Hermenêutica: a arte de poder ouvir - Le Monde Diplomatique

Diálogo

Hermenêutica: a arte de poder ouvir

por Luís Alfredo Galeni
7 de dezembro de 2020
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O que é a hermenêutica? A hermenêutica não é a ciência da interpretação, como dizem por aí, ao contrário, é a arte do poder ouvir.

Ao eclodir a Primeira Guerra em 28 de julho de 1914, a juventude europeia entusiasmou-se com a promessa de uma guerra que acabaria com todas as guerras. Seria um conflito rápido, anunciavam os chefes de Estado. Quatro anos depois ela terminava com o saldo de 20 milhões de mortos. O mundo prometeu não mais meter-se nessas tragédias. Vinte e um anos depois eclode o conflito que roubaria 80 milhões de vidas. Auschwitz, Hiroshima e Nagazaki pareciam ser a goda d’água, as nações assinaram acordos para que dessa vez nunca mais guerras assim acontecessem. Nas décadas seguintes, entretanto, ainda vieram dezenas de outros conflitos e genocídios, entre eles a Guerra Fria, parteiro dessas hecatombes. O hermeneuta alemão Hans-Georg Gadamer viu e viveu esses tristes desencontros.

Nascido em 1900, faleceu em 2002, já em um século estranho a ele. Além das duas grandes guerras, assistiu Saigon cair e o Vietnã ser unificado sob a bandeira comunista; as guerras de descolonização do continente africano e asiático; e pôde ver ainda, na aurora do XXI a invasão do Afeganistão por tropas dos EUA. Testemunhou alguns de seus mentores, discípulos e amigos meterem-se com o nazismo e outros serem perseguidos. Foi-lhe difícil presenciar seu mestre e amigo, Martin Heidegger, aderir ao Nationalsozialismus, tal como seu aluno, Hans Robert Jauss, voluntário das Waffen-SS. É verdade que o próprio Gadamer nunca aderiu (mas também não deu às costas) ao nazismo, por razões de sobrevivência, segundo ele. Talvez esses fatos expliquem a preocupação que o ocupou por toda vida, a de desenvolver a hermenêutica, preocupação urgente e atual à sua geração e que, infelizmente também o é em nossa.

O que é a hermenêutica, então? A hermenêutica não é a ciência da interpretação, como dizem por aí, ao contrário, é a arte do poder ouvir. A interpretação é um ato natural que faz parte do ser humano, já ouvir não, ouvir é difícil; Platão, por exemplo, já falava dessa dificuldade. Ouvir requer o diálogo, não aquele diálogo infinito e solitário consigo mesmo, que é o pensamento, mas o diálogo entre duas ou mais pessoas. Portanto, para que se possa ouvir, o portador da fala não pode sufocar a relação do “eu” e “tu”, pois, se assim o fizer, o diálogo não acontece. Aquele que fala, deve também calar e ouvir.

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O ato da fala é um hábito nosso, falamos por necessidade, especialmente comunicativa, porém tem-se tornado corriqueiro o “eu” querer ser ouvido, mas não ouvir. Queremos falar e ser ouvidos sem precisar dar a voz ao outro, sem precisar que a voz do outro faça sentido. Assim, quando um outro entra em cena, exigimos que ele seja nosso ouvinte e, cheios de nós, dizemos mesmo quando não temos o que dizer.

Quem não ouve, não pondera a importância objetiva da opinião e por isso age como um ditador, se impondo, e toda imposição aniquila a alteridade. Essa dificuldade surge por estarmos em relação com nós mesmos – o que na psicanálise, por exemplo, aparece como narcisismo. Entretanto, Gadamer e Platão diziam ser possível ouvirmos uns aos outros. Acreditavam na possibilidade da anulação da precedência de nossa própria vontade e deixar que o outro diga. É nesse sentido que a hermenêutica é a arte do diálogo. O hermeneuta quer ouvir.

Kant, quando formulou o conceito de respeito ao outro, concebeu esse respeito como um modo de refutação do cuidado de si mesmo. Assim o “eu” vê o “tu” como outro “eu”. É aquilo que Ricoeur chamou de “si mesmo como outro”. Na fala dirigida, as palavras devem ser ditas como se pronunciadas ao seu próprio pensamento, com o cuidado que temos para conosco. Isso não é o mesmo que afirmar que precisamos fazer metalinguagem a todo instante, ou então adornarmos nosso palavreado com mentiras elegantes. Devemos falar na medida em que estamos dispostos a ouvir, tal como ouvimos nosso próprio pensamento. Quando escutamos o que o outro tem a dizer, o outro toma existência efetiva, percebemos o óbvio, ele também é como eu. O diálogo é um ato de respeito.

Todo diálogo é mantido e constituído pela linguagem. Entre amigos, por exemplo, é a linguagem que constrói a solidariedade, pois é a solidariedade que realmente une um ao outro. O conceito de solidariedade significa que apesar dos desvios e perturbações não se abandona o outro. Portanto, o diálogo é a porta de entrada da solidariedade – sem ouvir, não há amizade. Através do diálogo inclui-se o que os amigos entendem entre si sem problema, por isso dizemos que conseguimos nos entender com aqueles que consideramos nossos amigos.

Entender-se é compartilhar o seu mundo com alguém, a tal ponto que os limites da linguagem são alargados até não precisarmos de muitas palavras para nos fazer entender. Quem nunca vivenciou uma tristeza profunda e foi do amigo que algum conforto chegou com apenas um abraço? As chamadas “piadas internas”, tão corriqueiras entre nós, se fazem sempre entendidas sem a necessidade de que haja explicações. Entre amigos, para conseguirmos o melhor entendimento, não há cuidados excessivos na escolha das palavras, não há necessidade em driblarmos as barreiras da estranheza, tal como fazemos quando estamos diante de desconhecidos. Ao amigo apenas dizemos, não explicamos, nossa língua é a língua dele, e isso basta. Um amigo, por existir o compartilhamento de seu mundo, não necessita discorrer sobre seus problemas com todo o arsenal linguístico que tem. Assim, essa linguagem comum, a capacidade de aprender a se entender com os demais, de dialogar, cuidar para que o meu “eu” seja o seu “eu”, é o que constrói a solidariedade.

O diálogo também constrói a linguagem como “linguagem mesma” – não a língua que se aprende na gramática e nem a que se encontra nos dicionários. A “linguagem mesma” nos faz entender uns aos outros, nos amarrando por uma história e uma experiência comum. Assim sentiam-se os soldados que voltavam da guerra, entre eles não se firmavam palavras, mas silêncio, um silêncio eloquente de quem vivenciou o igual. A mudez entre eles consistia em um diálogo, o entendimento do que o outro pensa.

O entender acontece na linguagem comunicada do “eu” e “tu”. Isso fica claro quando, ao mudarmo-nos para outra região, acessando outros círculos culturais, outras linguagens, somos acometidos por uma ligeira solidão enunciativa: parece que tudo que enunciamos encontra uma barreira, e ninguém nos entende. Nesses casos sentimos falta daqueles que, com poucas palavras e gestos, e até no silêncio, comunicávamos tão bem.

O autêntico diálogo é o querer entender o outro, ou seja, abrir-se para o “tu”, tal como ocorre no aconselhamento. Inclusive, a amizade pode nascer do aconselhamento. Quando precisamos que alguém nos ajude em nossos dilemas, costumamos calar o nosso “eu” para que um outro fale. No ato de aconselhar o outro, somente um conselho com intenção de amizade pode ter sentido para o aconselhado. Processo semelhante acontece com aqueles que querem aprender. O aluno aplicado, por exemplo, chega quase a emudecer seu pensamento para que a voz do professor se faça ouvir dentro de si – esses não são gestos passivos, pois sem a vontade e a consciência do estudante e do aconselhado, o professor e o conselho não se fazem ouvir.

No conselho ou no ensinamento, há a compreensão. Quem compreende, sabe e julga a partir de uma pertença específica que o une com o outro, de modo que é afetado com ele e pensa com ele. Entender o outro, é sentir e ser solidário ao outro. O amigo que é aconselhado e o aluno que compreende seu professor constroem afeto por esse outro. Talvez devesse ser esse o sentido do amor, pois nele está contido a solidariedade, o diálogo e a partilha da linguagem. Elementos esses que estão rareando, tal como a amizade e o amor. Na ausência buscamos imaginar e isso de imaginar pode ter perigos, podemos cair em idealismos e virtualidades que mais machucam do que confortam.

Em uma cena do filme A night at the Opera, de 1935, Groucho Marx está jantando com uma mulher em um encontro, quando se dá conta de que outra mulher o espera há uma hora no mesmo restaurante, ele também havia combinado jantar com ela. Ao abandonar a primeira mulher, dirige-se à segunda e, tentando convencê-la de seu amor, afirma: you remind me of you, your eyes, your throat, your lips. Everything about you reminds me of you, except you (você me lembra você, seus olhos, sua garganta, seus lábios. Tudo em você me lembra você, exceto você).

Há sempre uma margem de idealidade que optamos quando nos relacionamos. A margem de idealidade é uma liberdade que nos faz renunciar a certas concretudes do mundo que nos saltam aos olhos e machucam. Nós, de forma não determinada, ficamos presos nessa idealidade, pois ela é um reflexo do nosso “eu” que não quer aceitar o “tu”, não quer estabelecer um diálogo, não quer falar a mesma língua e nem ser solidário. Groucho Marx gostava da ideia da mulher, agradava-o aquilo que a ideia dela lhe dava, mas não ela, ele não estava aberto ao outro, estava impondo o seu “eu” ao criar uma imagem da acompanhante.

Na idealidade que construímos não precisamos dialogar, não há solidariedade, nem sequer linguagem comum, há um grande descompasso naquilo que o outro é e naquilo que enxergamos. O outro não existe como um outro, ele é uma projeção do “eu”, é aquilo que queremos que o “tu” seja. Os amores e as amizades (que são a mesma coisa, ama-se porque é amigo, é amigo porque se ama), não se realizam, pois tornou-se tudo ideal, o outro vira um ícone cheio de virtudes e sem defeitos. De repente, o ícone desmancha, o tempo engole aquele idealismo todo que construímos e já não amamos mais. Namoros e casamentos morrem depois de poucos meses, os defeitos que não queríamos ver aparecem e o afeto some. Sobra a ideia que tínhamos da pessoa, e o outro vai embora deixando-nos tristes e confusos.

Nesse nosso mundo que vai enfermo, está cada vez mais distante o sentido hermenêutico pretendido por Gadamer. O diálogo deveria encurtar os horizontes. É o horizonte que anula a precedência do “eu”, para que, dessa forma, o horizonte do “tu” abra-se, tudo através da difícil tarefa do diálogo. Se em meu horizonte há fumaça, não verei quem me acena, não verei o outro, irei embora e o diálogo não se formará. Conquistar o horizonte é conquistar o diálogo, é conquistar a amizade e o amor. E, novamente, nada disso é fácil, talvez seja a tarefa mais difícil e a mais urgente que caiba a nós, seres humanos.

E como o nosso distanciamento do sentido hermenêutico repercute hoje? A pandemia do CODVID-19, a mais dramática enfrentada nesse jovem século XXI, evidenciou a falência do diálogo. Testemunhamos o negacionismo daqueles que não creem no potencial mortífero do vírus, colocando o “eu” a frente do “tu”, não respeitando normas preventivas, pondo em risco a vida alheia. A tudo isso soma-se um refluxo conservador extremado de ódio a negros, homossexuais e imigrantes, a eles são atribuídos os males e a decadência da sociedade. Quem nunca ouviu a frase “no meu tempo era melhor” saída da boca de pessoas oriundas da geração que produziu ditaduras, segregação racial e guerras civis? Temos também o outro lado, a esquerda extremada que não quer ouvir, todos que não concordam com seus preceitos e projetos não merecem ser ouvidos e são “cancelados”. Reputações destruídas por conta dos “paladinos da justiça”. O campo de batalha entre eles é a internet, o espaço dos pequenos ditadores.

O século XX (e toda história da humanidade) deveria ter sido uma escola, ensinado aos seres humanos que a negação do “tu” causa o aniquilamento físico e mental do outro. Aniquilamento que tem repercutido cada vez mais na saúde psíquica da humanidade. Em uma sociedade que o diálogo é elemento constituinte e fundador das relações humanas, o cuidado ao outro emerge naturalmente, o que não é o caso dos nossos tempos. Queremos falar e ninguém nos houve. Ficamos irritados e tristes.

Homens e mulheres, crianças e idosos não conseguem lidar com a solidão e a frustração e fecham seus horizontes, cortam o diálogo com o mundo. São levados a acreditar que só serão amados e felizes se pertencerem ao bando – seja ideológico, econômico, étnico ou cultural. Mas isso não é contraditório, pertencer ao conjunto e ao mesmo tempo se fechar para o mundo? Não, pois no bando eles não precisarão verdadeiramente ouvir e nem falar, já que ninguém os escuta, afinal o dito por um é o mesmo que o dito por outro, em uma eterna reprodução do “eu” coletivo. Através dessa lógica, sentem que estão falando e estão sendo ouvidos, mas é uma sensação falsa. Podemos dizer que no bando não há o cuidado do diálogo, pois não existe propriamente um “tu” e nem um “eu”, mas um “nós”.

Os modismos que surgem estridentemente toda semana e somem em poucos dias são provas desse esvaziamento do diálogo. Kant dizia que estar na moda é o ato de imitar a fim de evitar o sentimento de inferioridade. Para ele, a moda é uma vaidade do querer se distinguir, ao mesmo tempo que se compete para superar os outros. Estar na moda é um ato de pertencer e se diferenciar sem sair do bando. A moda cala o diálogo por não deixar espaço para o “eu” e o “tu” falarem plenamente, a moda corrobora na impõe do “nós”. Os modismos atingem até as relações afetivas. Almejamos que nosso afeto seja como aqueles vendidos em comerciais, ou protagonizados por pessoas famosas. Não queremos construir o nosso próprio relacionamento, queremos anular o outro através da demandando o “eu”. Um namoro, amizade e casamento perfeito não é o feito pelo diálogo, mas é o imitado, afinal, não me sentir inferior, quer ser como a ideia que tenho do que é um afeto.

Em um mundo carente de amigos e amores criamos dependência da idealidade, que se manifesta através dos números de curtidas e seguidores. Escrevemos textos na internet para que os outros nos “ouçam”, mas ninguém quer ouvir. Postamos fotos alegres e festivas para nos enquadrar socialmente, curtimos e compartilhamos sistematicamente, sem aquilo realmente dizer algo para nós. Aderimos às redes sociais alegando que é para encurtar distâncias, mas o que está distante assim permanece. No entanto, não abandonamos esse comportamento, por quê?

No mundo cibernético tudo é ideal, aderimos aos bandos que nos convém, assim não precisamos escutar. No meu bando virtual sou “ouvido” e, se por acaso brigo com alguém virtualmente, posso dizer o que vier a mente, sem constrangimentos. A internet cria a imagem de um “outro” sem existência concreta, isso reforça ainda mais a ausência do diálogo, por não precisar e não querer ouvir o que não existe. No mundo virtual morre o cuidado com o outro. Não prestamos atenção no “tu”, curtimos e comentamos com emojis, pois eles não significam realmente algo. É um ato de dizer sem ter o que dizer. Postamos fotos por também não termos o que expressar, fazemos por modismo, por pertencimento ao grupo, mas também por necessidade em ser ouvido – nesse caso, visto. E ninguém nos ouve (ou vê). Como poderiam? Estão todos entretidos consigo mesmo, repetindo esse círculo vicioso.

Essas relações se constroem rapidamente, sem calma. Em um mundo rápido, temos pressa e necessidade de falar, mas não em escutar. Se não quero dialogar, não serei solidário e não ouvirei. Em contrapartida ninguém também o será comigo e, como consequência, sentir-me-ei frustrado, irritado e solitário. Como gesto de desespero, buscarei a pertença ao bando. No bando me resta a idealidade, que não dura, me jogando para o início.

A virtualidade dessas relações suprime qualquer sentido hermenêutico, qualquer abertura que o meu “eu” possa ter em se calar e ouvir o “tu”. A internet se tornou uma zona de conflito, tal como o mundo já é. Em um mundo sem respeito não há dialogo, em um mundo sem diálogo, não há respeito. Um mundo sem solidariedade não pode ser um mundo de respeito. Se Gadamer pudesse espiar nossa época e dar um concelho, talvez dissesse através do diálogo poderíamos corrigir nosso tempo, basta os povos se ouvirem, mas talvez ninguém o escutasse e o mudo seguiria de ponta-cabeça. Esse é um mundo sem diálogo, sem solidariedade, sem amigos.



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