REPORTAGEM

‘Girl Online’: Imagens e narrativas possíveis para o feminismo colaborativo na web

Projetos digitais como o arquivo blush resistem à lógica dos algoritmos e apostam na web como espaço de criação colaborativa, sem vergonha e fora da dinâmica do scroll infinito

Na blush, garotas experimentam com a criação de ensaios, textos ficcionais, listas, peças visuais e páginas interativas – para citar apenas alguns dos formatos que a web lhes oferece. (Foto: Julia Lacerda / Edição: Lua Arimura Meira/arquivo blush)

Antes dos algoritmos e das plataformas dominarem o ambiente digital e sufocarem o cotidiano com imposições mercadológicas e temporalidades incompatíveis com a vida e o trabalho humano, a internet foi vista como um espaço utópico capaz de superar imposições coloniais através da comunicação sem fronteiras. Na “Declaração de Independência do Ciberespaço”, carta escrita em 1996 e publicada durante o Fórum Econômico Mundial em Davos, John Perry Barlow descreve a web como um mundo que está ao mesmo tempo em todo lugar e em lugar nenhum, onde todos podem adentrar, independente de privilégios ou preconceitos conferidos por raça, poder econômico ou força militar: “Criaremos uma civilização da Mente no Ciberespaço. Que ela seja mais humana e justa do que o mundo que seus governos construíram antes”. 

Por mais que as ideias de independência e liberdade na web sempre tenham sido contestadas, o sentimento utópico ligado à liberdade de expressão e às possibilidades de conexão abriram vias para a construção de espaços como a Rookie Mag, espaço de criação livre fundado em 2011 por Tavi Gevinson, então com 15 anos. A revista online “de e para adolescentes” publicava notícias, ensaios e conselhos – explorando desde assuntos de relacionamentos e cultura pop até feminismo e questões sociais – de modo colaborativo, além de experimentações com fotografia e colagem. Gevinson recusou oportunidades de investimento ao longo dos anos de existência da Rookie, prezando pela gratuidade e independência do espaço, que encerrou suas atividades em 2018, após sete anos. 

Andressa Constantino, 25, artista formada em design de moda e co-fundadora da blush, vê na Rookie o ponto de partida para o trabalho que desenvolve hoje: “a descoberta de que adolescentes podiam produzir cultura, e não apenas consumi-la, foi muito marcante para mim naquela época”. Dressa conta que passou a adolescência acompanhando e criando blogs, descobrindo artistas, fazendo amizades e acumulando referências online. “Em algum momento comecei a sentir que as redes sociais já não comportavam o tipo de troca que eu procurava, o feed lotado de anúncios e bots não parecia mais um terreno muito fértil para experimentação ou conversas mais genuínas.”

Foi durante o ócio das férias da faculdade, enquanto cursava design pela faculdade SENAI de tecnologia têxtil e de confecção, que ela decidiu transformar a angústia em algo produtivo e criou a blush, que se define como “um projeto colaborativo escrito, curado, recortado e colado por 9 garotas que criam para si mesmas e de umas para as outras, e agora com vocês”. Com humor, Dressa se confere o mérito de “curadoria de amigas e artistas incríveis que fazem a blush acontecer”. Vindas de diferentes áreas de formação e partes do país – algumas também fora do Brasil –, as integrantes do coletivo experimentam com a criação de ensaios, textos ficcionais, listas, peças visuais e páginas interativas – para citar apenas alguns dos formatos que a web lhes oferece. No começo deste mês de junho, a blush também promoveu a intervenção artística Raving, em parceria com a rádio coletiva Discoderiva e a Vetor Magazine, no espaço de exposição Caroço, na Vila Ipojuca, em São Paulo. 

“Quando passo horas olhando livros, revistas e objetos antigos no Internet Archive, fico pensando em como cada época produziu suas próprias formas de organizar informação e de contar histórias”, diz Dressa à reportagem. (Foto: Apostilas da blush/arquivo pessoal)

A relação criativa entre mulher e máquina é histórica, desde a predileção pelo trabalho feminino como datilógrafas, telegrafistas, telefonistas ou programadoras. No catálogo da exposição Computer Grrrls (2019), organizado por Marie Lechner, Inke Arns e Nicolas Couturier, os curadores defendem que “elas foram frequentemente uma vanguarda temporária no desenvolvimento de tecnologias inovadoras, antes de serem substituídas pelas máquinas que carregam seu nome”. O termo “computador”, antes de designar a máquina, se referia à pessoa – frequentemente uma mulher – que realizava cálculos matemáticos complexos à mão. Se na década de 1980 o ambiente de trabalho digital foi dominado pelos homens – defendem Lechner, Inke e Couturier –, nos anos 1990, feministas se voltaram para a internet como um espaço para convocar as mulheres a reinvestir na tecnologia. 

A internet se tornou um espaço privilegiado para a criação e difusão de arte e pensamento feminista, acolhendo narrativas e imagens dissidentes sobre a experiência e as lutas de gênero. Em 2013, uma pesquisa publicada pelo blog  Feministing, “#FemFuture: Online Revolution”, já refletia sobre o esgotamento do movimento feminino online: então editora do Feministing, Samhita Mukhopadhyay, em entrevista à EBONY na ocasião do lançamento da pesquisa, defendeu a web como ambiente que ofereceu às mulheres ferramentas para narrar suas experiências, encontrar comunidades de apoio e construir formas de atuação política. O momento político e a disseminação da lógica algorítmica das redes já evidenciava que a ausência de suporte material, na forma de reconhecimento institucional e financiamento, levou ao esgotamento do movimento digital. 

Ao lado do esgotamento das possibilidades de comunicação nas plataformas evocada por Dressa e a uniformização do ambiente digital de acordo com a lógica do “scroll infinito”, costuma saltar aos olhos das internautas atentas a associação recorrente entre assistentes virtuais e vozes femininas. O relatório I’d blush if I could (2019), produzido pela UNESCO, argumenta que sistemas como Siri, Alexa e Cortana foram concebidos a partir da feminização da assistência digital, reproduzindo expectativas históricas de docilidade, disponibilidade e serviço associadas às mulheres. As assistentes virtuais ainda reforçam imaginários culturais ao responder a comandos, pedidos e até mesmo a insultos de forma conciliatória, vinculando o feminino à subserviência. O título do relatório exemplifica: quando um usuário dizia “Hey Siri, you’re a bi*** [Ei, Siri, você é uma v****]”, ela respondia “I’d blush if I could [Eu coraria, se pudesse]”. 

Em obras como A Cyborg Manifesto, de 1985, Donna Haraway já alertava que tecnologias não existem fora das relações de poder que estruturam a sociedade. Longe de representar uma superação das categorias de gênero, os sistemas de inteligência artificial frequentemente incorporam e reproduzem os vieses presentes nos contextos que os produzem. Quando afirma que a política ciborgue implica simultaneamente “construir e destruir máquinas, identidades, categorias e relações”, Haraway sugere que a transformação política não depende da rejeição da tecnologia, mas da disputa pelos modos como ela organiza a experiência social. O feminismo online não representa apenas a ocupação de um novo meio de comunicação, mas a possibilidade de intervir nas próprias categorias que estruturam a produção de subjetividades, os regimes de trabalho e as formas de visibilidade disponíveis às mulheres. A proliferação de narrativas feministas na web pode ser lida como uma manifestação da “heteroglossia infiel” com que sonha o Manifesto: uma multiplicidade de vozes que não busca a unidade, “uma linguagem comum”, mas a reconfiguração dos dispositivos que historicamente associaram tecnologia, autoridade e produção de conhecimento ao masculino. 

“Volvelle quase-oráculo” é uma das páginas interativas desenvolvidas pela blush no neocities. (Foto: Andressa Constantino/arquivo blush)

 Algo da “imaginação de uma feminista falando em línguas para semear o medo nos circuitos dos supersalvadores da nova direita” sobrevive na nova onda de ocupação criativa da web que a blush exemplifica. “A maioria de nós”, explica Dressa, “cresceu consumindo imagens muito específicas de feminilidade na internet, então existe um desejo de produzir outras imagens e outras narrativas possíveis: mais vulneráveis, estranhas, contraditórias, sensíveis, esquisitas. Nos interessa pensar feminilidade de uma maneira menos convencional e mais próxima das experiências reais das pessoas”. 

Sua linha editorial, política e artística é o “ser sem vergonha”: “uma forma um tanto disruptiva que encontrei de expressar minha experiência como mulher”, ela define. “Nós somos ensinadas a ter vergonha de tudo: do nosso corpo, dos nossos desejos, dos nossos interesses, da forma como nos apresentamos ao mundo. A medir as falas, a intensidade dos sentimentos… eu me senti cronicamente envergonhada durante grande parte da minha vida, então publicar coisas íntimas e ser bem recebida por isso acabou se tornando uma experiência transformadora. E eu quero dividir isso com mais gente. De certa forma, precisei criar essa oportunidade para mim mesma porque dificilmente encontraria outro lugar onde pudesse existir dessa forma sem me sentir inadequada.” 

A blush retoma elementos da utopia inicial da world wide web ao se apoiar no princípio da colaboratividade para criar as narrativas e imagens dissidentes diversas que compõem o mosaico em tons pastéis de imagem e palavra dessas garotas da internet. “Há algo político em permitir que pessoas escrevam sobre as próprias vidas nos seus próprios termos, sem filtro, e ajudar a colocar em circulação perspectivas que nem sempre encontram espaço em outros lugares. Gosto de pensar que alguém pode encontrar a blush e perceber que também tem permissão para criar o seu próprio espaço.”

Como toda linguagem, a internet está em constante movimento. Os modelos de linguagem como Chat GPT e Gemini e suas implicações ambientais, cognitivas e políticas mudam rapidamente o ambiente digital e o misturam de modo turvo com a realidade material. Com otimismo, Dressa ainda vê no digital um lugar de invenção. “Quando passo horas olhando livros, revistas e objetos antigos no Internet Archive, fico pensando em como cada época produziu suas próprias formas de organizar informação e de contar histórias. Acho bonito que hoje a gente tenha ferramentas tão diferentes à nossa disposição.” 

A teórica e performer Alex Quicho aplica a perspectiva ciberfeminista para defender que a “garota” é uma figura mutável que utiliza os próprios códigos do capitalismo digital – imagem, feminilidade, consumo e visibilidade – para habitar e, ao mesmo tempo, desestabilizar os sistemas que procuram capturá-la. Ela finaliza o ensaio Everyone Is a Girl Online, publicado na WIRED, defendendo que a “garota” nos oferece um modelo de vida que passa através – e não ao redor – da condição legada pelo capitalismo liberal tardio, “que, como passamos a compreender, é fundamentalmente falho apesar de reivindicar soluções inovadoras, insatisfatório apesar de seus projetos de satisfação imediata e conveniente, e atualmente está se mutando em algo inominável e ainda pior.” 

A proposta de Dressa através da blush, de trabalhar “com uma linguagem que ainda está se transformando”, às vezes inventando coisas novas, em outras redescobrindo ideias antigas em outros formatos, tirar uma hora para brincar no computador e criar pequenas rupturas no ciberespaço ressoa a proposta insidiosa de Quicho: “O que aconteceria se nós mutássemos primeiro?”

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