GameStop, um populismo de plataforma - Le Monde Diplomatique

FUNDOS ESPECULATIVOS DERROTADOS EM SEU PRÓPRIO CAMPO

GameStop, um populismo de plataforma

por Evgeny Morozov
1 de março de 2021
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Em janeiro deste ano, milhares de pequenos investidores on-line coordenaram suas compras e vendas com o objetivo de aumentar os preços das ações de empresas em que grandes fundos de investimentos tinham apostado na baixa. Aplaudida da direita à esquerda, essa rebelião dos “pequenos” contra os “grandes” revela uma revolução ou um carnaval?

Apesar do caos que semeou nos mercados mundiais, a saga da GameStop não se resumiu a uma história de investidores individuais humilhando um punhado de fundos de investimentos arrogantes. Ela expressa um prolongamento imprevisível da invasão do Capitólio, em Washington, no dia 6 de janeiro passado. Os dois acontecimentos tiveram como protagonistas uma horda de fanáticos por redes sociais que cercaram as instituições sagradas de um establishment profundamente desdenhado.

Mas, enquanto houve uma condenação unânime dos agitadores de Washington, os que participaram da cruzada anti-Wall Street se livraram dela. Ao defenderem as ações de empresas mal das pernas contra a ganância dos fundos de investimento, esses revolucionários do underground que usam bandana até ganharam a simpatia de dois campos políticos. 

Para a contracultura digital, a principal lição a tirar dessas duas sublevações parece clara: os verdadeiros épicos da rebelião contra a ordem estabelecida devem dominar a arte de negociar stock-options e derivativos mais do que escalar os muros agitando bandeiras dos confederados. A revolução talvez tenha sido propagada ao vivo, tuitada e televisionada, mas vale a pena salvar sua planilha de cálculo do Excel.

A dignidade concedida à cruzada GameStop reflete a imagem negativa da reputação dos fundos de investimentos. Outro elemento, menos evidente, explica por que ela foi bem recebida pela opinião pública: o discurso sobre a “democratização” que acompanhou a decolagem dos serviços de corretagem com custos mais baixos. Foi a primeira página dessa plataforma, denominada Robinhood, que forneceu a infraestrutura digital da rebelião GameStop. Sua missão consiste, de acordo com o slogan repetido ad nauseam por seus fundadores, em “democratizar as finanças”. Essa frase evoca a nobre missão a que se dedicavam os fundos com foco em índices como o Vanguard no início dos anos 1970: criar instrumentos financeiros simples, garantidos e pouco onerosos para permitir ao cidadão médio investir na Bolsa. No entanto, a plataforma Robinhood procura se distinguir das empresas de corretagem corriqueiras de Wall Street. Ela se concebe como uma força revolucionária e disruptiva recém-saída do Vale do Silício.

A “democratização” que a plataforma Robinhood reivindica parece, assim, ter um aspecto diferente. Ela se inscreve na linhagem do Uber, do Airbnb e da WeWork mais do que da Vanguard ou da BlackRock. Todas essas empresas gigantescas do mundo digital têm promessas de “democratizar” rapidamente alguma coisa – respectivamente transportes, hospedagem e escritórios. 

Muito rapidamente, essa indústria nascente, com sua bela promessa de “democracia por meio de serviço on-line”, não tem mais limites conhecidos, lançando uma cruzada mundial para “democratizar” alternativamente o passeio com cães, o cuidado de crianças, a preparação de sucos e os serviços domésticos. Quem pensaria que esses aspectos triviais da vida cotidiana fossem intrinsicamente tão repressivos e totalitários a ponto de necessitarem de uma “democratização” radical?

(Crédito: Unsplash)

Essa campanha mundial se baseou em um levantamento de fundos junto a sociedades de capital de risco e de investidores institucionais que, imobilizados pelas fracas taxas de juros herdadas da crise financeira mundial, não sabiam mais onde colocar seu dinheiro. Mas a história não parou aí. Esse impulso de “democratização” que utiliza os mais variados meios e tem os mais diversos objetivos se beneficiou também do apoio de um modelo da democracia liberal tão exemplar que o governo da Arábia Saudita se associou ao conglomerado japonês SoftBank para pulverizar milhões de empresas como o Uber e a WeWork.

Esses fluxos financeiros, associados a novos modelos comerciais que tornaram oficialmente “gratuitos” serviços anteriormente pagos (correio eletrônico, cartões de crédito, relações de oferta e demanda), criaram uma ilusão de progresso e de mobilidade social. O inevitável processo de “democratização” reivindicado por todas as plataformas resultava muitas vezes de simples cálculos aritméticos. Para a WeWork, os cálculos se revelaram errôneos. Resta saber se a Robinhood, que acaba de levantar em caráter de urgência US$ 1 bilhão suplementares para continuar a flutuar, terá um destino mais feliz. Na maior parte dos casos, as belas promessas mudaram bruscamente de direção.

Assim, a indústria digital tornou-se o principal fornecedor de “populismo” pelo globo. Uma informação como essa pode parecer exagerada. Se reservarmos a palavra “populismo” para falar de Steve Bannon, Viktor Orbán e Recep Tayyip Erdoğan, podemos realmente colocá-la ao lado de Jeff Bezos ou Mark Zuckerberg?

Podemos – e devemos. Com os olhos fixos no “populismo” primitivo, tóxico e nacionalista de Donald Trump, não fomos capazes de observar o papel do Vale do Silício na emergência de um “populismo de plataforma” sofisticado, cosmopolita e cortês. 

Ele se desenvolve martelando de maneira quase conspiratória que o mundo não é como acreditamos. As empresas estabelecidas, companhias de táxis, hotelaria, fundos de investimentos, teriam mudado as regras do jogo de maneira a favorecer seus próprios interesses. Somente com as “disruptivas” é que podemos contar com os benefícios prometidos pelas tecnologias digitais. Para atingir esses objetivos, as plataformas prometem liberar as forças do capitalismo a fim de civilizar esses vestígios selvagens da era pré-digital.

Iniciado entre o Vale do Silício e Wall Street, o populismo de plataforma desempenha um papel bastante paradoxal: ele promete refrear o capitalismo, deixando livre curso a formas ainda mais selvagens de capitalismo para o bem da humanidade. 

Como a maior parte dos “populismos”, esse não se apodera da política econômica que o tornou possível. E o que é ainda pior: se os fundos de investimentos negligenciados perderem dinheiro que financia universidades e aposentadorias dos assalariados, estes últimos não têm outra coisa a fazer a não ser abandonar os fundos de pensão para a plataforma Robinhood!

Pouco importa que a rigidez dos atores da era pré-digital esteja relacionada às legislações impostas por Estados democráticos (ainda que capitalistas). Na realidade, no mundo oposto ao populismo de plataforma, desmanchar as leis democráticas submetendo-as à pressão econômica permanente da concorrência, acelerada pela digitalização e pelos recursos infinitos de seus investidores, constituiria uma prova irrefutável de “democratização”. 

Não se leva mais em consideração que o populismo de plataforma adote um discurso consideravelmente enganador e seja lucrativo para o SoftBank e para a Arábia Saudita. Privado de uma ideologia própria coerente, ele se interessa pelos processos, e não pelas consequências. Ele quer provar que, apesar das maquinações burocráticas e de suas detestáveis legislações, nossa capacidade de iniciativa individual permanece intacta, a ponto de tornar inútil qualquer mobilização em torno de um programa político a longo prazo.

Seguramente, a maior parte dos furiosos soldados de infantaria da GameStop imagina que seus ganhos pessoais são frágeis e temporários. Mas quem poderia lhes negar o prazer de reafirmar sua própria liberdade ao se vingarem da autoridade, sabendo ao mesmo tempo que, nesse tipo de negócio, os benefícios a longo prazo voltarão… por outros fundos de investimentos? 

 

*Evgeny Morozov é fundador e editor do portal The Syllabus. Autor de Pour tout résoudre cliquez ici. L’aberration du solutionnisme technologique [Para resolver tudo clique aqui. A aberração do solucionismo tecnológico], FYP Éditions, Limoges, 2014.



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