Indícios de polarização - Le Monde Diplomatique

EDITORIAL

Indícios de polarização

por Silvio Caccia Bava
4 de dezembro de 2012
por Claudius
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Silvio Caccia Bava

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Começam a se somar indícios de que poderá haver uma grave crisepolítica nos países da União Europeia. Uma crise fundada na separação cada vez maior entre as instituições políticas e as aspirações dos cidadãos. Governos democraticamente eleitos se voltam contra seus cidadãos e praticam políticas de austeridade impostas pelo sistema financeiro internacional. Praticam políticas que destituem direitos e desmantelam o welfare state, deixando seus cidadãos sem proteção social, expostos aos impactos do desemprego, sem alternativas de sobrevivência.

A tensão social aumenta e as políticas duras projetam sobre toda a população o medo acerca do que o futuro lhe reserva. Irlanda, Grécia, Portugal, Espanha, Itália, Chipre e agora a França estão tendo de se curvar às exigências de adoção de políticas muito similares às impostas à América Latina nos anos 1980. Dívidas externas impagáveis e com custos estratosféricos, redução do Estado e mercantilização dos serviços que antes eram públicos, privatizações, arrocho salarial, enfim, em nome de uma maior competitividade no mercado internacional promove-se o rebaixamento dos custos da força de trabalho e de sua reprodução social, coisa antes só vista no Terceiro Mundo.

As reações da população são de perplexidade e indignação. A forma mais articulada da expressão dessa revolta foi “a primeira greve internacional do século XXI”, como a chamam seus organizadores. Convocada pela Confederação de Sindicatos Europeia, a greve geral de 24 horas do dia 14 de novembro passado se estendeu por 23 países da União Europeia, mobilizando milhares de trabalhadores e estudantes, que foram às ruas protestar contra o desemprego e as medidas de austeridade impostas por seus governos em obediência à Troika – FMI, União Europeia e Banco Central Europeu.

Mas há outros indícios de que a crise se agrava: o suicídio de Amaia Egaña, uma senhora espanhola moradora da periferia de Bilbao, que no dia 9 de novembro se jogou da janela de seu apartamento, no quarto andar de um edifício, quando os oficiais de justiça vieram tomar-lhe o imóvel por falta de pagamento da hipoteca. O segundo suicídio em duas semanas pelo mesmo motivo. O fato reforçou as disposições de protesto que desaguaram na greve geral.

A crise vem potenciar situações de opressão e exclusão já existentes. Não vamos nos esquecer de 2005, em Paris. Depois que três jovens negros e pobres foram perseguidos como de costume pela polícia, se esconderam numa central de alta voltagem e dois deles morreram eletrocutados, a cidade viveu o impacto dos protestos da juventude pobre e oprimida da periferia. Mais de 10 mil carros foram incendiados em uma semana.

A Inglaterra passou por coisa semelhante no ano passado. Depois do assassinato de um jovem negro por policiais, em uma de suas rondas de policiamento ostensivo nos bairros pobres e de negros, e a absoluta omissão das autoridades para apurar os responsáveis, novamente os jovens tomaram as ruas, incendiaram, saquearam e se enfrentaram com a polícia. Os protestos se alastraram por toda a Londres, contaminando também outras importantes cidades do país.

Ao aumento da desigualdade e à ampliação da pobreza se soma a ausência de perspectivas para o futuro.

A partir da crise do sistema financeiro de 2007-2008, passou a existir uma ainda maior concentração de poder no sistema financeiro, que se autonomiza de qualquer controle nacional ou internacional e tem como estratégia de ganhos tal ganância que só faz aprofundar a crise. A radicalização de suas políticas de espoliação levou a um alerta de uma das mais conceituadas revistas conservadoras, a The Economist. Na edição de 13 de outubro,o editorial da revista sublinha a gravidade da situação, denuncia o aumento da exclusão e da pobreza e os riscos já evidentes de instabilidade política, e clama por um capitalismo mais redistributivo e regulado.

Há uma polarização imposta pelas políticas de austeridade e a insatisfação crescente das maiorias. Essa polarização põe em movimento a sociedade, recria espaços públicos, retoma a praça pública, desafia o sistema político.

“Nossas aspirações não cabem em vossas urnas”, “Fim das heranças”, “Salário-base universal e desvinculado do trabalho” − essas são frases colhidas de cartazes da Puerta del Sol, em Madri, e da Praça Syntagma, em Atenas. Elas expressam um movimento de politização do cotidiano e, em conjunto, multiplicando debates, vão se tornando referência para muitas outras cidades no mundo: a ocupação das praças, a discussão sobre o futuro, a defesa de uma agenda de direitos, as passeatas.

Segundo Edgar Morin (ver entrevista na pág. 14), a crise atual leva a três alternativas: ou o modelo se mantém em sua lógica e se torna ainda mais perverso em suas consequências sociais; ou se reforma, se democratiza e se torna mais redistributivo; ou se desarticula e abre espaço para o novo, o imponderável.

A evolução atual da crise nos leva a pensar que está prevalecendo a primeira alternativa, uma vez que os apelos da The Economistparecem não encontrar eco no sistema financeiro internacional, o que levaria a uma ainda maior polarização. E há também indícios de que nos próximos anos vão eclodir fortes movimentos sociais na Europa, e esses eventos abrem o campo para o imponderável.

Silvio Caccia Bava é diretor e editor-chefe do Le Monde Diplomatique Brasil.



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