‘Helianto’, de Orides Fontela
Texto inédito de orelha da Marília Garcia para nova edição do livro Helianto, publicado originalmente em 1973
Esferas, rodas, órbitas: as figuras circulares parecem se multiplicar neste livro, começando pela flor solar do título, Helianto, nome científico para girassol, flor que gira em busca de luz. Se tais imagens chamam a atenção pela forma geométrica, também apontam para a ideia de ciclos, estações, percursos que findam e recomeçam. Como o caleidoscópio que, a cada movimento, produz um novo começo.
São rotas que sugerem um mundo arcaico, habitado tanto por formas naturais como por objetos – componentes de uma galáxia enxuta, própria da poesia de Orides Fontela (estrela, flores, luz, pássaros, espelho). As oposições construídas pela poeta reforçam um aparente equilíbrio. Porém, em meio a um voo contínuo, alguma coisa acontece, e irrompem o instante, a lucidez do pensamento, o poema. O caleidoscópio quebra-se.

Não por acaso, vários poemas evocam a noção de pausa (por exemplo, no drummondiano “Stop”), talvez por praticarem certa manipulação do tempo, como costuma fazer a poesia mais radical.
Segundo livro de Orides Fontela, publicado em 1973, Helianto acentua a preocupação da poeta com o gesto da escrita e com o trabalho minucioso em torno da materialidade da página. Nele, Orides segmenta a sintaxe e as palavras, explorando o espaço em branco como elemento constitutivo do poema e ampliando as possibilidades de sentido e as formas de leitura.
Este volume também traz diálogos importantes da autora com certa tradição da modernidade, com poetas e críticos – como Antonio Candido, a quem o livro é dedicado – e com outros campos do saber — como a filosofia e o zen-budismo.
A imagem da flor, em geral associada à escrita feminina, manifesta-se não como flor delicada, mas numa chave objetiva e renovada, com o uso de um termo científico.
Ao chegar ao termo do livro, talvez seja possível entender o que Orides disse certa vez: “num círculo, começo e fim são iguais”. O alvo foi alcançado, o tempo apreendido, pode-se recomeçar: “é tudo”.
Marília Garcia é poeta e tradutora.

