RESENHA

‘Hora Crepuscular’, de Suiany Tavares: a poética do tempo

O novo livro de Maria Suiany Ripardo Tavares Pereira aborda, de forma suave e reflexiva, o tempo, a identidade e os dilemas do ser mulher.

Maria Suiany Ripardo Tavares Pereira é natural da cidade de Sobral, no Ceará. Embora seja uma apreciadora de livros desde a infância, tornou-se poeta somente durante a idade adulta. A docência a fez se dedicar ao desafio da escrita, com ênfase em temas existenciais e humanos. Membro do Coletivo Literário Sem Ponto Final, a autora colabora com diversas Antologias e Revistas Literárias, no Brasil e no exterior. Atualmente, é professora de Filosofia, Arte e Sociologia da rede de educação básica de ensino.

Hora Crepuscular (2023) é o livro de estreia de Suiany Tavares. A obra, que contém 37 poemas, é subdividida em três capítulos, respectivamente intitulados: “Pequenas Grandezas”, “Caberia em um Olhar” e “Cotidianidades”. A obra aborda, de forma suave e reflexiva, o tempo, a identidade e os dilemas do ser mulher. A voz e o olhar feminino se encontram em todo o livro: “Tudo em mim é grito urgente / pelas dores e pelos sabores / de um corpo que abriga / a alma de mulher” (Tavares, 2023, p. 30).

No primeiro capítulo, o eu-lírico inicia a sua reflexão sobre o tempo, ao dizer que o “relógio, cansado de esperas, preferiu saltar da parede para nunca mais contar teu atraso” (Tavares, 2023, p. 13). Essa espera, porém, não está necessariamente ligada a algo ou alguém, ela se encontra no plano metafísico, pois “tudo pode ser lido / e tocado para além da materialidade” (Tavares, 2023, p. 35). Assim, temos uma relação ambígua com o tempo: de um lado, temos o atraso (não compromisso com o tempo) e, do outro, a pressa (a ansiedade para que o tempo seja suficiente).

O segundo capítulo, por sua vez, desmistifica a visão que a sociedade tem sobre o feminino. A mulher, que antes era tida como frágil e indefesa, passa a ser vista como “um mar bravio”, como alguém que não se deixa intimidar pelos obstáculos e que nunca está só: “Dos moldes escorrego e me liberto / não há maldições ou grilhões que possam me limitar / há fúria e som em meus olhos de combustão / e nunca chego sozinha, estou sempre / acompanhada de minhas ancestrais” (Tavares, 2023, p. 30).

O eu-lírico costura “a vida fio a fio” com a sua “sabedoria milenar”, olhando-se no espelho, conhecendo a si mesma e entendendo “que toda verdade necessita de curvas / percorridas por um fio que conduz ao retorno do mesmo. / E, depois da travessia […] / nova manhã se anuncia. Eis a aurora!” (Tavares, 2023, p. 31). Assim, ela floresce “afinal, após os ciclos mutáveis e complexos”. Mas o preço de sua liberdade é carregar as “Cicatrizes Seculares” de todas as mulheres:

“Tu não és para depois!

Tuas urgências, anseios, sonhos e vivências

gritam pelo agora como condição de existência.

Longas são tuas esperas, acordos com o tempo

esperando tua vez de falar, de cantar e de ecoar.

Foto: Divulgação

Antes que o sol apareça no alto céu,

lá já estás abrindo as novas horas da manhã.

Contigo acordam os sonhos e a própria seiva da vida

Que nutre a terra, faz brotar as sementes e orquestra a criação.

Até mesmo os deuses sabem que é teu por direito

o destino que escreves, linha a linha, sem passar a limpo

e sem arrependimentos, com a tinta da coragem

ainda que de teus olhos escorreguem sinais de medo.

 

Ergue a face e procura-te também em mim, mulher,

para aliviar teus cansaços, refazer os passos dados

e ocupar os lugares que sempre foram tão teus,

ainda que não possas abandonar tuas armaduras.

 

Entre nós, que haja cumplicidade e lealdade.

Nossos braços abertos, mãos estendidas, a felicidade

que será capaz de cobrir as feridas que simbolizam tuas

conquistas

e silenciar as dores de tuas cicatrizes seculares” (Tavares, 2023, p. 32).

No último capítulo, o eu-lírico fica “à deriva”, mas sem nenhum temor, pois: “Quando se perde a direção e só / nos resta o que temos nas mãos, / punhado de terra a escapar, é quando / nos tornamos embarcação de nós mesmos. / Ajustamos a rota, enfrentamos os riscos / oceânicos e as tempestades já não / podem nos assustar” (Tavares, 2023, p. 46). Hora Crepuscular é, portanto, um convite ao “Amor fati”, de Nietzsche, o amor ao destino.

 

Gabriela Lages Veloso é professora, escritora, poeta e crítica literária. Graduada em Letras – Língua Portuguesa e suas respectivas literaturas, pela Universidade Estadual do Maranhão (UEMA), e Mestra em Letras, na linha de Estudos Teóricos e Críticos em Literatura, pela Universidade Federal do Maranhão (UFMA). Além disso, é autora do livro O Mar de Vidro, que ganhou o segundo lugar no Prêmio Melhor Livro de Poesia 2024, promovido pela Academia Maranhense de Letras (AML). Atualmente, é Professora credenciada da Fundação Escola de Governo do Maranhão (EGMA), Tutora Pedagógica da Fundação Getúlio Vargas (FGV DPGE – RJ), atuando junto ao Projeto Compromisso Nacional Criança Alfabetizada de São Paulo, e Colunista do Portal Imirante.com (site filiado à Rede Globo).

 

Referências:

NIETZSCHE, Friedrich. A Gaia Ciência [1882]. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.

TAVARES, Suiany. Hora Crepuscular. Belo Horizonte: Caravana, 2023.