Freud, Boaventura e o exemplo de Temístocles em uma nova racionalidade política - Le Monde Diplomatique

REVOLUÇÃO E CUSTÓDIO

Freud, Boaventura e o exemplo de Temístocles em uma nova racionalidade política

por Marco Aurélio Souza Mendes
dezembro 4, 2018
Imagem por Gigi Ibrahim/cc
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Aqueles que se cegam perante a realidade atual não entendem a necessidade de rediscussão do modelo institucional que está permitindo o avanço de subterfúgios extremistas como solução para problemas conjunturais. Consenso, associação e discussão intelectual são ferramentas importantes para aprofundarmos nos diversos questionamentos

Durante estes dias, recordei-me de uma breve passagem machadiana de outrora leitura que me marcou profundamente. Em Esaú e Jacó, Aires discute com Custódio sobre o novo nome de sua Confeitaria, espaço que possuía a alcunha de “Confeitaria do Império” em meio ao novo regime republicano instituído. Aires, como um Conselheiro de parcimônia, dentre suas sugestões rejeitadas opinou pelo acréscimo de “das leis” após “Império” ou suas substituições por “Governo”, numa acepção de neutralidade, bem como por “Custódio”, retirando qualquer acepção política. Custódio tivera suas razões pessoais para escolher uma alcunha em detrimento de outra (e todas com iguais razões pertinentes). A situação expressava uma certeza simbólica de que gastava alguma coisa com a troca de uma palavra por outra, Custódio em vez de Império, mas as revoluções trazem sempre despesas¹.

A palavra revolução, em termos semânticos, pode apresentar inúmeros significados a depender de seu contexto utilizado. Apresso-me a dizer que cotidianamente há um uso desarrazoado do vocábulo que enfraquece seu verdadeiro papel transformador. Muitas “revoluções” apresentadas sob a égide de pretensa mudança, na realidade, são técnicas de vazio discursivo para o auto justificar sobre o nada. Simplificando: representam mais sobre o mesmo.

O dicionário conceitua a palavra revolução, dentre um de seus tantos significados, como perturbação, indignação, agitação, transformação, repulsa². Nem sempre uma revolução pretende uma ruptura do sistema de maneira violenta e brusca, como um modelo ocorrido na Revolução Francesa. Nestes termos, Aires seria um parco conselheiro para nossa era.

Não é fácil trabalhar cientificamente com sentimentos. Enxergo esta pretensão como o maior desafio proposto pela Ciência Política. A política, recheada de microrrevoluções, destina espaço institucional para a instrumentalização das paixões em um movimento coordenado. Freud dialoga com a hipótese da impossibilidade de análise racional e científico das pretensões sentimentais em sua obra O mal-estar da Civilização.

Em determinada passagem de seu ensaio, o psicanalista descreve a particular importância do empreendimento conjunto em busca da felicidade e da proteção contra o sofrimento por meio da modificação da realidade. Além disso, e considero de extrema importância, é que a partilha do delírio por essa massa é naturalmente imperceptível por si mesmos.

Interessante esta análise de Freud sobre o comportamento instintivo de proteção e busca da felicidade dos homens. O oportunismo político de outsiders facilmente pode se apropriar desta condição para manejar o cenário de apropriação dos meios e fins da política como bem entender. O factual de nossa realidade apresenta diversas hipóteses que podem ser confirmadas pela dedução deste argumento. Explico adiante.

Escola Sem Partido. O projeto de lei nº 867 de 2015 encampa a ideia de que existe uma aparelhamento ideológico no ambiente escolar e que se aproveita da vulnerabilidade dos estudantes para lhes incutir o conjunto de posturas denominadas de marxismo cultural.

A bandeira levantada pelo movimento se utiliza de argumentos vagos e imprecisos para defender uma postura de neutralidade (se é que ela realmente existe). Retomo uma abordagem inicial deste ensaio: como abarcar uma perspectiva neutra sobre a história e a política se a própria palavra revolução em seu aspecto semântico está intimamente ligada com atos caracteristicamente subjetivos como a indignação, a perturbação e a repulsa? Não me parece sem razão uma defesa oposta ao projeto sob o circunspecto da censura, dito que os próprios defensores do projeto afirmam que a liberdade de expressão do professor é de uma categoria diferenciada das demais³.

Justiça. Autonomia. Ser humano. Se as bandeiras de neutralidade dos defensores de movimentos semelhantes ao E.S.P. fossem legítimas, não haveria uma preocupação em criar um discurso de subversidade de alguns autores da esquerda como Paulo Freire e Boaventura de Sousa Santos. Na obra Epistemologias do Sul, Santos (2008) apresenta a clara coexistência entre democracia e sua nova acepção de fascismo, o fascismo social. A grande análise do autor em seu capítulo sobre a ecologia dos saberes é nos alertar para a emergência de um novo tipo de fascismo, determinantemente pluralista, e que é possível de conviver harmonicamente com sociedades politicamente democráticas4.

Uma característica importante deste novo movimento, na acepção do autor citado, é através da exclusão social de determinadas classes por meio da eliminação de seus direitos sociais e econômicos. Percebe-se que a manutenção dos direitos políticos é parte de um processo para angariar uma aparência de cidadania para as medidas, pois não há espaços para revoluções como a do século passado. Boaventura afirma que há uma coexistência entre a legalidade e exceção dentro de um mesmo regime. Ainda que algumas medidas anunciadas pelo vindouro governo possam vir a ser repensadas, o simples fato de seu anúncio já exerce uma simbologia ideológica do que está por trás de seus interesses5.

Percebo uma certa convergência entre este novo paradigma político adotado por Santos e o pensamento de Paulo Freire. A organização de uma minoria, defendida em sua obra Pedagogia do Oprimido, é um elemento crucial para combater este novo paradigma. Para Freire (1994), o caminho para assumir-se como maioria está em trabalhar as semelhanças, e não só as diferenças, e assim criar a unidade na diversidade, fora da qual não vejo como aperfeiçoar-se e até como construir-se uma democracia substantiva.

Novamente retomo a abordagem para o E.S.P. como fonte determinante de observação. Adotar a abertura semântica vaga do projeto, numa perspectiva de neutralidade, é endossar o paradigma apresentado sobre um fascismo pluralista, em que aquilo não convergente com uma ideologia dominante na sua moral religiosa, cívica ou familiar será extirpada do debate público. Uma verdadeira E.S.P., em um sentido didático e pedagógico, é o ambiente em que se abre espaço para o debate plural, inclusive de perspectivas conservadoras, pois o desenvolvimento de uma democracia parte do pressuposto do aperfeiçoamento de todos os discursos na tentativa de se encontrar a convergência.

Freud (1930) explica que a possibilidade da convivência em sociedade se dá apenas quando há uma maioria mais forte que qualquer indivíduo. Para o psicanalista, é neste momento que o poder desta comunidade irá se estabelecer como “Direito” em oposição ao indivíduo. Este movimento cultural descrito por Freud parece refletir o conteúdo central da coordenação dos movimentos na Ciência Política.

Ainda que sua abordagem psicanalítica possa ser ultrapassada frente às teorias cognitivo-comportamentais na análise do indivíduo, tomo este ensaio freudiano como um ponto de partida para a Ciência Política. Frisa-se ainda que o autor continua em sua obra delimitando que o desejo humano de conseguir a felicidade acaba por governar seus juízos, e que se nos deixamos ser controlados por esta “neurose”, tentaremos escorar nossas ilusões com argumentos.

Basta um raciocínio lógico simplista para avaliar que os eventos que sucessivamente ocorrem na América Latina não são fruto do acaso ou meramente da insatisfação social. Freud compara este comportamento de normose ao que acontece na irracionalidade da religião. É interessante perceber a ligação entre a derrocada conjuntural das estruturas democráticas como conhecemos com o crescente apoio para as instituições representantes de uma ordem cívica e moral como a Igreja e o Exército. Uma pesquisa realizada pelo Instituto Latinobarómetro para o The Economist demonstrou que somente a Igreja e as Forças Armadas continuam a manter prestígio no cenário de desconfiança institucional acentuada dos dias atuais6.

Talvez a história do grego Temístocles possa nos dar algumas lições de aprendizado para que caminhemos em uma nova direção. Dirijo-me principalmente para uma pretensa nova esquerda que precisa ressurgir como oposição. É preciso colocar os velhos emblemas no ostracismo. É preciso agrupar os pequenos grupos minoritários por meio de sua convergência. É preciso aplicar no discurso político a pedagogia de Paulo Freire. Se isso não ocorrer, pouco a pouco a sombra de uma nova configuração fascista plural soterrará qualquer resquício de ressurgimento de uma frente que retome o debate político para o eixo da social democracia.

Para alguns estudiosos, os sucessivos ostracismos que ocorreram na época da batalha entre gregos e persas foram utilizados por pretextos de facções políticas que tinham o intuito de tomarem o poder na democracia ateniense. Nesse sentido, Aristóteles defendeu está assertiva em sua obra Política.

A grande divisão ideológica do povo grego em uma época de confronto sobre a política de guerra contra os persas ou a política de reestabelecimento de relações e diálogos permitiu um cenário de sucessivos ostracismos que levaram Temístocles, forte defensor da política de rearmamento de Atenas, ao poder. Curiosamente, este mesmo discurso polarizado foi o que permitiu a Címon colocar o estadista em descrédito e levar Atenas a uma nova aristocracia e tirania, banindo Temístocles da política7.

Talvez seja esse um dos motivos da França, na contramão do que discutimos por aqui, estar disposta a revisitar seu currículo básico e reestimular o estudo das línguas clássicas (e por consequência da história por trás de seus povos) no ensino básico e médio8.

Não compreender o fenômeno que simbolicamente ocorre na política global, em específico nos países da América Latina, tanto pelo viés de rediscussão de agrupamento crítico das minorias e revisitando o ensinamento histórico dos povos clássicos, é possivelmente um estopim para cairmos na miséria psicológica da massa. A este conceito atribuo a responsabilidade de Freud pela perda da individualidade como mecanismo de identificação dos membros de uma comunidade.

Quantas despesas! Ao retornar em Machado, vislumbro que Custódio queria dizer muito mais do que mera contabilidade com sua fala.  Nosso trato com a Democracia ainda custará muito. Aqueles que se cegam perante a realidade atual não entendem a necessidade de rediscussão do modelo institucional que está permitindo o avanço de subterfúgios extremistas como solução para problemas conjunturais. Consenso, associação e discussão intelectual são ferramentas importantes para aprofundarmos nos diversos questionamentos propostos por este ensaio. Mas adianto: antes que possamos perceber, a fatura pode alcançar uma cifra impagável.

 

*Marco Aurélio Souza Mendes é mestrando em Justiça Administrativa pelo Programa de pós-graduação em Justiça Administrativa (PPGJA) da Universidade Federal Fluminense (UFF). É também bacharel em Direito pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU), analista político e escritor (autor da novela Abapanema, o lugar das coisas ruins).

 

 



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