Imaginação sociológica na fratura brasileira - Le Monde Diplomatique

LIVRO

Imaginação sociológica na fratura brasileira

por Gabriel Tupinambá
junho 18, 2019
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Resenha de Sintomas mórbidos: a encruzilhada da esquerda brasileira (Autonomia Literária, 2019), de Sabrina Fernandes

Normalmente, quando pensamos no sintoma de uma doença – uma tosse persistente, sintoma de um resfriado, por exemplo – pensamos na relação entre um grande problema, a infecção nas vias respiratórias, e um pequeno problema, a tosse. E o médico parece confirmar que se tratam mesmo de dois problemas, porque receita dois remédios para nós – um para aplacar cada enfermidade. Mas do ponto de vista de causas e efeitos, a tosse, por mais que seja incômoda, não é tanto um problema – uma disfunção que atrapalha o organismo – mas uma solução, uma tentativa do corpo de expelir uma secreção, de responder a uma situação crítica. É claro que o doente experimenta a tosse como problema, porque ela atrapalha e incomoda, mas para pensar esse sintoma é necessário deixar o incômodo de lado e aprender a olhar para ele como uma resposta a um impasse subjacente.

Esse difícil esforço de mudança de perspectiva é um dos grandes méritos do novo livro de Sabrina Fernandes, Sintomas mórbidos: a encruzilhada da esquerda brasileira (Autonomia Literária, 2019). Difícil, antes de mais nada, pela mesma razão que é difícil deixar de lado o incômodo com uma tosse irritante: o esforço de colocar o sintoma em perspectiva, olhá-lo sobre o pano de fundo de um panorama mais geral, pode parecer, para quem padece, um esforço obsceno. E é assim que, para alguns, o trabalho teórico – e, em especial, o trabalho sociológico de campo – parece um capricho em momentos de grande urgência política. Como poderíamos dedicar tempo à reconstrução de uma rede de causas e efeitos – tão menos verificável por não ser fisiológica, mas social e histórica – quando o problema da unidade da esquerda, a construção de uma alternativa política, está na pauta do dia?

O livro de Sabrina é um exercício exemplar daquela imaginação sociológica sem a qual, como nos lembra Wright Mills, o pensamento social e político é incapaz de distinguir causa e efeito, problema e sintoma, tática e estratégia. Pois não basta termos informações sobre o que ocorre à nossa volta para que sejamos capazes de ascender a uma análise da conjuntura global na qual estamos inseridos: é preciso ainda ser capaz de reconhecer nas invariâncias e padrões que os dados apresentam, os traços de uma estrutura subjacente – e esse passo depende de uma teoria e de um esforço imaginativo. E é exatamente assim que Sintomas mórbidos opera uma transformação no sentido de “sintoma” – de problema central, para uma resposta a um problema estrutural e histórico mais geral. A partir de uma leitura robusta da tradição do marxismo humanista, a autora utiliza sua extensa pesquisa de campo com as organizações de esquerda para dar corpo a uma interpretação da dinâmica contemporânea da pós-política e da ultrapolítica como duas respostas a um problema estrutural mais profundo, a chamada crise da práxis.

No espaço desta breve resenha, não é possível dar conta das sutilezas desse diagnóstico, mas gostaria de enfatizar um aspecto que, na primeira recepção do livro, será provavelmente pouco comentado: a imaginação sociológica, mencionada acima, não é apenas um método de investigação aplicado pela autora, ela pode ser entendida também como um dos aspectos da crise sob investigação.

Em poucas palavras, Sabrina identifica a “crise da práxis” como um “contexto em que os obstáculos à síntese [da teoria com a prática] prevalecem”, criando uma desconexão praticamente insuperável entre fragmentos da esquerda, cada vez mais ilhados entre si, presos em um diálogo de surdos. É contra o pano de fundo dessa impossibilidade de síntese entre os modelos teóricos e a experiência social por meio da prática – uma crise que um kantiano certamente chamaria de crise da imaginação – que podemos entender os três principais sintomas que surgem no cenário atual como soluções de compromisso: respostas que substituem o déficit de ligação entre a experiência e a visão estrutural por deformações patológicas..

A “pós-política” é, assim, definida como um tipo de despolitização em que a invenção política, esse modo criativo de síntese, é substituída pela administração, por uma saída técnica. É uma estratégia problemática, claro, pois a plasticidade da invenção é substituída pela gerência de problemas locais por especialistas – qualquer mudança estrutural é portanto reduzida, no melhor dos casos, a melhorias graduais. Mas é, acima de tudo, uma estratégia sintomática, já que responde a uma situação crítica real subjacente, e busca preservar a relação entre a experiência e a teoria, às custas de reduzir a teoria a uma técnica especializada.

A “ultrapolítica”, por outro lado, evita o tecnicismo, mas acaba por confundir o local e o global, a experiência política prática e as estruturas sociais mais gerais. Em vez de sumir com o antagonismo social sob a administração “neutra”, aqui a resposta à crise é transformar o antagonismo que estrutura as relações sociais numa oposição entre pessoas: pseudo-polarizações, falsas radicalizações cujo modelo básico é a guerra do “nós” contra “eles. Mais uma vez, o problema da polarização aparece como uma solução parcial para um impasse mais profundo: a ultra-politização consegue preservar, afinal, o sentido prático da política, mas perde, no processo, qualquer critério para avaliar o que é uma ação política eficaz, já que mudanças sistêmicas dependem de uma visão estrutural dos antagonismos.

Surge, assim, por trás dos sentidos imediatamente políticos da expressão “não me representa”, que nos levam a pensar a crise de representação que explodiu com Junho de 2013 como uma crise dos representantes (que não representam nossos interesses) ou uma crise da representatividade (do modelo partidário), um outro sentido – e que aponta para tarefas políticas de outra ordem. A crise de representação, no livro Sintomas mórbidos, emerge também como uma crise da capacidade das esquerdas de representar a conexão entre a conjuntura atual e uma visão transformadora da sociedade, déficit que afeta tanto sua capacidade de mobilização quanto de coordenação entre seus fragmentos.

Por fim – e na contramão do aviso preliminar da própria autora, que procura separar suas diferentes frentes de atuação – eu gostaria de sugerir que a imaginação sociológica não comparece apenas no método que o livro coloca em prática, ou na maneira como a “crise da práxis” pode ser pensada como uma crise na capacidade de síntese imaginativa da teoria e da prática, mas também no maravilhoso trabalho que a Sabrina vem desenvolvendo nas redes sociais, com o Tese Onze, e publicações de popularização das ideias socialistas, como com a revista Jacobin. Pois se é preciso um esforço de imaginação para ligar pesquisa de campo e experiência militante a uma visão teórica dos nossos problemas estruturais, não é menos necessária essa capacidade inventiva na hora de transformar esse complexo enquadre teórico em uma nova visão estética, pedagógica e solidária capaz de informar nossa experiência política.

 

Gabriel Tupinambá é psicanalista e doutor em Filosofia pela European Graduate School, na Suíça.

 

Ouça mais sobre o livro na entrevista que Sabrina Fernandes deu para o Guilhotina:



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