Irlanda: bolhas no concreto - Le Monde Diplomatique

COMO NÃO TIRAR NENHUMA LIÇÃO DAS CRISES PASSADAS

Irlanda: bolhas no concreto

por Manon Deniau
2 de Abril de 2018
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Poucos países foram tão severamente atingidos pela crise de 2008 como a Irlanda. O estouro da bolha imobiliária levou o déficit orçamentário para além da faixa dos 30% em 2010 – algo jamais visto. Alguns anos depois, uma nova rodada de aumento de preços entusiasma uns e apavora outros

Os vitrais estão quebrados, e as entradas, em ruínas. Estamos no loteamento fantasma de Ballaghaderreen, um vilarejo do condado de Roscommon, no oeste da Irlanda. Há dez anos, nada se move por aqui, exceto os ratos, que proliferam. Esse projeto saiu do papel em 2005, enquanto o país vivia um boom econômico que lhe conferia o título de Tigre Celta. Entre 1985 e 2010, mais de 762.600 habitações foram construídas na Ilha Esmeralda, número muito superior à demanda real. No entanto, os preços aumentaram mais rápido que em outras partes: subiram 474% entre 1995 e 2007 em valor nominal, contra um aumento de 222% no Reino Unido no mesmo período (alta de 199% na Espanha e 107% nos Estados Unidos). Após a crise de 2008, passaram a cair. Em 2009, duas em cada cinco casas valiam menos que seu preço de compra. Tal como outros, o incorporador do loteamento de Ballaghaderreen foi à falência. As escavadeiras estão paradas.

Uma década se passou. A imprensa – que havia ajudado a estimular a especulação imobiliária1 – continua lamentando as casas abandonadas. Mas um novo assunto vem alimentando as manchetes: o retorno da bolha imobiliária… Os aluguéis aumentaram 65% desde 2011, superando o nível de 2008. O preço médio dos imóveis novos superou os 350 mil euros em Dublin: o triplo em comparação com 2012. Publicado em novembro de 2017, um estudo do Instituto de Pesquisas Econômicas e Sociais (Esri, na sigla em inglês) prevê alta de 20% em média até 2020 se o crescimento econômico se mantiver em seu nível atual: PIB (com inflação) crescendo mais de 4% ao ano desde 2014.

A razão desse furor? A escassez de moradia nas regiões centrais das cidades, longe dos loteamentos abandonados. “O país precisa de quase 50 mil habitações a cada ano. Em Dublin, a demanda anual se situa entre 15 mil e 20 mil unidades”, declarou o economista Ronan Lyons, em 28 de junho de 2017, na abertura de um comitê parlamentar misto encarregado de questões ligadas à habitação. A situação está igualmente crítica em Cork, Limerick e Galway, as principais cidades do país. Entre 2011 e 2016, 33.436 habitações, sendo 6.598 em Dublin e arredores, foram erguidas. Ou seja, 2% de todas as habitações ocupadas do país.

Não mais só os operários

A primeira explicação dessa queda nas construções está nas políticas de austeridade diretamente ligadas à crise de 2008:2 as despesas empregadas em moradia social foram cortadas em 80% entre 2008 e 2013. Mas ela também decorre de uma escolha feita há muito tempo pelo Estado: contar com o setor privado. Após uma recessão no fim dos anos 1980, o governo, até então principal fornecedor de moradia social, acabou com seu sistema de empréstimos bancários utilizados pelas coletividades locais (os aluguéis pagos pelos locatários reembolsavam o empréstimo), dando preferência a subvenções centralizadas, o que tornou o fornecimento de moradia social mais vulnerável aos cortes orçamentários. Como na Espanha e no Reino Unido, o Estado encorajava o arrendamento da propriedade. As moradias sociais eram vendidas aos locatários, ao passo que os proprietários ganhavam cada vez mais alugando lares elegíveis para a assistência social. Do ponto de vista das incorporadoras, os incentivos fiscais tornavam tais empreendimentos irresistíveis.

Guiados apenas pela bússola do mercado, os guindastes que se movem no céu de Dublin agora constroem escritórios, lojas, hotéis e… residências estudantis alugadas a quase 349 euros por semana: uma quitinete a quinze minutos da prestigiosa faculdade Trinity College. As residências – caras para produzir e muito pouco lucrativas – devem esperar, explica Kevin Nowlan, diretor-geral do truste de investimentos imobiliários (Reit) Hibernia, que se tornou um dos maiores proprietários irlandeses: “Construímos catorze apartamentos [alugados a 2.400 euros por mês no bairro de Docklands, apelidado de “Vale do Silício de Dublin”] e não lucramos nada. Fizemos isso porque era uma condição para construir um novo prédio de escritórios, senão jamais teríamos feito”.3

A solução? As habitações ociosas, segundo Lyons. Em Dublin, segundo o último recenseamento (2016), existem 20 mil delas, ou seja, o suficiente para atender à demanda atual… E esse número não leva em conta os andares inabitados acima das lojas. Mas ainda será preciso incentivar os proprietários a alugá-los ou vendê-los. Enquanto a bolha infla o valor dos bens sem que se preocupem em ocupá-los, forçar os cidadãos mais privilegiados a abrir a mão requereria do Estado uma dose de determinação que parece lhe faltar. Ainda mais que eles representam uma boa parte da base do atual governo, comandada por Leo Varadkar (do partido Fine Gael, de direita).

Minoritária no seio da Dáil Éireann (Assembleia da Irlanda, a câmara baixa do Parlamento), a coalizão Fine Gael-Independentes está com o pé na cova. Para que tenha o direito de governar, seu rival histórico, o Fianna Fáil (centro-esquerda), assinou com ela um acordo de confiança em maio de 2016 e aceitou abster-se durante a formação do Executivo. Mas tal arranjo está em constante ameaça de se romper. “Antes, o problema atingia apenas a classe operária”, explica Lorcan Sirr, pesquisador em estudos de moradia e economia urbana do Instituto de Tecnologia de Dublin (DIT). “Agora fala-se cada vez mais do assunto na mídia, pois a classe média começa a ser afetada. Os jovens adultos estão precisando voltar a morar com os pais, pois não conseguem mais imóveis, e as multinacionais percebem que isso pode impactar sua competitividade. São essas duas forças que têm o poder de mudar as coisas nas urnas.” A questão da moradia pode surgir como um dos principais assuntos da campanha das próximas eleições legislativas, antecipadas ou não.

 

*Manon Deniau é jornalista.



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