Letrado ou viado - Le Monde Diplomatique

ATIVISMO

Letrado ou viado

por Giane Maria de Souza
26 de março de 2019
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A voz de Jean pelo mundo ecoa-se, implacavelmente, como antifascista. E como cantou Itamar Assumpção: “Um homem com uma dor é muito mais elegante”

Uma criança de seis anos, a pedido da mãe, se dirige a uma “venda”, no interior da Bahia, e diz ao atendente: – Eu gostaria de comprar seis pães. Uma cena simples do cotidiano foi observada por um estranho, que não titubeou e inquiriu o menino: – Você é letrado ou viado?

Esta poderia ser mais uma história de bullying, no meio de tantas outras, não fosse por uma questão: a criança era Jean Wyllys.  O ex-deputado federal autoexilado narrou, em Portugal, esse episódio da sua infância, no nordeste do Brasil. Entre as muitas histórias proferidas, observa-se que Jean Wyllys torna-se um gigante quando fala; ao refletir sobre a força das suas palavras, da sua inteligência e da sua coragem, prefiro pensá-lo como um Davi.

Foram muitas as violências reservadas para Jean ao longo de sua vida. Assim como foram muitas as batalhas. O pequeno Davi, na luta contra Golias, materializou-se na contemporaneidade, numa guerra contra a intolerância, a homofobia, o racismo, a misoginia, a xenofobia e o ódio de classe disseminado pela extrema direita no poder.

 

UM INTELECTUAL ORGÂNICO 

 Eu tive a oportunidade de escutar Jean Wyllys, em Lisboa, em duas ocasiões. A primeira, na Fundação José Saramago, no lançamento do livro de Milton Hatoum, A noite da espera – coincidentemente, uma obra sobre ditadura e exílio. A segunda, na Casa do Alentejo, onde Jean proferiu a palestra Por que se exilar do Brasil, hoje? Nesse evento, o ativista e escritor esteve ao lado da jornalista Pilar Del Río e do sociólogo Boaventura de Sousa Santos, em uma conferência emblemática, emocionante e muito instigadora. Concretamente, o reconhecimento que Jean Wyllys possui da comunidade acadêmica, literária, política e dos movimentos sociais internacionais é infinitamente maior do que qualquer investida conservadora contra ele.

Jean se autodefine, na perspectiva de Antônio Gramsci (1891-1937), como um intelectual orgânico. Sem estabelecer níveis de comparação, mas pensando em proximidades, Gramsci, assim como Jean, era jornalista e transitava no mundo da literatura. O seu legado político e intelectual sobre a organização da cultura, da política, da ideologia e da sociedade conferiu ao pensamento marxista um novo fôlego interpretativo. Enquanto parlamentar, Gramsci foi preso e escreveu o conjunto mais importante de sua obra no cárcere. Para o escritor italiano, os intelectuais desempenham papéis específicos dentro da sociedade, e podem tanto trabalhar para a manutenção do sistema de classes e do poder dominante, quanto lutar pela justiça e pela igualdade social sob a via da transformação social.  Jean, escolheu seguir a segunda opção, Gramsci, também. O primeiro, preferiu o autoexílio, o segundo, foi preso em 1926 pelo governo de Benito Mussolini (1883-1945), e morreu pouco tempo depois de ser liberto, aos 46 anos de idade.

Para Gramsci, todos os intelectuais e políticos são ideólogos de algum pensamento, religião, partido, filosofia e idiossincrasia, independentemente se de esquerda ou de direita, e todos, indubitavelmente, estão inseridos em estruturas ideológicas da sociedade, vez que disputam, incontestavelmente, a sua hegemonia. Confirmado pelo escritor, todos os homens são filósofos, pois possuem uma leitura de mundo; muitas vezes, calcadas e apreendidas no senso comum e na filosofia vulgar, enquanto, por outro lado, alguns transitam no bom senso, naquilo que Marx chamaria de consciência para si e, Gramsci, de filosofia do conhecimento.

As categorias de Gramsci, como bom senso versus senso comum e vulgaridade versus conhecimento, explicam, também, o triste e lamentável episódio protagonizado pela embaixadora brasileira na Organização das Nações Unidas (ONU), Maria Nazareth Farani Azevêdo, em reunião da Comissão de Direitos Humanos, em Genebra, na qual se pronunciou contra o ex-parlamentar autoexilado. Lelé, como é conhecida a embaixadora, possui um histórico de condutas públicas controversas na representação do governo brasileiro junto aos organismos internacionais,  enquanto Jean Wyllys, por outro lado,  é reconhecido por sua luta em defesa dos direitos humanos, por sua conduta ilibada, pelos prêmios jornalísticos e parlamentares e por sua produtividade legislativa no Congresso Nacional.

 

SE ME DEIXAM FALAR

 Há tempos, li um livro intiulado Se me deixam falar, de Moema Wiezzer. A socióloga brasileira publicou o testemunho da boliviana Domitila Barrios de Chungara na I Conferência Mundial da Mulher, no México, em 1975, por ocasião, período da celebração do Ano Internacional da Mulher. O depoimento de Domitila expressa a história de uma mulher que se apropriou do processo histórico em que estava inserida, e tornou-se uma militante contra o trabalho precário, a ditadura e a opressão, ao denunciar, ao mundo, as condições indignas de trabalho e de vida as quais estavam submetidos os mineradores bolivianos.

Ao ouvir o testemunho de Jean Wyllys, me lembrei, saudosamente, desse livro, pois se deixam Jean falar, ele cresce e incomoda. Por isso, muitas foram as formas de violências usadas contra ele. Ao incomodar, ele desestabiliza o status quo da cultura política brasileira, formada por redes de amizades e clientelismos, fisiologismos, racialismos e sexismos estruturantes de um patriarcado violento, que tenta se manter no poder.

O menino pobre e franzino do interior da Bahia, vendedor de algodão doce, estudante de escola e universidade pública, tornou-se uma personalidade pública reconhecida mundialmente. Um ser humano curioso e atento, que lê o mundo com os olhos de alguém que sobreviveu à violência, à pobreza, ao preconceito e ao racismo.

Além de ativista, Jean tornou-se intelectual. Um letrado muito além da pronuncia correta do português, pois que intelectual engajado na transformação do mundo em que vive. Como homossexual, tornou-se, também, militante na defesa das comunidades LGBT. Um homem, uma causa e a defesa intransigente dos direitos humanos.

A voz de Jean pelo mundo ecoa-se, implacavelmente, como antifascista. E como cantou Itamar Assumpção: “Um homem com uma dor é muito mais elegante”.  Por isso, toda a violência executada contra Jean Wyllys, contra as Domitilas, contra as Marielles, contra as Márcias, contra os Moas, contra os Lulas, contra os Chicos, contra as Marias, será sempre uma violência denunciada em escala mundial.

Ada Colau, feminista, ativista e prefeita de Barcelona, por conta do aniversário do assassinato da vereadora Marielle Franco, emitiu um recado pelo Instagram para o presidente Jair Bolsonaro: “Marielle somos todas” e “Marielle vai te tirar do poder”.  Marielle, assassinada cruelmente pelas milícias do Rio do Janeiro, tornou-se a força e a voz da coletividade contra a violência e o autoritarismo defendidos pelos donos do poder no Brasil. E não foi a única ativista política a morrer por defender uma causa na história republicana brasileira. Muitos indígenas, agricultores sem-terra, sindicalistas, ambientalistas e religiosos morreram e continuam a morrer ao denunciar a violência e a lutar por justiça social.

Marielle tornou-se o elo responsável por unir as forças democráticas contra a opressão de um governo ditatorial, sem legitimidade e algoz dos direitos humanos. Jean Wyllys, ao escolher se manter vivo, tornou-se um dos protagonistas dessa articulação em âmbito internacional. A nossa voz é enunciada por ele, mesmo que alguns não queiram ouvir.

 

Giane Maria de Souza é  Historiadora, mestre em Educação pela UNICAMP. Doutoranda  em História Cultural pela UFSC – Linha  Sociedade, Política e Cultura no Mundo Contemporâneo. Bolsista – Capes no Programa de Doutorado Sanduíche no Exterior – Investigadora Convidada no Instituto Universitário de Lisboa (ISCTE-IUL). É autora do livro A cidade onde se trabalha – a propagação do autoritarismo estadonovista em Joinville/SC pela Editora Maria do Cais, 2008.



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