Filosofia Africana e Saberes Ancestrais Femininos: útero do mundo

Filosofia Africana e Saberes Ancestrais Femininos: útero do mundo

Acervo Online | África
por Adilbênia Freire Machado
3 de novembro de 2020
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A filosofia africana traz encantamento ante o desencantamento provocado pela filosofia ocidental. É vital tornar visível o pensamento africano, afrorreferenciado

Comparo a mulher à terra porque lá é o centro da vida.

Da mulher emana a força mágica da criação.

Ela é abrigo no período de gestação.

É alimento no princípio de todas as vidas.

Ela é prazer, calor, conforto de todos os seres humanos na superfície da terra.

 Paulina Chiziane

Um dia, quando ainda morava no sertão cearense, onde nasci sob luz de lamparina e pelos braços da parteira Mãe Chica, a menina que me habita acreditou que a filosofia fosse possibilidade de construir pensamentos e práxis de libertação, onde a pluralidade de saberes, de culturas, de povos fosse fonte para suas tessituras. Entretanto, ao chegar na Universidade encontrei uma filosofia sem poéticas de libertação, patriarcal e racista! No pensamento universal apresentado nas histórias da filosofia, nas metafísicas, éticas, teorias do conhecimento, dentre outras “disciplinas”, não se viam / conheciam filosofias negras, femininas… ou seja, o pensamento ocidental instituía-se como universal colocando os povos africanos, assim, também, seus descendentes, à margem do pensamento. Marginalizando e invisibilizando, também, o pensamento das mulheres, o feminino. Dizia-se que só era (é) possível filosofar em alemão! E esse alemão é branco, masculino e heteronormativo.

O desencantamento do mundo provocado pela filosofia que se aprende nas universidades levou-me a um questionamento que mudou todo o meu percurso e acabou por trazer-me, finalmente, o encantamento do mundo… Perguntei-me: como será a filosofia em África? Como filosofar em pretuguês, como nos ensina Lélia Gonzalez?

Vale lembrar que não conhecer não quer dizer que não exista, portanto, é necessário e urgente que outras filosofias façam parte da história da filosofia, para que assim ela possa ser ensinada de modo diverso, plural, inclusivo. É imperativo, também, que as mulheres filósofas sejam reconhecidas como parte dessa história.

Mulheres de Serra Leoa, África Ocidental
Mulheres de Serra Leoa, África Ocidental (Crédito: Annie Spratt/ Unsplash)

A filosofia africana traz, então, encantamento ante o desencantamento provocado pela filosofia ocidental. É vital tornar visível o pensamento africano, afrorreferenciado. Desse modo, compreendo que a(s) filosofia(s) africana(s), africano-brasileira, afrorreferenciada, implica-se na busca do rompimento com a colonialidade que não acabou com o fim das diversas colonizações de países europeus no continente africano e no Brasil. Implica-se com valorização e re-conhecimento de nossos saberes, de nossas culturas, de nossas filosofias, de nossos corpos. Re-conhecimento de nossas escrevivências. Pois, como nos ensina Conceição Evaristo, nada nasce imune ao que somos, as nossas vivências e experiências. Negar nossas escrevivências é seguir negando nossas filosofias, nossos saberes produzidos por corpos vivos, produtores de conhecimentos.

Nesse sentido, quero seguir o texto dialogando com os saberes ancestrais femininos. Dialogando com a filosofia africana desde e com vozes de mulheres, discutindo, brevemente, o feminino que habita em todas as pessoas. Assim, esses saberes apresentam-se como fonte de potencialização de nossas existências, de nossos saberes, de pertencimento, de ancestralidade e encantamento.

Partindo dessa perspectiva, cada pessoa é constituída pelas energias femininas e masculinas. É importante trabalharmos para mantê-las em harmonia. Entretanto, é a energia feminina que contém a cabaça da existência, cabaça que gera, cria, co-cria. O feminino é o útero do mundo, potência da vida comunitária, coletiva, pautada pela justiça e pelo bem viver. Carregamos toda uma ancestralidade que nos permite ser, existir, resistir, re-existir, assim, somos ancestrais, nossos corpos são ancestrais, portanto, sagrados. Desse modo, nossa existência só é possível em contato, em relação com a natureza. Sem ela não somos. A ancestralidade é a natureza. Assim sendo, os saberes ancestrais femininos nos ensinam que devemos voltarmos à terra, pois ela é o centro da vida. Voltarmos ao centro da terra é ouvirmos nossa ancestralidade, encantarmo-nos com essa escuta, uma escuta sensível que tece nosso ­ser-tão. É a escuta de nosso útero.

A escuta sensível inicia-se com a escuta de nossa intimidade, portanto, de nossa ancestralidade, de nossos corações. Não é apenas ouvir, mas sentir, perceber, encantar-se. Viver de dentro para fora, reconhecer o valor de nossa existência e, assim, reconhecer o valor de todas as existências. Ouvir, sentir, perceber as outras pessoas em uma relação de cuidado e com-partilha. Pois, a filosofia africana é pautada pela ética do cuidado.

Essa escuta privilegia o corpo como produtor de sentidos, de conhecimentos, corpo ancestral, assim re-conhecemos suas singularidades diante do coletivo que permite nossa existência. Nosso corpo é suporte de nossas vivências, experiências e sabedorias, de nossos sentidos, ele cria textualidades, reinventando a vida, potencializando o encantamento.

Portanto, a escuta sensível não apura apenas nossos ouvidos, mas nosso olhar, nossos modos de perceber, conhecer, sentir. E assim, podemos apreender a poesia, o sagrado que nos habita, encontrarmos as poéticas de encantamento oriundas da escuta ancestral, que também permite ouvirmos a criança que há em nós.

Os saberes ancestrais femininos são tecidos pelo conhecimento de nossa natureza, da natureza que há em nós, conhecimento de nossos ciclos, da nossa potência criativa, do nosso poder de permitir e potencializar a vida. Os saberes ancestrais femininos são a escuta da água que há em nosso útero, pois é escuta de nossa ancestralidade.

Essa escuta do nosso corpo ancestral tece o nosso ser-tão. Conhecer esse ser-tão é conhecer nossas entranhas, movimentar a energia que há em nós e é desse movimento que a vida se origina, que o conhecimento se dá. É, também, conhecer a sacralidade de um corpo natureza. O exercício de pertencer ao mundo e ser grata pela vida, nos desfazendo diariamente das inferiorizações que o racismo, o patriarcado, o epistemicídio, o genocídio e o feminicídio nos impõe. Ter o conhecimento como cura e, assim, potencializador da nossa força (energia) vital que nunca é única, pois carrega uma comunidade inteira. Somos o útero do mundo!

O feminino é a potência da reinvenção… da criação, do re-criar, do ressignificar, do co-criar. Como a água que se transforma, que forma, que flui, que desconstrói para reconstruir, que dá vida… O feminino é o ser de corpo inteiro, desde o útero, desde a possibilidade de toda e qualquer existência humana… Sabedorias fonte da própria vida.

A compreensão de um tempo outro que se dá de modo integrado, pois somos uma grande teia, onde passado e presente movimentam-se continuamente na busca da construção de um futuro melhor, tecido pelo bem viver. Nossa história é potência, vivência, experiências… é movimento de cada coisa dentro de um todo, respeitando as singularidades, as diversidades em meio a unidade.

Nossa origem é circular, é o círculo uterino de nossa mãe que nos acolhe não apenas durante nove meses… a circularidade é, pois, um padrão da cultura tradicional africana. O círculo não exclui, tem como características a integração, a horizontalidade, a ligação, a relação uterina, a relação maternal navegando em suas águas. A barriga / cabaça / útero que nos acolhe quando estamos nos preparando para estrear no mundo é repleta de água… simbiose com o mundo que está fora, mediado pelas cosmossensações maternais (para além de nossas mães biológicas)… somos complementos… O que entra no interior de um círculo já o compõe. E tudo que compõe um círculo está integrado em roda, onde cada elemento se relaciona com o outro, complementando-o. Somos cabaças da existência.

Nesse sentido, as filosofias da ancestralidade e do encantamento que tecem as filosofias africanas são bordadas pelo pertencimento. Pertencimento é construção, formação e escuta uterina e, assim, descoberta do que está inscrito em nosso íntimo, é ouvir o ritmo de nossos corações. É entender nosso eu interior e compreender o mundo, a vida desde esse pertencimento que é coletivo, enraizado, que é ­ser-tão. Assim, implica-se na saída do não lugar, do não ser, não pertencer, sempre em uma perspectiva coletiva. Pois definimos nossa existência pelo comunitarismo e pela justiça social, ou seja, ancestralidade e o encantamento.

Aprendi desde a escuta sensível e o encontro com meu ser-tão, que segue em movimento, que não existe conhecimento, que não existe filosofia sem o feminino! A ancestralidade é feminina… e o encantamento só existe desde a escuta ancestral.

Os saberes ancestrais femininos propõem que nos autorizemos a contar nossas histórias, a construí-las, reconstruí-las, contar sobre nossos valores, nossos saberes, nossas lógicas de pertencimento, de sociedade, de partilha, contar sobre nós mesmas, desde nossas escrevivências. Filosofar anunciando, resistindo, re-existindo, em um desafio cotidiano de descolonização, desconstruções, transformAções e encantamento! Aprender a ouvir / sentir / conhecer / filosofar de corpo inteiro, desde o chão que pisamos e que nos fortalece, é enraizar-se. O enraizamento é um movimento de expansão, fixação, movimento e profundidade, absorção da água para manter a energia vital… não há vida sem a água. O feminino é o útero, a cabaça, a água que permite a existência.

A ancestralidade guia, cuida, cura, encanta e encruzilha… A encruzilhada é lugar de encontros / encantos, desencontros / desencanto, é lugar da diversidade, da transforma-Ação, da ética do cuidado, da escuta sensível, do enraizamento… É uterina!

Adilbênia Freire Machado, filósofa, mestra e doutora em Educação. Autora do livro “Filosofia Africana: ancestralidade e encantamento como inspirações formativas para o ensino das africanidades”. NACE / Rede Africanidades / Rede Brasileira de Mulheres Filósofas / ABPN

 



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