GÊNERO E SEXUALIDADE NA LITERATURA

Ironia e profundidade em ‘A noite dos príncipes encantados’, de Michel Tremblay

Romance de autor canadense chega ao Brasil pela editora O Sexo da Palavra, com tradução de Luciene Guimarães de Oliveira

Considerado um dos principais autores canadenses contemporâneos, Michel Tremblay acaba de ser publicado pela primeira vez no Brasil pela editora O Sexo da Palavra, especializada em gênero e sexualidade. A obra escolhida foi “A noite dos príncipes encantados”, que ganhou tradução de Luciene Guimarães de Oliveira e prefácio e revisão de notas de Sylvain Gagné.

‘A noite dos príncipes encantados’, de Michel Tremblay
‘A noite dos príncipes encantados’, de Michel Tremblay
Imagem: Editora O Sexo da Palavra

O romance acompanha um jovem de 18 anos que se encanta por outro homem durante a ópera e decide tentar uma aproximação, ainda que não saiba muito bem como fazer isso.

O protagonista é virgem, sonhador, tímido e, por vezes, deslocado. Também tem uma mente bastante ansiosa, o que dá tom cômico a várias das cenas narradas. Os questionamentos que surgem logo que ele avista o “príncipe encantado” exemplificam muito bem: “Ele deve ter me visto no corredor, porque se virou para mim enquanto o receptor de bilhetes fazia seu serviço. Foi um verdadeiro sorriso e devo corresponder? Em caso afirmativo, que tipo de mensagem devo transmitir? Devo ter ar de surpreso, de contente, de indiferente, de não-interessado-de-jeito-nenhum, mesmo se estivesse um pouco? Ou estava realmente? E como fazer passar num sorriso que estou um pouco interessado?”.

Em meio a tantas dúvidas, o jovem tem uma certeza: precisa abordar aquele homem irresistivelmente misterioso. Para isso, decide segui-lo e inicia uma jornada noite adentro, numa sequência de acontecimentos que lembra vagamente “Breve romance de sonho”, de Arthur Schnitzler, adaptado para o cinema por Stanley Kubrick com o título de “De olhos bem fechados”.

Em sua aventura, o protagonista de “A noite dos príncipes encantados” passa por diálogos constrangedores, conhece novos lugares e teme não ter dinheiro suficiente para voltar para casa. Ao mesmo tempo, leitores e leitoras mergulham na Quebec dos anos 1960, com uma cena artística fervorosa, repleta de beatniks, música, teatro, literatura e cinema.

Todo esse cenário é enxergado de forma ácida pelo jovem, o que confere uma camada sarcástica à narrativa, além de tornar o protagonista ainda mais interessante. Seus conflitos também chamam a atenção, não apenas por suas questões internas, mas por todo o contexto de ser um homossexual na Quebec da década de 60. Não por acaso, por mais que esteja cercado pela bolha artística, o protagonista sabe que pode se deparar com situações violentas a qualquer momento.

Apesar disso, ele se mostra bastante decidido a viver intensamente suas relações, fazer descobertas e encontrar um espaço que lhe proporcione a sensação de pertencimento. Enquanto procura por isso, se apaixona, sente ciúmes, fica em dúvida entre dois pretendentes e, principalmente, se aceita.

Com uma escrita que prende a atenção desde as primeiras páginas, Michel Tremblay constrói uma narrativa repleta de ironia e sagacidade. O livro aborda temáticas LGBTQIAPN+ por caminhos não óbvios, sem deixar de lado a seriedade do tema e a profundidade na composição de personagens intensos e verossímeis.

Publicado originalmente em 1995, “A noite dos príncipes encantados” chega ao Brasil com excelente tradução e com notas de rodapé que não apenas esclarecem, mas também divertem. Por meio de um romance tão original quanto necessário, a editora O Sexo da Palavra apresenta a brasileiros e a brasileiras um escritor crítico, sensível e, no melhor dos sentidos, bastante debochado.

 

Bruno Inácio é jornalista, mestre em comunicação e autor de “Desprazeres existenciais em colapso” (Patuá) e “Desemprego e outras heresias” (Sabiá Livros). É colaborador do Jornal Rascunho e da São Paulo Review e tem textos publicados em veículos como Le Monde Diplomatique, Rolling Stone Brasil e Estado de Minas.

 

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