Herzer queria que as pessoas fossem mais humanas

Entrevista

Herzer queria que as pessoas fossem mais humanas

por Juan Manuel P. Domínguez
22 de agosto de 2019
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Entrevista com Eduardo Suplicy: a história de Anderson Herzer

“Vi a lenta corrupção,
Vi o olhar do corruptor,
Vi uma vida na destruição
Eu vi o assassinato do amor”
(Trecho do poema “A Gota de Sangue”, Anderson Herzer, A queda para o alto, 1982)

 

Para Jaques Ranciére, um dos mais importantes pensadores contemporâneos, a política da literatura não diz respeito à política dos escritores, nem aos seus engajamentos nas lutas políticas ou sociais do seu tempo. A literatura faz política enquanto literatura, enquanto estética da palavra, estabelecendo novos laços de comunicação, germinando pontes estéticas, fazendo florescer novas sensibilidades. A literatura, como toda arte, faz política acendendo (e não esclarecendo) novos olhares, excitando as inquietudes.

A política, ao seu passo, funciona como uma forma de colocar nossas sensibilidades em prática. De torná-las linguagem. É dentro da política que concretizamos esse desejo sensível e, assim, diz Ranciére, esse desejo se torna uma estética, uma superfície, uma bandeira. De forma similar à religião, essas bandeiras estruturam a consciência e o comportamento humano, produzem instituições, que logo serão destruídas para erigir e legitimar novas.

O livro “A queda para o alto” será o resultado desse encontro entre literatura e política: uma literatura que faz política e uma política que se parece, como poucas, com a literatura, com a arte mesma. O encontro entre Anderson Herzer e Eduardo Suplicy será fundamental para concretizar a primeira publicação de um livro escrito por um homem transsexual aqui no Brasil.
Essencial a presença de Suplicy, acudindo ao chamado da Lia Junqueira, que naquele momento atuava como presidente do Movimento de Defesa do Menor e que denunciava que Herzer estava sendo vítima de uma jogada política do então diretor da Fundação do Bem Estar do Menor (Febem), que pretendia utilizar os escritos de Anderson para publicar um livro que enaltecesse a instituição, sem mencionar o nome do autor.

Arte de Sabrina Porto

Suplicy pediu formalmente a tutoria de Anderson, reconhecendo nele um grande talento como escritor. Era necessária essa ternura que parece caracterizar o perfil político de Suplicy para ouvir esse chamado, mesmo quando sua ajuda não resultou suficiente e após um breve tempo de viver fora da Febem, Anderson acabou se suicidando, com 20 anos, se jogando de um viaduto da Avenida 23 de Maio, em São Paulo.

A vida de Anderson é iconográfica e representa, ainda hoje, a vida de muitos jovens e crianças marginalizadas no Brasil: talento silenciado pela falta de oportunidades, um ser sensível e afetivo envolto num contexto de violência e abuso institucional, estrutural, cultural. Como homem trans, seu desespero tinha um viés a mais, a ordem repressiva para com as identidades auto percebidas, o que agilizou seu trágico fim.

A imprensa tradicional, na sua compulsão estigmatizante, tem por costume lembrar desses jovens na hora em que as revoltas tomam conta das instituições, apresentando-os como “sujeitos violentos e irrecuperáveis”. Porém, o livro de Anderson, a sua biografia e seus poemas, são o testemunho do desejo de encontrar no amor um refúgio onde consolidar a nossa verdadeira natureza, uma necessidade de refletir sobre a violência, de sermos interpelados por ela através do relato poético.

A literatura é uma estética, é uma forma da lírica, mas também é um testemunho, uma voz. E o livro de Anderson é uma voz consolidada, voz de um tempo em que as discussões sobre gênero apenas germinavam no Brasil. É um relato que mostra como se sobrevivia em épocas de ditadura, sendo um marginal transsexual. Um texto fundamental para a construção de uma historicidade das instituições modernas e das lutas de gênero.

Em entrevista, Eduardo Suplicy detalha ainda mais a história de Anderson e a sequência que o teve como grande protagonista na vida do escritor.

A vida de Sandra

No ano 1979, tempo em que eu fui deputado estadual na Assembleia Legislativa, a presidenta da Fundação em Defesa do Menor, a Lia Junqueira, alertou-me sobre diversos episódios de maus tratos que estavam acontecendo na Febem. Então, eu decidi ir visitar a instituição para evitar que acontecesse esse tipo de situação. Certo dia, a Lia me relatou que havia uma menina, uma moça de dezessete anos que estava na Febem há três anos e médio, que estava preocupada. Ela sabia escrever bem, escrevia poemas. E em verdade ela nunca tinha cometido delito algum. O juiz me informou que se alguém se responsabilizar por ela, ela poderia ficar em liberdade. E eu então fui à sede do Febem e conversei longamente tanto com a Lia Junqueira quanto com Herzer. Ela, embora menina moça, ela se sentia e se vestia como um rapaz. Ela relatou-me que na Rolândia, no norte do Paraná, seu pai era dono de um bar, e que certo dia ela percebeu uma correria em casa e infelizmente souberam que seu pai havia sido assassinado dentro do bar.

Então, a sua mãe, não tendo propriamente condições de trabalho que pudessem lidar com o sustento, resolveu vender seu corpo, se prostituir. Mas, pegou uma doença venérea e veio a falecer. Então, a Sandra Mara foi morar com sua vó, muito querida. Um tempo depois, a sua vó faleceu e ela foi viver com uma tia, que era casada com um senhor bem mais idoso. Eles se mudaram para Foz do Iguaçu, onde viveram por um tempo.

Mais tarde se mudaram para São Paulo, para o bairro São João Clímaco. Ela era uma moça com muita energia, muito esperta. Aos treze anos, ela namorava um rapaz de uns trinta anos, o apelido dele era “bigode”. Esse rapaz morreu em um acidente de moto. Então ela adotou esse apelido para ela também.  Ela, por vezes, saia de noite nos bares locais e costumava tomar Coca-Cola com Optalidon, o que dificultava ela para acordar cedo e ir na escola. Então, sua tia a internou em um centro infantil que havia na Rodovia dos Imigrantes. Ela fugiu de lá e voltou para casa, o que deixou sua tia bem preocupada, por causa da falta de disciplina e do fato dela sair de noite e não conseguir acordar cedo. Um dia, seu padrasto, tentou abusar dela. Herzer lutou, bravamente, levou um tombo e quebrou o braço. Porém, a partir desse episódio, a sua tia resolveu colocar ela na Febem. Local em que ela viveu desde os 14 até os 17 anos e meio sem ter cometido crime nenhum. Na Febem, ela se converteu em uma espécie de líder. Organizava saraus, escrevia poemas, se apaixonou por outras internas, as quais dedicou trechos da sua biografia.

“…Durante aquelas carícias profundas trocadas entre nós, eu sentia a vida bem mais próxima a mim, beijava e abraçava Vera, como se eu estivesse abraçando minha existência, eu acariciava seu corpo, lentamente, com um desejo interior tão imenso que não sabia mais distinguir o significado da amargura, não me doía mais a saudade do mundo, e eu tinha ali junto a mim, resistindo ao frio, ao vento, enfim, eu tinha finalmente alguém para mim, para me ouvir quando eu quisesse falar, para me olhar quando eu ficasse em silêncio” (Anderson Herzer, A Queda Para o Alto, 1982)

Percebeu, com muita lucidez, um sistema de maus tratos que acontecia tanto na Febem masculina quanto na feminina, também registrado na sua biografia. Na Febem as crianças eram espancadas, torturadas, de maneira brutal durante a noite. Herzer passou por isso também.

…durante a surra que eu estava levando, com tapas no rosto, torcidas no braço, chutes nas costas, em determinada hora, quando eu caia novamente no chão, ele me apertou e torceu meu braço, justamente onde estavam os alfinetes. Com o aperto, um alfinete deslocou-se, podendo ser visto, com a ponta espetada para cima, embora continuasse dentro da carne, não saindo totalmente para fora. Meu braço começou a sangrar…” (Anderson Herzer, A Queda Para o Alto, 1982)

Anderson saí da Febem

Quando soube da sua história e tendo lido seus poemas, eu disse a ele: “olha, eu me disponho sim a contratá-lo, convidá-lo para você ser um estagiário no meu gabinete, onde você vai aprender a fazer um pouco de tudo: ajudar na recepção, atender o telefone, tirar xerox . Vou te pagar o necessário para você pagar uma pensão, alimentação e outras necessidades”. E falei para ele ainda que “como você escreve muito bem, parte do seu trabalho será redigir sua história”. Ele aceitou.

Fomos em várias pensões, até que ele achasse uma que o aceitasse. Já que, ele embora tinha Sandra Mara na sua identidade, ele assinava seus poemas como Anderson e também era chamado assim.

Certo dia, ele me mostrou um poema “Minha Vida, Meu Aplauso”. Eu lhe perguntei: “Isso quer dizer que realmente você poderia morrer?”. Ele me contou que tinha feito o concurso para se tornar um funcionário efetiva da Assembleia Legislativa. Mas, no dia do exame, o homem que percorria as cadeiras para avaliar a identificação de cada um, chegou para ela censurando o fato dela se apresentar como homem quando na sua carteira figurava nome de mulher. Ele disse que isso o deixou constrangido e que acabou reprovando no exame.

Eu disse para ele “Seu livro é muito bom, é muito interessante” e encaminhei-a para a editora “Vozes”. Os editores Rose Marie Muraro e o Frei Leonardo Boff (ele ainda era frei naquele tempo) gostaram muito e falaram que em dois meses ficaria pronto. Eu alentei Anderson, falando que ele ia ter muito sucesso.

Minha vida, meu aplauso

Fiz de minha vida um enorme palco
Sem atores, para a peça em cartaz
Sem ninguém para aplaudir este meu pranto
Que vai pingando e uma poça no palco se faz.
Palco triste é meu mundo desabitado
Solitário me apresenta como astro
Astro que chora, ri e se curva à derrota
E derrotado muito mais astro me faço.
Todo mundo reparou no meu olhar triste
Mas todo mundo estava cansado de ver isso
E todo mundo se esqueceu de minha estreia
Pois todo mundo tinha um outro compromisso.
Mas um dia meu palco, escuro, continuou
E muita gente curiosa veio me ver
Viram no palco um corpo já estendido
Eram meus fãs que vieram para me ver morrer.
Esta noite foi a noite em que virei astro
A multidão estava lá, atenta como eu queria.
Suspirei eterna e vitoriosamente
Pois ali o personagem nascia
E eu, ator do mundo, como minha solidão…
Morria!
(Anderson Herzer, A queda para o Alto, 1982)

Herzer tinha uma grande sensibilidade, uma grande percepção do mundo que conhecera. Tentava ajudar a cada criança ou adulto que pudesse passar por algo semelhante, acreditando que a sociedade poderia ser diferente. Era uma pessoa doce que tratava muito bem quem lhe respeitava, capaz de realizar um enorme esforço para atender a quem pedisse pela sua ajuda. Tinha uma personalidade muito enérgica, ativa, o que fazia ele sempre se destacar. A sua única dificuldade era ser aceito do jeito que ele era, do jeito em que ele se sentia consigo mesmo.

…Eu queria ser da noite o sereno e
umedecer o vale seco e pequeno.
Eu, queria, no dia claro, luzir
para o amor todo o povo conduzir.
Eu queria que branco fosse a cor da terra e
não vermelha para inspirar a guerra.
Eu queria que o fogo me cremasse
para ser as cinzas de quem hoje nasce.
Eu queria que os mais belos poemas fossem de Deus
para neles encontrar as virtudes dos irmãos meus.
Eu queria e muito queria saber ganhar
para que a simples alegria pudesse comigo guardar…
(trecho do poema “Encontrei o que eu queria”, Anderson Herzer, Para a Queda do Alto, 1982)

A essa altura ele morava com uma amiga da Assembleia Legislativa, onde organizava saraus e estava sendo reconhecido. Mas, aproximadamente, dois meses depois, a amiga dele me ligou para dizer que Anderson saiu dizendo que ia para a 23 de maio. Eu pedi para ela ir atrás dele e me dar notícias. Mas, às seis da manhã, me ligaram para dizer que encontraram uma pessoa na 23 de maio gravemente ferida e que o levariam para o Hospital das Clínicas. Ele tinha no seu bolso um papel com meu telefone. Eu fui até o Hospital das Clínicas e quando estava doando sangue me informaram que ele, infelizmente, tinha falecido.

A obra de Anderson

As pessoas me perguntam sobre ele, sobre o livro dele. Se não me engano, o livro dele tem mais de vinte e cinco edições e foi o publicitário Carlito Maia quem sugeriu: “A Queda para o Alto” para o título do livro. É muito lido, sobretudo pelos jovens na periferia. Muitas pessoas que leram o livro comentam comigo que gostaram muito. Um filme baseado na história foi lançado em 1986, “Vera”, dirigido por Sérgio Toledo e o papel principal rendeu a Ana Beatriz Nogueira o prêmio de melhor atriz no Festival de Berlim em 1987.

O meu papel foi representado pelo ator Raul Cortez. No ano 2000, um grupo de teatro de Heliópolis montou uma peça e perguntou se eu poderia fazer uma gravação de vídeo contando a história que eu acabo de falar, para eles passarem antes da apresentação. Eles queriam mostrar a história de vida dele, e eu fiz com o maior prazer.

A primeira apresentação aconteceu no teatro Ipiranga, perto de Heliópolis, e foi um sucesso. Para a segunda apresentação eu convidei ao dramaturgo José Celso Martinez Corrêa e ele gostou tanto que decidiu apresentar a peça no Teatro Oficina. E ai, eu, em todas essas apresentações, ao invés de fazer por vídeo, fiz a abertura ao vivo. O Sesc gostou tanto que o grupo de teatro apresentou a peça em pelo menos dez unidades em São Paulo, Rio de Janeiro e Ribeirão Preto.

A história de Anderson é muito inspiradora. O livro foi dedicado, com seus poemas e sua história, a todas as crianças no Brasil que precisam de ter melhores oportunidades.

Entre os textos que sobreviveram ao seu suicídio, Herzer escreveu vários quer foram dedicados a Suplicy. A gratidão é também uma forma do sentimento amoroso.

…Poucas vezes vi seus filhos, mas muitas vezes pensei sozinho, o quanto eles devem andar de cabeça erguida, com o peito cheio de orgulho, por notarem o pai formidável que tem.
E certo que você me conhece há pouco tempo, talvez pense até que eu sou somente uma pessoa a quem você estendeu a mão e que eu não contribuo em nada, apenas lhe dei problemas e despesas. Mas eu não penso assim de você e isso e que me importa. Você para mim é a vida que eu vivo a cada dia que se passa, e quem quando me ajudou não me rejeitou nem por um momento por eu ser apenas um pedaço de sangue já coalhado e pisado, quem me tirou o lodo que cobria a minha face. Enfim, palavras não seriam suficientes e sim um esforço de minha parte para que um dia você possa sentir que compensou alguma coisa todo este trabalho que está tendo agora…” (Carta ao Eduardo Suplicy, Anderson Herzer, São Paulo, 5 de setembro de 1980)

E a este Homem, eu agradeço, e sei que muito mais tenho a agradecer, pois ele não teve preconceito algum sobre minha pessoa. Ele não quis saber qual era meu nome exato, ou por que um nome feminino denominava uma pessoa como eu, uma pessoa que lhe falava franca e abertamente a respeito de meus casos amorosos, da beleza desta ou daquela, ao passo que antes eu só conhecia as opiniões dos “homens”, pobres homens, que me criticaram e ainda criticam hoje dizendo que eles sim eram homens, pelo órgão que tinham no meio de suas coxas, e o fato de eu ter muitas namoradas não me fazia um homem, e agora depois de tanto tempo pensando na miserável mente destes homens. Nada tenho a dizer sabre estas mentes cobertas, sobre esta ignorância tão forte que os transforma de homem para MACHO, minúsculos machos que pensam trazer seu caráter em forma de duas bolas no meio de suas pernas”. (Anderson Herzer, A Queda para o Alto, 1982)

Juan Manuel P. Domínguez é jornalista.



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