Juventudes do Cerrado: sonhos e resistências - Le Monde Diplomatique

Povos do Cerrado

Juventudes do Cerrado: sonhos e resistências

Cerrado | Brasil
por Bruno Santiago e Rafael Oliveira
25 de novembro de 2020
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A diversidade identitária e cultural são características da juventude e por isso convidamos jovens de diferentes territórios e realidades para nos contarem sobre o que é ser jovem e fazer parte de um povo indígena ou de comunidade tradicional do Cerrado

Não são poucos os desafios que os povos e comunidades tradicionais que vivem no Cerrado enfrentaram em 2020. Sabemos que os conflitos agrários, a violação de direitos, os incêndios criminosos, o desmatamento e as desigualdades socioeconômicas não são processos que surgiram este ano, mas certamente foram agravados pela pandemia do novo coronavírus e pela gestão do atual governo federal.

Apesar do cenário adverso, te convidamos a conhecer experiências de jovens que resistem e fazem brotar esperança em seus territórios. Esperança do verbo “esperançar”, de Paulo Freire, que é aquela que nos exige agir e transformar o tempo presente.

A diversidade identitária e cultural são características da juventude e por isso convidamos jovens de diferentes territórios e realidades para nos contarem sobre o que é ser jovem e fazer parte de um povo indígena ou de comunidade tradicional do Cerrado. Neste texto, aprenderemos com Laís Cardoso, do Acampamento Padre Josimo, situado na região do Bico do Papagaio (TO); Emília Costa, da Comunidade Quilombola Santo Antônio do Costa, do município de São Luiz Gonzaga (MA); Eriki Paiva Terena, do Território Indígena Taunay/Ipegue, de Aquidauna (MS); e Aline Mialho, agente pastoral e coordenadora da Comissão Pastoral da Terra (CPT) no estado do Mato Grosso.

Ser jovem, ser mulher, ser quebradeira

“Ainda cabe sonhar”. Foi com essas palavras entoadas em forma de canção que a jovem tocantinense Laís Cardoso começou a nos contar sobre os desafios que enfrenta no Bico do Papagaio região do extremo Norte do Tocantins. “Ser jovem, ser mulher, ser quebradeira de coco babaçu é partilhar desafios, é lutar pela terra, defender os nossos territórios, contribuir com os acampamentos e assentamentos populares nas fortalezas, construir, organizar a juventude. Aqui, no Bico do Papagaio, a gente tem várias juventudes e a gente está tentando se mobilizar assim, fazer com que todos os setores sejam ouvidos, articulados para lutar contra tudo isso aí que a gente está vivendo hoje, que é esse processo muito difícil”, conta.

Mesmo com as dificuldades impostas pela pandemia, as comunidades do Bico do Papagaio não deixaram de produzir alimentos para garantir a soberania alimentar do território. “É o nosso enfrentamento aqui, nossa quarentena é diferenciada porque a gente ultimamente tem produzido mais do que nos anos anteriores, estamos produzindo para nosso consumo e para a cidade. Essa produção está sendo distribuída em cestas básicas para áreas periféricas, e isso é meio que um reflexo do que a gente está vivendo, porque é o contrário do que acontece aqui no Bico em relação ao agronegócio, porque temos esse projeto macabro que é o Matopiba, que vem degradando nossas áreas e nosso solo, atacando nossos territórios e nossos povos”, enfatiza.

Katarina em seu quintal agroecológico no Bico do Papagaio (TO) / Crédito: Clara Mabeli/Acervo APA-TO

O Bico do Papagaio está situado na fronteira agrícola do Matopiba — que incorpora os estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia — e há décadas sofre intensos processos de conflitos por terra. Ao Norte, sua extremidade é marcada pelo encontro dos rios Araguaia e Tocantins, responsáveis pelo abastecimento dos municípios da região e de centenas de comunidades rurais, o que desperta grande interesse do agronegócio. A região sofre com o crescimento das fazendas de monocultura de eucalipto, teca, gado e a expansão de empresas do ramo do papel e celulose, que desmatam, poluem os rios e ameaçam a vida e os territórios de comunidades tradicionais que vivem na região.

Por outro lado, assim como nos explicou Laís, os processos de resistência protagonizados por trabalhadores e trabalhadoras rurais das comunidades tradicionais, assentamentos, sindicatos e movimentos sociais da região prosseguem. Uma das expressões concretas dessa resistência é a atuação do grupo de comunicadores populares chamado “Jovens em Comunicação”, do qual Laís faz parte.

“O Jovens em Comunicação é um grupo de jovens das comunidades. A gente tem feito várias atividades que mostram o que está ocorrendo dentro dos nossos acampamentos. E uma das coisas que a gente tem utilizado é essa comunicação para fazer denúncias, porque ultimamente nossas áreas aqui no Bico do Papagaio, uma em específico, vêm sofrendo alguns ataques com fogo. E a gente sabe muito bem que esse fogo, ele tem nome, tem dono”, ressalta a jovem comunicadora popular que nos explica que a atuação do coletivo combina atividades formativas e práticas voltadas para jovens de comunidades rurais de diversos municípios do Bico do Papagaio.

“Um apanhado de jovens está participando dessas formações recheadas de conteúdos para a gente aprender a se comunicar nas nossas áreas com os nossos povos e transmitir o que a gente está fazendo, o que a gente está produzindo, o que a gente tá vivendo para a cidade e para a sociedade”, destaca a jovem.

Iniciado em 2015, o projeto Jovens em Comunicação conta com a assessoria da organização Alternativas para a Pequena Agricultura no Tocantins (APA-TO) e o apoio de diversas entidades e movimentos da região, oferecendo aos jovens um curso de capacitação e atividades práticas que abordam temas como agroecologia, comunicação comunitária e direitos humanos.

Grupo de jovens que participação do grupo Jovens em Comunicação
Jovens durante módulo formativo do Projeto Jovens em Comunicação. Crédito: Acervo/APA-TO

 

Escassez de oportunidades e políticas públicas

O que faz o jovem sair do campo e tentar ganhar a vida na cidade? De acordo com pesquisa lançada em outubro de 2020 pela APA-TO em parceria com a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), as juventudes rurais do Bico do Papagaio não permanecem em seus territórios tradicionais por conta da falta de emprego e a impossibilidade de geração de renda, falta de estrutura e políticas públicas, falta de apoio das famílias e devido à desvalorização da pequena produção rural. Ainda segundo o estudo, 72% desses jovens desejam permanecer no campo, mas 50% não sabem se irão conseguir.

“A gente está sempre numa disputa direta com o capital e o pessoal quer o desenvolvimento que está acontecendo fora das nossas comunidades. Enquanto nas nossas [comunidades] não chegou internet, na cidade já tem. Não temos um emprego que possa disponibilizar para eles para estar comprando tênis. E aí isso acontece sempre. Eu acredito que é um reflexo em todas as comunidades, em todos os povos, que estão em busca de uma melhoria, em busca de uma vida melhor”, relata Laís. Em entrevista dada ao site do Movimento Sem Terra, a jovem afirmou que a juventude está insatisfeita por não ter retorno financeiro de suas atividades. “São esses jovens que cuidam da terra, da vida, das águas, do solo, com práticas agroecológicas, respeitando a biodiversidade do Cerrado e da Amazônia e que, infelizmente, se veem obrigados a migrar porque não encontram oportunidades para se beneficiarem dentro dos seus próprios territórios”, destaca.

Consciente das conquistas das juventudes, mas ciente dos desafios impostos pela conjuntura, Laís é manifestação concreta do “esperançar” dos Povos do Cerrado. “Então, em meio a tudo isso, confrontando tudo isso, a gente está produzindo, a gente está resistindo, a gente está sonhando com um futuro melhor”, finaliza.

Passos que vêm de longe

“O que é ser uma jovem quilombola nesse país de opressão?” Emília Leite, jovem moradora do Quilombo Santo Antônio do Costa, localizado no município de São Luís Gonzaga (MA), fez essa indagação a si mesma. Elementos para traduzir o que é ser jovem quilombola em um Brasil fundado na exclusão não faltam, assim como as formas de resistência para ser protagonista em um cenário historicamente adverso. “Desde a chegada dos povos africanos aqui no Brasil, a gente tem sempre as piores condições de vida e os piores locais para morar. E tudo isso se soma a vários fatores da atualidade. Mas em contraponto a todo esse sofrimento, a gente traz alegria de pertencer, de morar, de conviver de forma coletiva com outras pessoas, que são nossos parentes, que têm a mesma ligação com o território”, pontua Emília.

A intimidade com o local de morada, na perspectiva da jovem quilombola, se dá de diversos modos. O sentimento de pertencimento, segundo Emília, vai “além das pessoas, o território não é apenas as pessoas, mas também temos as águas, as encantarias, os frutos, os animais, tudo compõe esse território e vem nos alegrando nesse processo de luta. E se a gente não criar essa relação com tudo que está conectado dentro desse território, o nosso ser jovem quilombola não tem sentido. Porque a gente não encontra isso em outros espaços. Na cidade, um jovem quilombola não vai encontrar toda essa conexão”.

Esse modo de vida e de culto às raízes é constantemente ameaçado pelo capital na figura do agronegócio. A Comunidade Quilombola Santo Antônio da Costa — assim como outras comunidades da região — é alvo da pressão de grileiros criadores de gado. Emília aponta esse assédio como uma maneira de cortar as raízes dos jovens com sua ancestralidade. “A juventude quer melhorias, quer avançar, e quando a gente vive em um território em disputa, se você não tiver uma juventude mobilizada, consciente dentro do processo de luta, ela vai ter outras motivações de vida”.

A oferta do agronegócio induz jovens a acreditarem numa vida melhor fora de suas comunidades. Essas falsas promessas se traduzem, muitas vezes, em exploração da mão de obra na sua forma mais degradante: o trabalho escravo. “Isso acontece muito no Maranhão com a juventude das comunidades quilombolas. Aí eles viajam para outros estados e vão muitas vezes ser escravizados, vão ganhar mixaria indo para essas fazendas cortar cana, catar alho, cebola”.

Aos 28 anos de idade, o olhar de Emília consegue discernir que essas violências são orquestradas pelo capital privado com a anuência do Estado. Os dois poderes se mesclam. A bancada ruralista, no Congresso Nacional, reúne mais de 250 deputados federais ligados à Frente Parlamentar da Agropecuária. Esses congressistas são responsáveis por defender a pauta do agronegócio em detrimento da existência de povos indígenas e comunidades tradicionais e da preservação dos biomas.

Para Emília, as juventudes precisam de políticas públicas capazes de contribuir, por exemplo, para o desenvolvimento educacional de meninas e meninos, mas desde que sejam com um viés transformador e que respeitem suas tradições. “A gente já sabe que a educação que a gente tem é excludente, e que não é para as comunidades tradicionais. E isso, nesse período, nos remete que a gente tem que construir uma educação para nós, que conte nossas Histórias, que não nos exclua, que conte realmente o que aconteceu no Brasil, e que a gente não só levou pancada, que a gente também lutou, por isso que estamos vivos. A gente tem que começar a fazer essa descolonização também na educação”.

“Quantas vozes indígenas você acompanha?”

“Quantas vozes indígenas você acompanha? Quantas vozes quilombolas você ajuda a ecoar? Eu fiquei me perguntando para quem e para quê. Porque o meu povo, neste momento, não está tendo oportunidade, não está tendo a chance de assistir a essas lives. Não só por todo o contexto social, mas também pelo contexto do momento, da covid mesmo, e das queimadas no Cerrado e Pantanal, que vocês veem como está se desenvolvendo”, questiona o sul-mato-grossense Eriki Paiva, do Território Indígena Taunay/Ipegue.

Para o jovem terena, ocupar os espaços virtuais é uma forma concreta do fazer resistência nos tempos atuais. “Eu tenho ocupado esse espaço justamente como um espaço de denúncia, de visibilizar essa situação. Eu pensei que se eu não ocupar esses espaços, outras vozes, como antigamente, falarão por mim. Se você tem sensibilidade com assuntos fortes, e às vezes se afasta desse espaço, acha que as redes sociais são tóxicas, mais tóxicas ainda estão as vivências que nós temos que enfrentar nos nossos territórios, e é preciso falar delas, é preciso visibilizá-las, porque se a gente não visibilizá-las, se a gente não falar sobre elas, o resto do mundo acha que tá tudo natural e a gente segue morrendo”, enfatiza.

Povo Guarani Kaiowá do Território Indígena Laranjeira Nhanderu, em Brilhante (MS). Crédito: Thomas Bauer

O território indígena Taunay/Ipegue é localizado no município de Aquidauana (MS), região de transição Cerrado-Pantanal, que neste ano teve número assustador de focos de incêndio e desmatamento. De acordo com dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), os anos de 2019 e 2020 (até setembro) foram de recordes na quantidade de focos de queimadas no Cerrado (50,3 e 43,6 mil), no Pantanal (5,9 e 16,9 mil) e na Amazônia (65,7 e 73,9 mil), totalizando, 141,6 mil focos em 2019 e 153,5 mil focos até 27 de setembro de 2020 nos três biomas. O Pantanal, neste ano, acumulou os maiores índices de queimadas desde que o INPE começou a registar os números do bioma, em 1998, destruindo 15% da região. Sobre esta situação, Eriki comenta:

“A gente está lidando com muita dor, está passando por esse momento com muita dor. Muitas das nossas pinturas representadas em nossos rostos, os nossos grafismos, representam animais. A gente tem pinturas que representam a cobra coral, pinturas que representam a onça pintada, e aí a gente vê essas espécies morrendo diariamente nessas queimadas. E aí eu me pergunto se meus filhos vão ter oportunidade que eu tive de aprender com o meu ancião, que tal pintura representa uma onça e poder ver essa onça, nem que seja por imagens próximas. Eu fico me perguntando se meus filhos vão ter essa chance de poder contemplar o que é uma onça, o que é uma cobra, o que é um animal silvestre no seu habitat. Na nossa região, a gente fica a 60 km da cidade numa área rural, e eu tive o privilégio de acordar com o canto dos pássaros, de tomar água direto do rio. Eu tenho muito medo de que os meus filhos não tenham essa oportunidade”.

Identidades e resistências

Ao ser perguntado sobre o impacto da pandemia em seu território, Paiva destacou a gravidade da conjuntura. “No Mato Grosso do Sul, a gente tem 62 óbitos de covid-19 já confirmados (dado de setembro de 2020). No meu território, entre o povo terena, existem 2.027 casos confirmados da doença e 57 óbitos. Somos a terceira etnia com maior número de óbitos. Na minha terra indígena Taunay/Ipegue, são 820 casos confirmados da doença. Não é somente questão de vida, não é somente questão de pessoas, são vozes que param de sonorizar, mas que seguem gritando dentro de nós por justiça, são mãos que deixam de segurar o maracá e cantarem para partirem para o mundo da encantaria”.

Segundo Eriki, os números de contaminação e mortes não são ainda maiores porque seu povo segue organizado e resistindo como é possível. “Nós temos que nos preocupar em continuar deixando nosso povo vivo. Atuei durante três meses na barreira sanitária do meu povo, para impedir a entrada de pessoas não-indígenas dentro da aldeia, uma barreira que funcionava 24 horas por dia com troca de turmas. Minha preocupação sempre foi essa de realmente atuar e proteger não só minha vida. A minha vida não tem mais importância se eu não puder dividir o meu espaço, meu fôlego com um animal silvestre. Eu não quero continuar num Brasil, num mundo em que a árvores tenham que ser derrubadas para construir asfalto e prédio”, enfatiza.

Além da situação de vulnerabilidade social e econômica ter sido aprofundada pela covid-19, Eriki também aponta para as lutas por direitos culturais, identitários e territoriais que os povos indígenas do Mato Grosso do Sul e do Brasil enfrentam diariamente. “Hoje, o índio só é aceito na sociedade se ele tiver vontade de se integrar, se ele tiver vontade de abandonar sua cultura, abandonar o seu pensamento, a sua língua. Se o índio quiser continuar preservando seu território, preservando seus costumes, ele precisa ser morto. É o que acontece no Brasil hoje. Um etnocídio, é um genocídio legislado, onde o próprio Estado legisla a favor de nossas mortes, que tampa as nossas bocas”.

Para ser jovem indígena hoje é preciso lutar para afirmar todos os dias a sua identidade. É o que nos explica Eriki. “É difícil ser jovem hoje, porque a gente enquanto jovem indígena tramita pelos dois espaços, pelos dois mundos, pelo mundo não-indígena e pelo mundo indígena. No mundo não-indígena hoje sou estudante, já sou biólogo, professor formado, e agora estudante de Direito. Tive que aprender a transitar nesse espaço, a ocupar esse espaço, e ainda assim dentro deste espaço ter minha identidade inúmeras vezes negada, até mesmo por pessoas que se dizem respeitadores das etnias e dos povos, e ambientalistas”.

De acordo com o terena, “a sociedade não-indígena num todo não está adequada, não está preparada para nossa presença ainda. E é extremamente doloroso esse processo que não respeita as culturas, e não respeita os povos, os espaços e a diversidade do país”.

Ao ser questionado sobre caminhos possíveis para transformação dessas realidades desafiadoras, Eriki nos convoca a refletir: “Precisamos pensar para quem e de que forma queremos o desenvolvimento de nossa sociedade. Eu acho que enquanto a gente pensar num desenvolvimento que não respeite os povos indígenas, não respeite os quilombolas, não respeite a natureza, os trabalhos com a natureza e não tenha uma visão extremamente humanizada, mas uma questão também naturalizada, as mortes vão continuar seguindo”, finaliza.

Voz, vez, lugar

Aline Mialho é coordenadora regional da Comissão Pastoral da Terra (CPT) em Cuiabá (MT). Aos 29 anos de idade, suas raízes camponesas se mantêm alimentadas pelo trabalho com a agroecologia e no envolvimento com as mulheres e jovens do campo. Entusiasta de temáticas como feminismo e questões geracionais, ela é uma das agentes da CPT que aprofunda o debate sobre juventudes na estrutura da pastoral e nos territórios.

O discurso de que “jovem não quer nada com nada” causa desconforto em Aline. Para ela, é desafiador conseguir mostrar que a juventude está presente na luta construindo processos emancipatórios. “Às vezes falam: ‘vamos inserir os jovens’, ‘ah, põe o jovem na animação, põe o jovem na relatoria [de encontros e reuniões]’. Até dentro das organizações às quais pertencemos, a gente ainda tem que ir lidando, rompendo certas barreiras, certos preconceitos. E a gente tem o nosso pé no chão, no bioma. A gente segue uma caminhada que já foi feita até aqui, mas a gente quer caminhar como nós aprendemos e achamos que é a melhor forma de se caminhar”, protesta.

Quando a discussão é direcionada para dentro dos territórios, a agente pastoral acredita que o desmantelamento de políticas públicas voltadas às juventudes nos último anos, como o Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária (Pronera) e o Programa Nacional de Alimentação Escolar (Pnae), é um fator relevante para a evasão do campo. “Nós, jovens, precisamos gerar renda para permanecer nos territórios, porque senão a gente vai se deparar com esse processo que Emília relatou, que sempre saem ônibus e mais ônibus lotados de pessoas atrás de emprego. É necessário discutir o trabalho escravo também que chega até o jovem”.

Seu anseio de lutar por espaços nos quais seja possível “ouvir os jovens que estão no Cerrado, mas também que estão no Pantanal, que estão na Caatinga, estão na Amazônia”, não esbarra em portas fechadas, pelo contrário, esse sonho é algo que a movimenta. “A gente quer mesmo ser visto, ser vista, a gente quer fazer alegria, a gente quer chorar, a gente quer estar no enfrentamento, a gente quer estar em todos os espaços, porque a gente precisa disso também”.

Ainda cabe sonhar

Ao recordar o I Encontro das Juventudes do Cerrado, realizado em dezembro de 2018, em Hidrolândia (GO), com a participação de mais de 100 jovens de todos os estados que compõem o Cerrado, Aline convoca a juventude a seguir na luta, independente das diferenças que envolvem essa caminhada. “A gente cantava ‘passarinho de toda cor, gente de toda cor, amarelo, rosa e azul, me aceita como eu sou’. Então eu acho que é isso, deixar esse recado para nós, jovens do Cerrado, para a gente continuar aí, continuar falando, gritando para todos os cantos”, finaliza.

Ciranda das juventudes durante o I Encontro das Juventudes do Cerrado, em Hidrolândia (GO). Crédito: Acervo/Campanha em Defesa do Cerrado

Durante o encerramento do Encontro rememorado por Aline, os jovens participantes clamaram: “É tempo de união. Tempo de avançar de mãos dadas com nossos companheiros e nossas companheiras de outros biomas, das cidades, de outros países para resistir aos retrocessos. É momento de, mais do que nunca, abrir caminho para a resistência da juventude, dos nossos cantos, da nossa energia e da nossa mística. O Cerrado também é sua juventude resiliente e a sua diversidade. Não temos tempo a temer, vamos juntos e juntas e respiramos luta!”.

Ao observarmos a diversidade presente em seus territórios, conjunturas, modos de vida e processos de resistência, Aline, Emília, Laís e Eriki, assim como tantos e tantas juventudes do Cerrado, nos provam que “ainda cabe sonhar”, nos provocando a construir as esperanças coletivamente, misturando gerações, respeitando as diferenças e valorizando a vida e os saberes ancestrais dos Povos e Comunidades Tradicionais de nosso país.

 

Bruno Santiago é assessor de comunicação da Campanha Nacional em Defesa do Cerrado, educomunicador e especialista em Mídia, Informação e Cultura pela Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (ECA – USP).

Rafael Oliveira é jornalista, comunicador e educador popular e atua como Articulador da região Centro-Oeste no projeto “Ação Coletiva Comida de Verdade: aprendizagem em tempos de pandemia”.



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