura alguma é o bastante

por Paula Ordonhes
24 de maio de 2020
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Colocando em perspectiva as fortunas – os destinos – de corpos que compartilham o mesmo espaço e tempo, procuramos trazer alguma materialidade para as escalas sobre-humanas que hoje nos atravessam

Entre os dias 23 de março e 23 de abril de 2020, Jeff Bezos teve sua fortuna aumentada em US$ 27,5 bilhões. Fundador e principal acionista da Amazon, Bezos é o homem mais rico do planeta, detentor, em 23 de abril, de um patrimônio de US$ 144,5 bilhões. O aumento de sua fortuna em 19% ao longo de apenas 31 dias se deveu, de acordo com a revista Forbes, à valorização das ações da Amazon, possivelmente impulsionada pelo crescimento na demanda por compras via internet durante a pandemia de coronavírus.

Assim como Bezos, outros bilionários viram suas fortunas crescerem extraordinariamente nesse período. Juntos, eles ganharam US$ 126 bilhões em um mês. A Forbes cita dez nomes ao todo; destes, sete são estadunidenses, um é sulafricano-canadense-estadunidense, um é francês e um é indiano. Há apenas uma mulher, a ex-companheira de Jeff Bezos, MacKenzie Bezos. Não há nenhuma pessoa negra.

Sete dessas dez pessoas têm suas fortunas ligadas a empresas de tecnologia. Ainda segundo a Forbes, Mark Zuckerberg, fundador e vice-diretor executivo do Facebook, viu sua fortuna crescer US$ 13,4 bilhões, saltando de US$ 55,1 bilhões para US$ 68,5 bilhões, um aumento de 19,5%. Steve Ballmer, um dos principais acionistas da Microsoft, teve um incremento de US$ 10,5 bilhões em seu patrimônio, que hoje totaliza US$ 61,9 bilhões, alta de 16,9%. Já a fortuna de Elon Musk, fundador da Tesla e um dos principais impulsionadores do projeto de colonização de Marte, subiu 26% no mesmo período – ele detém hoje US$ 36,7 bilhões. Larry Ellison, co-fundador e diretor executivo da Oracle, viu seu patrimônio aumentar US$ 9,3 bilhões, totalizando US$ 65,3 bilhões, enquanto Larry Page, co-fundador do Google, ficou US$ 8,7 bilhões de dólares ou 14,9% mais rico, detendo US$ 58,1 bilhões à data da reportagem da Forbes

Outro estadunidense, Warren Buffett, principal acionista e diretor executivo do conglomerado de empresas Berkshire Hathaway, também viu sua fortuna se expandir extraordinariamente: ganhou US$ 10,1 bilhões em um mês, acumulando hoje US$ 73,3 bilhões – um crescimento de 13,7%. O francês Bernard Arnault e sua família possuem hoje US$ 91,5 bilhões. Ele é presidente e diretor executivo da LVMH, holding especializada em artigos de luxo (“LV” são as iniciais de Louis Vuitton, “M”, de Moët & Chandon, e “H”, de Hennessy). A fortuna dos Arnault cresceu US$ 10,2 bilhões em trinta dias, em meio à pandemia de coronavírus.

Austin Distel/Unsplash
Juros

Os juros no Brasil já foram os mais altos do mundo. Em 2015, a taxa básica de juros da economia brasileira era de 14,25% ao ano. Hoje, a mesma taxa está em 3% ao ano. A taxa básica de juros da economia determina o cálculo da remuneração de certas aplicações financeiras, como a poupança. Hoje, no Brasil, com a taxa básica de juros a 3% anuais, a poupança rende 0,17% ao mês. Isso talvez ajude a dar a dimensão de quão colossal foi o ganho de Jeff Bezos e seus colegas de lista entre os dias 23 de março e 23 de abril. Para ter um ganho de 19% com o dinheiro aplicado na poupança brasileira aos juros atuais, seria preciso aguardar 103 meses – ou oito anos e sete meses.

Mas a comparação com a poupança brasileira foca apenas na porcentagem, e não no montante acumulado pelos bilionários. Se quiséssemos construir um gráfico com duas colunas para comparar o ganho somado dos dez bilionários listados pela Forbes (convertidos em reais ao câmbio do dia 23 de abril) ao de dez brasileiros remunerados com o salário mínimo nacional (atualmente fixado em R$ 1045) onde cada unidade monetária equivalesse a um pixel, chegaríamos a uma imagem em que uma das colunas teria 696,5 bilhões de pixels, enquanto a outra teria 10.450 pixels. Não é tão simples apreender a disparidade entre essas grandezas apenas com números, então procuraremos lançar mão de outra imagem. Supondo que cada pixel equivalesse a um milímetro, construiríamos então um gráfico em que uma das colunas teria 10,45 metros, e a outra, 696.528 quilômetros.

Embora varie em função de sua órbita, a distância média entre a Terra e a Lua é de 384.403 quilômetros. Nosso gráfico precisaria ir bem além da Lua, portanto, para representar em escala o ganho mensal dos dez bilionários citados comparado ao ganho de dez brasileiros remunerados pelo salário mínimo no mesmo período.

Auxílio emergencial

Caso as dez pessoas brasileiras em nosso exemplo tivessem recebido o auxílio emergencial de R$ 600 disponibilizado pelo governo federal durante a pandemia, a menor coluna do gráfico teria 16,45 metros. Em meados de março de 2020, a proposta do ministro da Economia Paulo Guedes e de sua equipe para mitigar os efeitos da pandemia sobre a população brasileira que trabalha sem carteira assinada e teve “brusca redução de renda por causa da crise” era de um voucher de R$ 200.

A comparação entre as fortunas de alguns dos homens mais ricos do planeta e o salário mínimo brasileiro pode parecer estranha. Se boa parte desses bilionários são estadunidenses, por que não comparar seus rendimentos ao da população não bilionária deste mesmo país? Há muitos fios que ligam, contudo, estes homens às pessoas brasileiras que recebem um salário mínimo. Um deles é o smartphone.

Em 14 de maio de 2020, o jornal Folha de S.Paulo apurou que apenas 47% dos estudantes do estado mais rico do Brasil estão conseguindo acessar a plataforma de ensino a distância criada às pressas pelo governo estadual na tentativa de não interromper o calendário acadêmico e prosseguir normalmente com as atividades escolares em meio à pandemia. Embora haja mais smartphones do que pessoas no país, um levantamento do IBGE feito no quarto trimestre de 2018 mostra que a maior parte dos que têm acesso a internet no Brasil utilizam-na apenas para enviar ou receber mensagens (95,7%), conversar por chamadas de voz ou vídeo (88,1%) e assistir vídeos (86,1%). Os aplicativos mais utilizados entre os brasileiros para trocas de mensagens são WhatsApp, Messenger e Instagram, todos propriedade da empresa Facebook. Ao compartilhar mensagens nesses aplicativos, remuneramos portanto os acionistas do Facebook, o que nos leva ao fio que liga brasileiros detentores de celular (incluindo aqueles que não têm acesso à rede de coleta de esgoto em seus domicílios, mas possuem um dispositivo com algum acesso a internet) a Mark Zuckerberg e sua fortuna.[1]

Imagens abomináveis

O Google também está maciçamente presente nos smartphones como proprietário do sistema operacional Android e do aplicativo de compartilhamento de vídeos Youtube. Dessa forma, ao assistirmos vídeos ou simplesmente possuirmos um celular com sistema Android, aumentamos as fortunas de Larry Page e seus sócios.

Em Diante da dor dos outros – ensaio escrito em 2003, um ano antes de sua morte –, a escritora estadunidense Susan Sontag se interroga sobre os sentidos de produzir e colocar em circulação imagens chocantes. O livro trata sobretudo de fotografias feitas em situações de guerra. Escreve Sontag: terá o choque um prazo de validade? Não pode o choque tornar-se, também, familiar? As pessoas querem sentir-se horrorizadas?

Que outros afetos são mobilizados por imagens abomináveis? Teriam elas o sentido de nos consternar, nos entristecer, fazer nos sentirmos mal, para talvez nos provocar um sentimento de revolta e de reação à abominação?

“Tornamo-nos melhores por ver essas imagens? Será que elas de fato nos ensinam alguma coisa? Acaso não vêm apenas confirmar aquilo que já sabemos (ou queremos saber)?”

Sontag lembra que Hannah Arendt, logo após a Segunda Guerra Mundial, considerou enganosas as fotografias dos campos de concentração feitas depois que as tropas aliadas neles entraram. Com tudo o que as imagens tinham de terrível, elas não mostravam os campos em funcionamento, durante sua operação normal, sob a qual o extermínio se dava de forma sistemática e organizada.

Diante da dor dos outros trata de fotografias feitas nos fronts de guerra. Corpos dilacerados, cidades destruídas. Mas este não é o objeto das imagens que buscamos montar aqui. Colocando em perspectiva as fortunas – os destinos – de corpos que compartilham o mesmo espaço e tempo, procuramos trazer alguma materialidade para as escalas sobre-humanas que hoje nos atravessam. Talvez fosse interessante pensar em tamanhos de corpos. Se os corpos humanos de Bezos, Page e Ballmer tivessem o tamanho de suas fortunas, que grandeza teriam eles?

Paula Ordonhes é mestranda em Filosofia pela EFLCH-Unifesp, com orientação de Edson Teles.

PS: Logo após a publicação deste artigo, acessamos um levantamento da Forbes atualizado em 19/05 onde lemos que, no período de dois meses compreendido entre 18 de março e 19 de maio de 2020, Jeff Bezos viu seu patrimônio crescer 30,6% e Mark Zuckerberg acumulou um aumento de 46,2% em sua fortuna. A relação pode ser acessada em https://inequality.org/billionaire-bonanza-2020-updates.

1  Importa lembrar que, em abril de 2015, a presidenta Dilma Rousseff estabeleceu uma parceria com o Facebook que franqueou a disponibilização dos aplicativos da empresa na maioria dos planos de internet oferecidos pelas operadoras de celular do país. Ver: https://www.bbc.com/portuguese/noticias/2015/04/150410_dilma_facebook_pai_jf; https://www.vice.com/pt_br/article/ypbykj/parceria-facebook-governo-brasileiro; e https://podecomparar.com.br/telecom/celular/whatsapp-gratis.



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