Flávia Iriarte conversa sobre privilégio e violência em seu novo romance
Inspirado por uma experiência no Camboja, Instruções para desaparecer devagar investiga os limites da culpa individual diante das estruturas de gênero, classe e poder
Inspirado por uma experiência vivida no Camboja, Instruções para desaparecer devagar nasce, segundo a autora Flávia Iriarte, de uma inquietação que só se tornou claramente política durante o processo de escrita. O que começou como uma investigação sobre privilégio de classe revelou também a dimensão incontornável do gênero e das violências que atravessam a juventude feminina. Definido como uma “tragédia contemporânea”, o romance desloca o destino das forças divinas para as estruturas sociais e questiona até que ponto a consciência individual é capaz de transformá-las.
A protagonista, Alice, é uma jovem branca e rica que tenta converter a culpa difusa por sua posição de privilégio em ação concreta, apenas para descobrir seus limites. O livro tensiona esse impasse: reconhecer-se como parte de uma engrenagem desigual é suficiente? Em um contexto marcado pela performatividade moral nas redes sociais e pelo uso político do medo, especialmente contra mulheres, a autora sugere que a lucidez individual não substitui a luta coletiva.
Ambientada parcialmente no Sudeste Asiático, a narrativa evita o exotismo e transforma o cenário em espelho das contradições das próprias personagens, que projetam ali seus imaginários de liberdade e autenticidade. Com uma escrita seca e deliberadamente contida, o romance recusa a espetacularização da violência e examina como desigualdades de classe e poder atravessam tanto as relações entre mulheres quanto o próprio campo literário brasileiro. Mais do que denúncia, o livro propõe uma elaboração simbólica da experiência e reafirma a literatura como espaço de reflexão diante de impasses contemporâneos.
Flávia Iriarte é carioca e vive em Brasília. Formada em Cinema pela UFF e mestre em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio, é editora, mentora de Escrita Criativa e fundadora da escola online Carreira Literária. Em 2010, criou a Editora Oito e Meio, pela qual já publicou mais de 320 autores. Já coordenou a pós-graduação em Escrita Criativa na Uniítalo, onde ainda leciona. Vencedora do Prêmio Jovens Talentos da Indústria do Livro em 2016, é autora do livro de contos “Todo homem naufraga” (Oito e Meio). Seu trabalho impacta diariamente mais de 100 mil escritores em suas redes sociais. “Instruções para desaparecer devagar” é seu primeiro romance.

Leia a entrevista completa com a autora:
Instruções para desaparecer devagar nasce de uma experiência real vivida no Camboja. Em que momento você percebeu que aquele episódio não era apenas pessoal, mas também político, no sentido de revelar estruturas de gênero, classe e poder?
Para ser muito franca, essa reflexão só surgiu no percurso da escrita. Logo depois de viver a experiência, eu não pensei muito a respeito. Estava do outro lado do mundo e meu corpo estava ocupado em absorver as diferenças culturais e em aproveitar a viagem da melhor forma possível.
Mesmo durante a escrita, a questão de gênero demorou um pouco para aparecer de forma mais consciente. A pergunta inicial que orientava o livro estava mais ligada às questões de classe. Eu queria investigar até que ponto a consciência do próprio privilégio pode, de fato, alterar alguma coisa na realidade.
Mas, à medida que a escrita avançava, a questão de gênero começou a se impor. Em determinado momento, ficou claro para mim que seria impossível escrever personagens femininas sem que essa dimensão aparecesse.
Ao definir o romance como uma “tragédia contemporânea”, você desloca o destino dos deuses para as forças sociais. Que responsabilidades individuais e coletivas essa escolha narrativa coloca em jogo?
Essa pergunta toca, de certo modo, o cerne do livro. Quando comecei a escrevê-lo, queria investigar até que ponto a consciência do próprio privilégio pode, de fato, alterar a realidade.
Minha protagonista, Alice, é uma jovem branca e rica que carrega uma espécie de culpa difusa pela posição de privilégio que ocupa. Mas, quando decide transformar essa consciência em ação, percebe que as coisas não são tão simples assim.
Se uma pessoa preta chega para uma pessoa branca e diz que ela é uma opressora em potencial, ela não está mentindo. Mas o que exatamente essa pessoa pode fazer com isso, além de reconhecer esse fato?
Essa tensão existe justamente porque a resposta para o combate às opressões não está na consciência individual, mas na luta coletiva. Por si só, a consciência moral não é capaz de modificar estruturas sociais.
O livro expõe violências sutis e brutais que atravessam a juventude feminina. Por que, na sua avaliação, o medo ainda é uma pedagogia central na socialização das mulheres?
O medo sempre foi usado pela política e pelo capitalismo para manter o status quo. Pessoas com medo tendem a eleger salvadores e a evitar o questionamento.
No caso das mulheres, desde muito cedo, somos ensinadas a temer: a violência, a exposição, o julgamento. E no final das contas isso serve a quê?
Hoje, com o crescimento da extrema direita em várias partes do mundo, vemos esse uso político do medo se intensificar novamente. Discursos sobre segurança, moralidade e proteção da família frequentemente servem para justificar formas renovadas de controle sobre os corpos e as vidas das mulheres.
A amizade entre mulheres aparece como espaço de afeto, mas também de conflito, hierarquia e silenciamento. Como você trabalhou literariamente a ideia de que nem toda sororidade é horizontal?
A categoria mulher é importantíssima, mas como toda categoria ela esconde as nuances do grupo que abarca.
Uma mulher pobre enfrenta desafios diferentes de uma mulher rica. Uma mulher pobre e negra enfrenta desafios diferentes de uma mulher rica e branca. Uma mulher trans enfrenta desafios diferentes de uma mulher cis. Uma mulher branca e rica de um país periférico como o Brasil enfrenta desafios diferentes de uma mulher branca e rica nos Estados Unidos. Ainda que todas enfrentem desafios semelhantes pelo fato de serem mulheres.
Essas desigualdades colocam tensões, ainda que haja uma luta comum que não pode ser esquecida. Tentei trazer isso no livro.
Diferenças de classe atravessam a relação entre as personagens de forma incômoda. Você acredita que a literatura brasileira tem enfrentado, com honestidade, o tema da culpa branca e dos privilégios?
Acho que a literatura brasileira tem trazido a questão das opressões com muita força nos últimos anos, o que é extremamente importante. Mas, pessoalmente, sinto falta de um outro tipo de pergunta, que tento explorar no meu livro: quais são os limites da consciência individual do privilégio?
Houve um avanço importante quando, por exemplo, pessoas brancas passaram a reconhecer seu lugar de privilégio. Mas a questão seguinte é: o que fazemos com essa consciência? O que ela realmente produz no mundo?
Hoje vivemos também sob a lógica das redes sociais, em que todos têm uma persona pública e, muitas vezes, se sentem pressionados a performar virtude. Nesse contexto, declarar-se antirracista na internet pode beneficiar mais quem diz do que necessariamente contribuir para transformar estruturas.
No livro, eu tento explorar esse desconforto: o momento em que a consciência moral aparece, mas ainda não sabemos muito bem o que fazer com ela.
Ao ambientar parte da narrativa no Sudeste Asiático, o romance também convoca uma reflexão sobre turismo, colonialidade e deslocamento. Como evitar que esse cenário seja apenas exótico e fazê-lo funcionar como espelho das violências globais?
Essa pergunta é muito interessante e foi uma preocupação que me acompanhou ao longo da escrita. Mas este é, antes de tudo, um livro de ficção, e eu não estava tentando revelar alguma “verdade” sobre a Tailândia ou o Camboja.
O que me interessava era mostrar como aquelas personagens enxergam aqueles lugares a partir da bagagem que trazem. Elas chegam ao Sudeste Asiático carregando vários imaginários prontos sobre liberdade, autenticidade, o contato com o “outro” …
Nesse sentido, o cenário funciona menos como um objeto exótico a ser descrito e mais como um espelho das contradições dessas próprias personagens.
O livro evita o melodrama e aposta numa escrita seca, contida. Essa escolha estética também é uma escolha política diante da espetacularização da violência contra mulheres?
É uma escolha estética e ética, sem dúvida. Mas penso nisso como um projeto estético mais amplo — que inclui a questão que você traz, mas não só. Eu tento evitar o encantamento excessivo da linguagem e buscar uma escrita mais direta, que permita acessar as ideias sem tantos rodeios.
Muito grosseiramente, podemos dizer que a tradição literária costuma oscilar entre duas vertentes: uma que valoriza sobretudo a inventividade da linguagem, e outra que coloca mais ênfase nas ideias e no pensamento. Eu me sinto mais próxima dessa segunda tradição — embora admire muito a primeira.
No meu caso, a escrita mais seca e contida nasce desse desejo de pensar certas questões com clareza. Inclusive a própria violência.
Você afirma que a juventude é uma fase profundamente violenta, especialmente para mulheres. O que essa constatação diz sobre os discursos romantizados que ainda cercam essa etapa da vida?
Não sei dizer, mas espero que o livro possa contribuir para colocar esses discursos em perspectiva.
Como mulher, editora e mentora literária, você ocupa múltiplos lugares de poder no campo do livro. De que forma essa trajetória influencia sua visão crítica sobre o mercado editorial brasileiro?
Quando abri minha editora, em 2010, eu não conhecia ninguém do meio editorial. Na verdade, eu não tinha nenhuma visão do funcionamento do meio — simplesmente porque nunca tinha me perguntado sobre isso.
À medida que fui me envolvendo mais profundamente com o mercado do livro, fui percebendo que, como qualquer outro setor da sociedade brasileira, ele reflete muitas das contradições e desigualdades do país.
Os grandes grupos editoriais brasileiros pertencem, em sua maioria, a famílias ricas há gerações no eixo Rio–São Paulo. Algo semelhante acontece com as grandes empresas de comunicação, que também concentram o poder de decidir o que aparece e o que não aparece no debate público. Em outras palavras: ainda há muito poder nas mãos de poucas pessoas.
Ao mesmo tempo, acredito que esse cenário vem mudando — ainda que lentamente. Hoje existe uma quantidade muito maior de editoras independentes do que havia vinte anos atrás. Casas pequenas, como a Oito e Meio, ajudam a ampliar a diversidade de vozes presentes no mercado.
E iniciativas como o Carreira Literária também surgem nesse contexto, tentando deslocar a ideia de que a atividade literária é um espaço natural de poucos iniciados.
Você acredita que ainda existe uma expectativa de que escritoras tratem a violência contra mulheres de forma pedagógica ou conciliadora? Como seu romance dialoga, ou rompe, com essa cobrança?
Acho que existe uma expectativa — sobretudo por parte das próprias mulheres, e que considero absolutamente legítima — de que narrativas que abordam a violência contra nós não sejam gratuitas, nem essencialmente gráficas, nem corram o risco de produzir algum tipo de gozo ou voyeurismo no leitor.
A primeira versão do meu romance terminava logo após a cena do quarto do hotel. Em determinado momento, porém, percebi que seria eticamente insuficiente encerrar a história ali, e foi por isso que escrevi os dois capítulos que vêm depois.
Eu não queria que as minhas personagens permanecessem aprisionadas naquele episódio. Era importante que elas tivessem a chance de retomar a própria narrativa, de falar, de interpretar o que aconteceu com elas.
Em um país como o Brasil, onde a violência de gênero é estrutural, como você enxerga o papel social da literatura: denúncia, elaboração simbólica, confronto ou tudo isso ao mesmo tempo?
Sim, tudo isso. E, principalmente, o de dar algum sentido e transcendência à própria vida. Porque, sem a arte, a vida é árida demais.
Marcela Güther é jornalista, gestora de comunicação e especialista em relacionamento com a mídia e influência na editora orlando e na com.tato, empresa especializada em comunicação para editoras e autores independentes. Com mais de 10 anos de experiência no setor de comunicação, atua também como mediadora de clubes e mesas literárias, combinando paixão por leitura com expertise em comunicação e curadoria de conteúdo literário.
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