RIQUEZA CULTURAL, HISTÓRICA E HUMANA

Literatura e o novo “ciclo” cultural no vale do Jequitinhonha

Com o lançamento da antologia Rio de Palavras II, região vivencia ciclo de vinte anos voltado ao fortalecimento das letras e da identidade regional 

Seca, fome e êxodo. Entre as décadas de 1960 e 1980, era este o cenário do Vale do Jequitinhonha. Esse estereótipo social popularizou-se sob uma alcunha nada agradável para quem pertence à região: o lugar era sistematicamente rotulado como o “Vale da Miséria”. A força dos indicadores socioeconômicos, por vezes, servia como um filtro que impedia o país de enxergar outras dimensões importantes daquela realidade, como sua riqueza cultural, histórica e humana. 

Nesse contexto, em que a cultura insistiu em emergir das dificuldades e do improvável, surgiram o Festival da Cultura Popular do Vale do Jequitinhonha (FESTIVALE), que funciona como uma vitrine viva da diversidade regional, e o Jornal Geraes, que se consolidou como um folhetim de reflexão crítica centrado na arte. Ambos foram importantes instrumentos de resistência. Esse esforço conjunto permitiu que a percepção externa sobre a região fosse alterada de “Vale da Miséria” para “Vale da Cultura”. 

A efervescência cultural e a sucessão de ciclos 

De acordo com o produtor cultural e escritor Tadeu Martins Soares, o Vale do Jequitinhonha vive uma efervescência cultural manifestada em ciclos de vinte anos, tendo diferentes expressões artísticas assumindo o protagonismo em períodos distintos. Soares, que é um dos idealizadores do Geraes e do FESTIVALE, acredita que, historicamente, o artesanato predominou entre as décadas de 1960 e 1980. Seguiu-se a era da música, entre 1980 e 2000, e a proeminência do teatro, entre 2000 e 2020. Para ele, a década em curso e a subsequente marcam, definitivamente, o tempo da literatura. 

E, diante das movimentações literárias no Vale, o período parece ser, de fato, de efervescência. Ao que parece, não se trata de um surto criativo isolado, mas de um movimento estruturado e sustentado pelo surgimento de agremiações literárias, como o Coletivo dos Escritores e Poetas do Vale e a Academia Regional de Letras do Vale do Jequitinhonha (ALVA). Nesse contexto de ebulição cultural, em que o momento registra um número expressivo de autores e publicações regionais, o lançamento da antologia Rio de Palavras II confirma a tese defendida por Soares. 

Vozes do Jequitinhonha: a reunião de escritores e poetas em nova antologia 

É neste solo fértil que surge Rio de Palavras, livro organizado por Jô Pinto e publicado pela Arejo Editorial. Em seu segundo volume, a antologia estabelece um diálogo direto com as obras Jequitinhonha: Antologia Poética I e II, publicações históricas da década de 1980, trazendo, no entanto, elementos da contemporaneidade nos textos autorais. A capa, assinada pelo artista plástico Antônio Carmona, sintetiza essa união ao reunir elementos simbólicos como o Rio Jequitinhonha e a paisagem montanhosa. 

Crédito: Divulgação

O livro reúne 36 autores de 23 municípios diferentes, totalizando 196 páginas de textos inéditos que navegam por temas universais sob a ótica do pertencimento regional. Os textos trazem impregnado o sentimento de “ser valino” em sua forma mais sui generis. 

De acordo com o organizador Jô Pinto, “a obra celebra a pluralidade de estilos, temas e experiências que compõem o mosaico humano do Vale. São versos que nascem da terra vermelha, da água do Jequitinhonha, do cheiro de café coado e da saudade que mora nas esquinas das cidades pequenas. São prosas que caminham entre o real e o imaginário, entre o sertão e o mundo, entre o ontem e o agora”. 

Para Márcio Simeone, professor do Departamento de Comunicação Social da Universidade Federal de Minas Gerais, a diversidade de temas e estilos do livro é reunida na imagem do rio, elemento central do imaginário cultural. Segundo ele, o espaço literário é aberto e acolhedor, articulando perspectivas individuais e coletivas em um fluxo contínuo que interliga diferentes lugares, das serras ao mar e das aldeias a contextos mais amplos. 

O lançamento oficial da Antologia está previsto para ocorrer em Itinga, no Médio Jequitinhonha, durante o 13º Encontro de Poetas e Escritores do Vale, consolidando este novo e promissor ciclo para a literatura regional. 

 

Mauro Sílvio Pereira é doutorando em Bens Culturais e Projetos Sociais FGV/Rio. 

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