Intersecções do comer em sociedade - Le Monde Diplomatique

COZINHAS SOLIDÁRIAS, FOME E COMIDA

Intersecções do comer em sociedade

por Anelise Rizzolo e Samanta Winck Madruga
14 de dezembro de 2022
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As Cozinhas Solidárias do MTST são espaços de intersecção entre a cozinha, as pessoas e o território e promovem uma rede de aprendizagem que ressignifica a relação com a comida

As Cozinhas Solidárias (CS) do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), para além da luta por moradia, se caracterizam por um espaço de resistência e enfrentamento da fome e da insegurança alimentar e nutricional. Esse equipamento social, para além da comida, é promotor de soberania e segurança alimentar e nutricional e inclusão social. No Brasil, os dados recentes apresentados pela Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional mostram que 33,1 milhões de brasileiros estão em insegurança alimentar grave, ou seja, passam fome, e ainda, mais da metade da população encontra-se em algum grau mais leve de Insegurança Alimentar e Nutricional (IAN), convivendo com a incerteza de ter alimento no próximo dia para se alimentar. Ainda, os dados mostram que as maiores dificuldades estão nos lares chefiados por mulheres, negras e famílias com pelo menos um membro sem emprego.

Famílias em arranjos sociais variados com diferentes culturas alimentares que traduzem suas histórias, desejos, dores e esperanças. Pessoas oriundas de todas as partes do país se encontram na luta por moradia e direitos de cidadania e na fila de espera pela comida se (re)conhecem e criam laços de amizade e pertencimento na ocupação de um novo território.

Nossa construção de parceria entre o MTST e a Universidade de Brasília se deu por intermédio da extensão popular no território da Cozinha Solidária da Ceilândia (DF), instalada na ocupação do Sol Nascente, que junto do Pôr do Sol, constituem a maior favela horizontal do país. A CS está localizada em uma quadra urbanizada com lotes já titulados para 108 famílias. A cozinha possui três coordenadoras (duas locais e uma estadual) e dois coordenadores nacionais que viabilizam o seu funcionamento, cinco dias da semana, servindo refeições gratuitas a uma média de 120 pessoas diariamente.

Chegamos em busca de estabelecer relações sociais e parceria para a realização de atividades de convívio: acompanhamento da rotina da cozinha, do preparo à entrega das refeições, apoio às atividades das brigadas do movimento, planejamento de processos educativos com as lideranças, usuários e coordenações, inserção de projetos multidisciplinares da universidade na CS, acompanhamento do cuidado da horta agroecológica e planejamento de cursos de educação popular para a comunidade.

A proposta pedagógica, no contexto da educação popular, é o reconhecimento de saberes culturalmente relevantes, com a valorização do conhecimento popular, a partir de atores que vivenciam os sentidos do cotidiano e se pautam na concepção decolonial, que visa transcender os valores, saberes e práticas da modernidade, bem como suas relações de poder como um projeto civilizatório. Organiza, debate e propõe o conhecimento a partir de uma produção teórica em consonância com a visão de mundo que se constrói, ou seja, descolonizando o próprio saber a partir da inclusão de produções acadêmicas e reflexões críticas dos segmentos oprimidos pelo projeto da modernidade – decolonialidade.

As pedagogias em rede são processos educativos com enfoque decolonial que promovem arranjos sócio-políticos forjados em contexto de luta contra as estruturas hegemônicas de poder/saber e em favor da valorização das cosmovisões de saberes que foram subalternizados e racializados pela modernidade/colonialidade. As CS do MTST são espaços de intersecção entre a cozinha, as pessoas e o território e promovem uma rede de aprendizagem que ressignifica a relação com a comida, desde o cuidado com a horta que alimenta e gera significados culturais, ativando memórias decoloniais de saberes ancestrais relacionados a práticas de cultivo e preparação de alimentos e ainda, cria laços com seus usuários, lideranças e aliados. A cozinha é tratada como espaço de ressignificação de cultura, produção, território, comida e as práticas de comensalidades no contexto do enfrentamento da fome e insegurança alimentar e nutricional. Além disso, são espaços de socialização onde se estabelece trocas e fortalecimento de relações de solidariedade e rede de apoio social, principalmente entre mulheres.

Entende-se a cozinha como um corpo simbólico: corpo-cozinha, a partir das relações sociais vivenciadas pelas lutas e formas de existência, configurando os corpos-territórios. Se partimos da premissa que a cozinha é um território intercultural, ela produz narrativas interculturais, possibilitando visualizar a potencialidade decolonial no comer. Se observarmos a interculturalidade dos saberes em suas comidas, a visão intercultural se expressa nos territórios reais ou simbólicos onde a comida se reproduz.

Nesse espaço intercultural se deflagram narrativas e saberes culturalmente relevantes que precisam ser potencialmente valorizados a partir de um projeto decolonial desses saberes. É nesse espaço, que se tornou referência para a comunidade de Sol Nascente e para tantas outras ao redor e que chegam, que vem sendo construída e vivida a luta contra a fome e a garantia do comer, de forma ética e em comunhão com a vida na Terra. A horta que produz a grande parte das verduras e hortaliças, saladas e refogados que são servidos diariamente tem sido dos mais ricos espaços de compartilhamento de experiências, fortalecimento do sentimento de pertença e das relações solidárias que acabam por ressignificar o comer e as comensalidades.

 

Anelise Rizzolo, educadora popular e professora da Universidade de Brasília, é integrante da Rede PENSSAN – Pesquisadores e Pesquisadoras em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional e do GT ABRASCO Alimentação e Nutrição em Saúde Coletiva e pesquisadora do Observatório de Políticas em Segurança Alimentar e Nutricional. E-mail: anelise.unb@gmail.com.

Samanta Winck Madruga, professora da Universidade Federal de Pelotas e pós-doutoranda do MESPT/UnB, é integrante da Rede PENSSAN e pesquisadora do Coletivo MutipliccaSSAN. E-mail: samantamadruga@gmail.com.

 

Referências consultadas

Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar (PENSSAN). II Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia da COVID-19 no Brasil [livro eletrônico]: II VIGISAN : relatório final- São Paulo, SP: Fundação Friedrich Ebert: Rede PENSSAN, 2022. Disponível em: https://olheparaafome.com.br/. Acessado em 09 de dezembro de 2022.

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