Geopolítica, o domínio confiscado
Formados nas mesmas escolas e habituados aos círculos do poder, jornalistas e especialistas propagam uma leitura maniqueísta dos grandes acontecimentos internacionais, sem deixar espaço algum para vozes dissonantes
Em 30 de abril de 1998, George Kennan, inspirador da doutrina de contenção da União Soviética no início da Guerra Fria, soltou um suspiro de raiva misturada com desespero. O Senado norte-americano acabava de ratificar a ampliação da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) para três antigos países do bloco oriental: Polônia, Hungria e República Tcheca. No ano anterior, porém, Kennan havia alertado que tal decisão seria “o erro mais funesto da política norte-americana de toda a era pós-Guerra Fria”.[1] E esbravejava: “Os russos vão reagir progressivamente de maneira francamente negativa, e isso terá consequências sobre suas políticas”. Primeiro diretor de assuntos políticos do Departamento de Estado e autor de um famoso artigo publicado na revista Foreign Affairs, no qual recomendava “opor aos russos uma força de resistência inabalável em todo lugar onde eles começassem a avançar sobre os interesses” dos Estados Unidos,[2] Kennan considerava então que o Ocidente,…

