PODER E INFLUÊNCIA NA GEOPOLÍTICA TECNOLÓGICA

Geopolítica tecnológica: velhas fronteiras, novas disputas

É válido se questionar se essas teorias geopolíticas ainda são válidas para explicar as dinâmicas das relações internacionais, principalmente diante dos avanços tecnológicos sem precedentes que vêm sendo experimentados

A velocidade de comunicação proporcionada pela Tecnologia da Informação e Comunicação (TIC) parece ter transformado nosso planeta em uma “superfície contínua”, em que as barreiras físicas e geográficas se diluem. Contudo, essa percepção de um mundo sem atritos é desafiada por uma realidade geopolítica complexa, marcada por intensas disputas por recursos naturais estratégicos, como o lítio e as terras raras, minerais essenciais para a indústria tecnológica. Paralelamente, a atenção se volta para os chamados “pontos de estrangulamento”, gargalos geográficos cruciais para o transporte de produtos que cruzam os oceanos, abastecendo uma complexa e interdependente cadeia de abastecimento global. Essa disputa territorial e econômica por poder e manutenção da influência no Sistema Internacional leva os países a recorrer a estratégias diversas e por vezes contraditórias, como a taxação de produtos, a ampliação de alianças ou mesmo o fortalecimento do multilateralismo.

Neste contexto de competição, é fundamental revisitar as teorias geopolíticas clássicas, que, embora distantes no tempo, oferecem lentes valiosas para compreender as dinâmicas de poder contemporâneas. Pensadores como o americano Alfred Mahan, o britânico Halford Mackinder e o holandês (radicado nos EUA) Nicholas J. Spykman, com suas formulações sobre o poder marítimo, terrestre e anfíbio, respectivamente, lançaram as bases para a compreensão das estratégias de projeção de poder que ainda ressoam na era digital.

Em 1890, Alfred Mahan publicou sua obra seminal The Influence of Sea Power Upon History, 1660-1783, na qual argumentava que o poder marítimo seria fundamental para o controle das rotas de navegação, garantindo segurança e prosperidade para as nações. Para Mahan, uma marinha forte e a capacidade de projetar força naval em qualquer ponto do globo eram pilares essenciais para qualquer hegemonia. Suas ideias foram seguidas pelos Estados Unidos, que, ao longo do século XX, estabeleceram-se como uma expressiva potência naval, com uma frota capaz de operar em todos os oceanos e uma rede de bases militares que assegurava o domínio das principais rotas comerciais e estratégicas mundiais. O controle dos mares, segundo Mahan, não era apenas uma questão militar, mas uma precondição para o desenvolvimento econômico e a influência na política global.

Já em 1904, o geógrafo Halford Mackinder apresentou a teoria do “Heartland”, o Coração da Terra. Essa vasta região compreendia as áreas europeias da Rússia agrícola até as planícies da Sibéria, recebendo a denominação de Eurásia ou “Ilha Mundial”. Para Mackinder, esse território era rico em recursos naturais estratégicos, e possuía expressivo potencial logístico, especialmente se percorrido por um sistema ferroviário eficiente. Além disso, por não estar conectado diretamente aos oceanos, estava protegido de eventuais ataques navais, diminuindo significativamente as ameaças eventualmente enfrentadas. Aquele que controlasse o Heartland, argumentava o britânico, poderia projetar poder sobre o restante do continente. Suas palavras tornaram-se um mantra geopolítico: “Quem domina o leste da Europa, domina o Heartland. Quem domina o Heartland, reina na ‘Ilha do Mundo’. Quem domina a ‘Ilha do Mundo’ governa o mundo inteiro”. A teoria influenciou profundamente as estratégias das grandes potências no século XX, especialmente durante as duas Guerras Mundiais, ao destacar a importância do controle de vastas massas terrestres e seus recursos.

Para o geógrafo Nicholas J. Spykman, (1893 – 1943), no entanto, Mackinder superestimou o poder do Heartland. Para ele, a região era predominantemente agrária e menos desenvolvida e, portanto, vulnerável. Ainda, a ausência de conexão com os mares representaria mais uma fragilidade do que uma proteção. Em sua teoria do “Rimland”, Spykman se apoiou nas ideias de Mackinder, mas considerou que a região costeira em forma crescente que circunda o Heartland, incluindo parte da Europa Ocidental, o Oriente Médio, a Índia, o Sudeste Asiático e a China, era chave para o domínio global. Para Spykman, o Rimland era mais importante do que o Heartland justamente porque, estando no seu entorno, teria condições de “sufocá-lo” e controlá-lo. Diante disso, o autor considerava que “Quem controla o Rimland governa a Eurásia, quem governa a Eurásia controla os destinos do mundo”. A estratégia estadunidense de cercar o Sudeste Asiático durante a Guerra Fria, com a formação de alianças e o estabelecimento de bases militares, reflete, em grande medida, a adoção das ideias do Rimland pelos EUA, visando conter a União Soviética e, posteriormente, também a China.

Em grande medida, ao longo do século XX, os EUA se apoiaram nessas teorias geopolíticas para garantir seu poder global, que pode ser percebido no domínio do mar, na criação da OTAN e da OTASE (Organização do Tratado da Ásia do Sudeste), e na busca por projeção de poder na Ásia, seja pela tentativa de domínio do Mar do Sul da China, seja pelas guerras na Coreia e no Vietnã entre as décadas de 1950 e 1970.

Desde então, o mundo se alterou significativamente – e, com ele, as relações internacionais. Não apenas a Guerra Fria acabou, como hoje vivemos em um contexto de crescente multipolaridade – no qual, ainda que tenhamos a China como principal concorrente estadunidense, inegavelmente temos diversos outros atores com protagonismo e projeção crescentes. Nesse contexto, embora o poderio nuclear continue a ser um fator dissuasório incontornável, a dimensão cibernética emergiu como um campo novo campo de batalha, redefinindo as estratégias de segurança e projeção de poder, com implicações que transcendem o âmbito militar e permeiam a vida cotidiana.

Diante disso, parece válido se questionar se essas teorias geopolíticas ainda são válidas para explicar as dinâmicas das relações internacionais, principalmente diante dos avanços tecnológicos sem precedentes que vêm sendo experimentados. Embora distantes no tempo, essas teorias podem nos ajudar a entender que existe uma disputa geopolítica no ciberespaço, demonstrando que esse ambiente não é uma superfície contínua, mas sim, disputado por uma intrincada rede de interesses regionais e globais. Frente a isso, a possibilidade de analogias com as teorias clássicas é expressiva.

Recordando Mahan, no fundo dos oceanos uma complexa rede de infraestrutura de mais de 500 cabos submarinos interliga países e continentes, garantindo a conexão da internet global. O controle e a segurança desses cabos tornaram-se, no século XXI, um novo domínio do poder marítimo. Neste sentido, Pequim investe pesadamente em novos cabos no Mar do Sul da China, expandindo suas redes para o continente europeu e a África. Essa rede, que busca ampliar seu acesso a dados e também evitar passar pelas redes dos EUA, é uma das metas da chamada Rota da Seda Digital. Esse projeto não é apenas uma infraestrutura física, mas uma estratégia para estabelecer padrões tecnológicos, influenciar governos e coletar dados em escala global, expandindo a influência chinesa de forma capilar.

Símbolo da geopolítica, a fotografia pega parte de um globo.
Crédito: Pexels

A essa disputa pela infraestrutura de dados soma-se à corrida pela tecnologia de redes 5G. A chinesa Huawei, por exemplo, promete melhor tecnologia com preços mais competitivos que as empresas dos Estados Unidos e de outros países ocidentais. A implantação de redes 5G é crucial para a economia digital do futuro, permitindo a interconexão de bilhões de dispositivos e o desenvolvimento de novas indústrias. O domínio dessa estratégia confere importante vantagem estratégica, e as preocupações com segurança e espionagem têm levado a embates geopolíticos e restrições comerciais significativas. A arquitetura da rede de dados chinesa, que abrange extensas porções da Eurásia e da África, pode ser concebida como uma reinterpretação das formulações de Mackinder acerca do domínio do Heartland, agora materializada no ciberespaço, em que a conectividade e o controle informacional se tornam vetores cruciais para a projeção de poder.

Atualmente, os Estados Unidos possuem as maiores empresas e produtos no setor de Inteligência Artificial (IA). O Oriente, contudo, vem avançando rapidamente na busca pela liderança de avanços em IA. Na pesquisa acadêmica, os chineses superam os EUA no número de pesquisas publicadas, número de citações e patentes de produtos em IA. Ademais, são acompanhados pela Coreia do Sul em número de patentes em IA per capita, demonstrando a existência de um polo de inovação significativo na Ásia. Soma-se a isso a concentração da produção de mais de 90% dos chips mais avançados do mundo na empresa TSMC, localizada em Taiwan, que possui nas coreanas Samsung e SK Hynix suas maiores concorrentes. Essa concentração de pesquisas em IA e empresas de chips no Mar do Sul da China, uma região de intensa disputa geopolítica, nos faz lembrar da Teoria do Rimland, de Spykman. O controle desse “Rimland tecnológico”, onde a produção de componentes vitais para a economia digital está concentrada, é um ponto focal da competição global.

Pequim considera Taiwan uma província rebelde, contudo, uma invasão chinesa à ilha poderia desencadear um conflito entre grandes potências capaz de paralisar a economia global ao estancar o fornecimento de chips. Devido a isso, os EUA, além de implementarem bloqueios à China para a aquisição de semicondutores, investem bilhões de dólares em projetos para que chips possam ser construídos em seu próprio território, visando diminuir a dependência do leste asiático e mitigar os riscos geopolíticos associados a essa concentração.

Portanto, a moderna economia digital não se trata apenas de servidores e nuvens, mas sim, de um conjunto de dinâmicas dominada por pontos de estrangulamento que estão em fábricas de chips, estações de aterrissagem de cabos submarinos – como em Marselha, na França, que concentra a chegada de cabos da África, Ásia e Oriente Médio à Europa –, além da concentração de patentes e de modernas pesquisa em IA. Tudo isso nos ajuda a pensar sobre a política do ciberespaço, na qual os países seguem a lógica da segurança e sobrevivência, buscando dominar o fluxo dos dados, controlar terras raras e liderar as evoluções tecnológicas em IA e redes 5G para ampliar seu poder global. As teorias de Mahan, Mackinder e Spykman, embora formuladas em um contexto diferente, continuam a oferecer um arcabouço conceitual robusto para entender as complexas disputas por poder e influência na geopolítica tecnológica do século XXI. O mundo digital, longe de ser uma superfície contínua, é um campo de batalha em que as fronteiras se redefinem e a busca por hegemonia se manifesta em novas formas e domínios.

 

Cícero Araujo Lisboa é Doutorando e Mestre em Estudos Estratégicos Internacionais pelo Programa de Pós-Graduação em Estudos Estratégicos Internacionais da Universidade Federal do Rio Grande Sul (PPGEEI/UFRGS). Membro do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Relações Internacionais do Sul Global (NEPRISUL) da UFRGS e colaborador do Papo de Defesa, Grupo de Extensão da UFRJ. Atua como analista de cibersegurança e riscos.

 

Guilherme Ziebell é Vice-coordenador do Programa de Pós-Graduação em Estudos Estratégicos Internacionais e coordenador da Graduação em Relações Internacionais da UFRGS. Coordenador adjunto do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Relações Internacionais do Sul Global (NEPRISUL) da UFRGS. Doutor em Ciência Política e mestre em Estudos Estratégicos Internacionais.

 

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