Lições de uma tragédia - Le Monde Diplomatique

CHILE, 30 ANOS

Lições de uma tragédia

por Dominique Vidal
1 de setembro de 2003
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As indispensáveis reformas de estrutura não exigem só o consenso das forças de esquerda, mas a cooperação de outras forças populares. Eis a lição do 11 de setembro chileno, mas ainda não explorada em lugar algumDominique Vidal

O Chile no coração. Na França, como em outros países, não se passou um dia, nos meses que se seguiram ao golpe do general Augusto Pinochet, sem que se fizesse ouvir a raiva do “povo de esquerda” europeu durante uma manifestação, um comício ou um concerto do “sortudo” grupo Quilapayún1.

Essa onda de solidariedade é uma resposta à barbárie da soldadesca. As notícias de Santiago eram de arrepiar: dezenas de milhares de militantes de esquerda detidos no Estádio Nacional, os dedos do compositor e cantor Victor Jara decepados a machadadas (“E agora, toca teu violão!”), boatos de tortura e assassinatos em massa, a agonia de Pablo Neruda em sua casa, saqueada…

O símbolo da Unidade Popular

Mas a emoção também tem relação com o símbolo em que se tornou a Unidade Popular para milhões de cidadãos europeus. Dois anos antes da vitória de Salvador Allende, em 1968, despertava no Velho Continente o ideal do socialismo, apesar do golpe de misericórdia – em Praga – em sua caricatura da Europa Oriental. Houve quem deduzisse dos acontecimentos a necessidade de uma “revolução”, enquanto, para outros, se tratava de buscar uma “via pacífica”, para a qual, na França, pensaram ver os primeiros indícios na assinatura do “programa comum”, em junho de 1972.

“Continuem e saibam que logo se abrirão as grandes avenidas por onde avançará o homem digno para construir uma sociedade melhor”: as últimas palavras de Allende

Portanto, em 1973, comunistas e socialistas apostam suas esperanças no desafio chileno e os debates políticos em Santiago entrelaçavam-se com os seus. “Se existe uma lição a tirar da experiência do Chile que seja válida para todos os países”, resumia, por exemplo, um livro comunista publicado naquela época, “ela é, sem dúvida, a que levou a esta concepção de unidade das forças populares2“.

Abrir as grandes avenidas

Resumindo, o assalto ao Palácio La Moneda na manhã de 11 de setembro parece esmagar a própria idéia de “via pacífica” para o socialismo. “Continuem e saibam que logo se abrirão as grandes avenidas por onde avançará o homem digno para construir uma sociedade melhor”: as últimas palavras de Allende, transmitidas por rádio e televisão, são ainda mais comoventes porque parecem remeter a um futuro longínquo. Na realidade, o recurso da grande burguesia ao exército, com o apoio dos Estados Unidos, só ocorreu porque a Unidade Popular estava no poder.

Se o Partido Comunista Francês tenta escamotear o golpe e insiste – de repente – nas diferenças entre Santiago e Paris, seu colega italiano vai às raízes do drama, através de uma série de três artigos do secretário-geral, Enrico Berlinguer3.

A verdadeira pista

A “via democrática” se deixou atolar nas areias da social-democracia. Mas a verdadeira pista, sugerida por Enrico Berlinguer, não foi explorada em lugar algum

A autocrítica do dirigente italiano refere-se à subestimação – decorrente da “distensão” entre a União Soviética e os Estados Unidos – da capacidade “do imperialismo e das forças reacionárias de inúmeros países” de “conter a luta pela emancipação dos povos”. Um motivo a mais para uma conscientização: “Uma profunda transformação da sociedade pela via democrática (…) só é possível, na Itália, sob a forma de uma revolução da grande maioria da população”. As indispensáveis reformas de estrutura não só exigem o consenso das forças de esquerda, que conseguiriam “51% dos votos”, mas também “a cooperação entre as forças populares de inspiração comunista e socialista e as forças populares de inspiração cristã”.

Seria o caso, 30 anos depois, de se jogar o bebê – o famoso “compromisso histórico” – com a água suja dos conchavos entre comunistas e democrata-cristãos, aos quais aquele se resumiu, por algum tempo, na Itália? O socialismo burocrático vive seus últimos estertores pelo mundo afora e nenhuma “minoria ativista” conseguiu uma revolução duradoura. Quanto à “via democrática”, ela se deixou atolar nas areias da social-democracia. Mas a verdadeira pista, sugerida por Enrico Berlinguer, não foi explorada em lugar algum…

(Trad.: Jô Amado)

1 – Eduardo Carrasco e seus companheiros do grupo apresentaram-se na festa do jornal L?Humanité, nos dias 8 e 9 de setembro de 1973. Quis o acaso que, ao contrário do previsto, não tomassem o avião que os levaria a Santiago…

2 – Ler, de Antoine Acquaviva, Georges Fournial, Pierre Gilhodès e Jean Marcelin, Chi

Dominique Vidal é especialista em Oriente Médio e membro sênior da equipe editorial de Le Monde Diplomatique (França).



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