Justiça e jornalismo nas Américas - Le Monde Diplomatique Brasil

Redes sociais

Justiça e jornalismo nas Américas

Acervo Online | América do Sul
por Mirna Wabi-Sabi
1 de junho de 2020
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Por um lado, as mídias sociais podem visibilizar atrocidades e causar um alvoroço pela justiça social, mas, por outro, é ainda mais eficaz para nos distrair deles e garantir que o alvoroço seja estéril.

Por que a rede social não foi mais eficaz em assegurar a justiça social? Alguns argumentam que foi. Ela conecta as pessoas, viraliza a resistência contra o racismo e é útil juridicamente – porque mostra como os relatos policiais nem sempre correspondem às evidências amplamente divulgadas pela população. De fato, as evidências que levam ao clamor público online têm resultados concretos em certos casos e podem impedir a impunidade, como vimos recentemente no caso Ahmaud Arbery nos Estados Unidos. “Demorou dois meses, um vídeo vazado e um clamor público” (Washington Post) para que uma prisão acontecesse. Mas, mesmo com a evidência explícita do que aconteceu circulando nas redes sociais, muitos ainda argumentam que esse caso não evidencia a violência racializada presente em todo o país. Desde o fim da Guerra Civil nos EUA, há uma tendência de lidar com a violência racial como casos isolados, até quando ela começou a se manifestar de forma organizada através do Ku Klux Klan. Então, até que ponto essas novas tecnologias conseguem abalar as estruturas racistas da nossa sociedade?

(Fotos históricas colorizadas por Marina Amaral, em projeto chamado ‘In Color || Slavery In Brazil, 1869’)
(Fotos históricas colorizadas por Marina Amaral, em projeto chamado ‘In Color || Slavery In Brazil, 1869’)

Na maioria das vezes, os artigos da década passada sobre a rede social e a justiça social gostam de apresentá-las como boas amigas, talvez até como “casadas”. O relacionamento delas é descrito de maneira mais depreciativa como codependente ou problemática – mas nunca em desacordo. A descrição que apresento aqui é ainda mais depreciativa do que uma de conflito – é de indiferença. A relação entre a mídia social e a justiça social tem tão pouco valor que elas não são nem casadas, e ​​nem em desacordo, são irrelevantes uma para a outra. Qualquer coisa positiva que surge de tal interação é neutralizada por todas as negativas, a ponto de esvaziar por completo qualquer valor.
O que é relevante é como usamos os recursos disponíveis, não os recursos em si. Especialmente se esses recursos são empresas com fins lucrativos que se beneficiam da elaborada estratégia de marketing que surge de nossos elogios. Zuckerberg lucra com a propagação da ideia de que sua plataforma está construindo “uma sociedade mais forte que reflete todos os nossos valores” (The Guardian), mas isso também significa abrir caminho para valores genocidas e preconceituosos de movimentos pelo o mundo. Além disso, o Facebook despersonalizou a palavra “amigo” e capitalizou seu novo significado esvaziado. É contraintuitivo (no entanto, aparente) que quando usamos a palavra “Social” em excesso, menos sociais somos.

Foto por Alberto Henschel, colorizada por Marina Amaral.
Foto por Alberto Henschel, colorizada por Marina Amaral.
Abolicionistas e mídia conservadora

Antes da Internet e do Xerox, tínhamos a prensa móvel alemã e todas as suas evoluções ao longo dos séculos. Logo antes da grande virada do século (XIX a XX), essas máquinas foram usadas pelos dois lados do conflito entre abolicionistas e a grande mídia conservadora. A maioria dos séculos foram marcados por resistência e revolução, mas essa virada em particular é marcada pelo fim formal da escravidão e pelo nascimento do capitalismo industrial, consequentemente dando origem ao movimento de resistência que ainda estamos fomentando hoje.

Se tornou desnecessário ter acesso a uma equipe para manusear uma prensa móvel do tamanho de uma sala, rolando algumas centenas de quilos de metal para a frente e para trás, para produzir mídia viral. É necessário a mão de obra de pessoas da área de minério, fabricação, ciência da computação, design, serviços públicos de eletricidade etc., para a fabricação de nossos dispositivos individuais, fora o trabalho de provedores de internet e software.

Assim como hoje, os principais meios de comunicação da virada do século eram sensacionalistas e mentiam com frequência, causando desconfiança na população e trends nacionais. Os anos logo após a Guerra Civil dos Estados Unidos, houve um aumento acentuado na disseminação de informações políticas e na velocidade com que as notícias chegavam à população. Foi também quando o Ku Klux Klan surgiu e, consequentemente, o ‘negacionismo’ do Klan. “Não havia nada ambíguo ou misterioso sobre as ações comuns de homens do Klan” (Elaine Frantz Parsons) e, no entanto, o discurso público não se aprofundou mais do que o debate sobre se ele existia. Evidências físicas excessivas, testemunhas, homens do Klan desfilando às centenas e inúmeras notícias pelo o país não conseguiram disputar com o orgulho do Sul (a parte do país que perdeu a guerra). O que levaram muitos a revelar suas despreocupações com as vítimas através do menosprezo do escopo da violência. O negacionismo do Klan virou um trend.

Mito da democracia racial

Depois de viajar para os Estados Unidos e testemunhar uma sociedade pós-escravidão severamente segregada, o renomado sociólogo brasileiro Gilberto Freyre retornou com novas ideias que glorificavam a miscigenação no Brasil e a chamada minimização de “exageros africanoides”. Em contraste com a “regra de uma gota” dos EUA, Freyre afirmou que ” trazemos quase todos a marca da influência negra”, e isso deve ser visto como positivo. Suas visões sobre identidade ‘pós-colonial’ são frequentemente consideradas “menos severas” do que a maioria das perspectivas coloniais, mas foram elaboradas meio século após a abolição da escravatura e formaram uma base para o mito da democracia racial que sustenta grande parte das estruturas racistas presentes no país atualmente.

Freyre dirigiu diversas vezes o mais antigo jornal de circulação contínua na América Latina e na língua portuguesa, o Diário de Pernambuco, e obteve influência significativa através de publicação. Em 1865, alguns meses após o fim da Guerra Civil nos EUA, um jornal da mesma região, O Liberal Acadêmico, publicou um protesto em apoio à abolição da escravatura no Brasil. A edição elogia John Brown, um dos mais notórios abolicionistas americanos, e denuncia mentiras que circulavam no discurso público, revelando um diálogo interessante entre os movimentos abolicionistas dos dois países.

A história do abolicionismo e da grande mídia põe os Estados Unidos e o Brasil à parte dos países vizinhos. A história da mídia impressa na América hispânica remonta ao século XVI e é marcada por um domínio colonial espanhol particularmente repressivo. Houve altos índices de analfabetismo, línguas indígenas deslocadas, estruturas institucionais paternalistas e pobreza. Tudo isso atrasou a produção dos meios de comunicação, embora a tecnologia – a prensa móvel – tenha chegado à Cidade do México antes de qualquer outro lugar nas Américas. Mary A. Gardner explica que “o maquinário geralmente é menos controverso do que as ideias […] A liberdade de imprensa e a busca da verdade tornam-se tópicos perigosos”. É por isso que os países hispânicos avançaram tecnologicamente, enquanto sua valiosa produção de mídia política existia em menor quantidade e de forma muito mais arriscada. Mesmo assim, uma estratégia consistente para combater as mentiras divulgadas pelos principais meios de comunicação tem sido produzir mídia independente. A mesma plataforma tecnológica que disseminou mentiras, seja a imprensa ou o Facebook, é usada para denunciar essas mentiras.

Na década de 1880, a reação contra jornais sensacionalistas e às notícias sobre a revolta de Haymarket em Chicago, o evento que gerou o que hoje chamamos de Dia do Trabalhador, era usar a mesma tecnologia para produzir jornais e panfletos dirigidos por pessoas trabalhadoras. A organizadora e participante mais inspiradora desta revolta, Lucy Parsons, produziu apaixonadamente inúmeros materiais de leitura revolucionários por anos. Se houvesse uma gráfica, ela escrevia e publicava extensivamente. Se houvesse uma fábrica, ela criava um sindicato. Se houvesse uma carroça, ela subia e proclamava sua visão de emancipação. Ela participou de um movimento de resistência incapaz de separar racismo, capitalismo e Estado. E após a morte de John Brown, ela presenciou um novo movimento de libertação negra surgir e liderar a si próprio.

 

Ilustração com Lucy Parsons e John Brown.
Ilustração com Lucy Parsons e John Brown.

“O corpo de John Brown está murcho no túmulo. Mas será que o espírito dele também está? Brutos, monstros desumanos – vocês brutos, sem coração – vocês que a natureza forma moldando-os nela, não se enganem pensando que outro John Brown não surgirá.”
Lucy Parsons, abril de 1892

Essa mulher, nascida no início da década de 1850, de uma mãe negra escravizada e possivelmente pai branco escravizador, chamou racistas de “merda” nas notícias nacionais. Mudança era urgente para Parsons, e por mais inspiradora e importante que fosse, suas contribuições para o discurso político beiram a obscuridade.

Nós também somos suscetíveis à obscuridade. Não apesar, ou por causa, da tecnologia moderna. Mas porque “o que é a história senão uma fábula em qual concordamos?” (Napoleão, talvez). Nossas ‘postagens’, ‘compartilhamentos’ e hashtags se dissiparão no vazio digital quando começarmos a nos enxergar como uma geração que experienciou um excesso de visibilidade individual, se empolgou e esbaldou. E o ‘esbaldar’ é indiferente à mudança, assim como a mídia social é indiferente à justiça social. Hoje em dia, parece que atribuir uma natureza revolucionária a uma tecnologia é depreciar nosso potencial revolucionário como seres sociais, mesmo com todas as suas complexidades.
O antropomorfismo tem o propósito de ressaltar conceitos da humanidade, não de enfraquecê-los. É por isso que atribuir a qualidade revolucionária humana a um objeto tecnológico deve ser feito com muito cuidado. Quando Edgar Allan Poe retrata a mansão em A Queda da Casa de Usher como viva, ele exacerba a realidade dos corpos humanos que estão morrendo. Não é uma anedota surrealista sobre um edifício, é um retrato visceral sobre mortalidade humana. Então, quando Poe testemunhou o nascimento de uma nova tecnologia, a Impressão Anastática, ele a descreveu como revolucionária para grifar o potencial da escrita criativa e das singularidades autorais.

“Enquanto a litografia abriu caminho para um passatempo muito agradável, é a província da Impressão Anastática revolucionar o mundo.”
Edgar Alan Poe, abril de 1845

Esta nova tecnologia revolucionou o mundo menos em termos de técnica e mais em termos de abordagem à produção e autonomia intelectuais. Cópias poderiam ser feitas de forma mais rápida, barata e fácil do que nunca, inspirando escritores a auto-publicar manuscritos e a explorar um novo cenário de “concepção original”. Allan Poe ressalta que “estereotipar” informações de maneira barata e fácil introduz uma necessidade urgente de leis internacionais de direitos autorais. Um século e meio depois, este método não é mais usado, mas ainda nos preocupamos com a reprodução ilimitada de obras e preservação de propriedade intelectual.

Tecnologia e revolução

Outro exemplo da relação entre tecnologia e revolução é o trabalho recente de Marina Amaral de colorizar as fotos de Alberto Henschel no século XIX. Este fotógrafo alemão usou a mais moderna tecnologia fotográfica disponível em meados do século XIX para fotografar negros e negras no Brasil antes da abolição da escravatura. No ano passado, esta artista brasileira usou as mais modernas técnicas e softwares de edição de fotos para dar cor às imagens. O resultado é um encontro de tirar o fôlego. Os olhos dos fotografados perfuram o espectador com a realidade do que era, e o que ainda é, uma sociedade profundamente injusta, onde a beleza e a força persistem.

A tecnologia pode ajudar a nossa compreensão das coisas, pois pode nos impedir de nos identificar com a nossa história. Ver fotos antigas em cores as torna mais acessíveis ​​porque estamos acostumados a nos ver retratados dessa maneira. Assim, enquanto a tecnologia de colorização realçou nosso entendimento, sem ela, nossa história parecia mais distante de nós. O software de edição de fotos ou o equipamento fotográfico do século XIX são veículos voláteis para a visão atemporal de um artista e a onipresença de nossos ancestrais. O indivíduo na rede social se distancia da realidade terrível do passado. A maioria diria que isso é positivo, embora não garanta que realidades terríveis sejam coisas do passado.

Por um lado, as mídias sociais podem visibilizar atrocidades e causar um alvoroço pela justiça social, mas, por outro, é ainda mais eficaz para nos distrair deles e garantir que o alvoroço seja estéril. Até culpar qualquer um deles seria dar muito crédito a esse relacionamento. Viralizar não é o objetivo, é um primeiro passo ineficaz em direção à emancipação, se é que seja um. Quando o Facebook se tornar o MySpace de nossas crianças, haverá outras invenções e ferramentas para nos ajudar na luta por um mundo melhor. E não devemos esquecer de onde viemos e das lições desta jornada. Fundamental é nunca perder de vista pelo o que estamos lutando. O resto é efêmero.

Mirna Wabi-Sabi é editora do site Gods and Radicals Press, membro fundador da revista A Inimiga Da Rainha e do coletivo de mídia Plataforma 9.



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