Lula-Alckmin: quando os divergentes se unem para derrotar o antagônico

DEUS, PÁTRIA E FAMÍLIA

Lula-Alckmin: quando os divergentes se unem para derrotar o antagônico

por Paulo A. A. Balthazar, Thais P. Bittencourt e Ana Carolina Aguiar
17 de outubro de 2022
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Desde a redemocratização, Lula e PT defendem um Estado garantidor de direitos como saúde, educação e moradia, indutor do desenvolvimento, protetor do trabalho e do salário em oposição à agenda neoliberal nos anos 1990. Por sua vez, a partir de 1994, o PSDB se converte em condutor local da agenda neoliberal globalizada.

Luís Inácio Lula da Silva, metalúrgico, líder sindical, fundador da CUT e do Partido dos Trabalhadores; deputado constituinte em 1988; candidato a presidente derrotado em 1989, 1994 e 1998; presidente leito em 2002 e 2006. Líder de um projeto de resistência à ditadura militar nos anos 1980, e de oposição à agenda neoliberal nos anos 1990. Em 2018, se lança candidato à presidência em oposição ao golpe de 2016, mas é preso e sua candidatura vetada pelas cortes superiores. Em 2019 é libertado, e tem reconhecida tanto a falsidade das acusações como a ilegalidade das condenações. Para grande parte da opinião pública, Lula foi vítima de lawfare[2] e jornalismo de combate[3] para consolidar o golpe jurídico, midiático e parlamentar de 2016. Geraldo José Rodrigues Alckmin Filho, médico, vereador e prefeito em Pindamonhangaba/SP, deputado estadual e federal pela legenda MDB/PMDB nos anos 1980. Com a criação do PSDB é presidente do partido, depois vice-governador de São Paulo em 1994 e 1999 (em 2001, assumiu o governo com o afastamento de Covas). Em 2002 elegeu-se governador de São Paulo. Em 2006, foi candidato à presidência derrotado por Lula. De 2010 a 2018 foi mais duas vezes governador de São Paulo. Em março de 2022, filia-se ao Partido Socialista Brasileiro para compor a coligação Brasil da Esperança como candidato a vice-presidente na chapa Lula/Alckmin.

Desde a redemocratização, Lula e PT defendem um Estado garantidor de direitos como saúde, educação e moradia, indutor do desenvolvimento, protetor do trabalho e do salário em oposição à agenda neoliberal nos anos 1990. A partir de 2003, na presidência, vai implantar políticas desenvolvimentistas e distributivas com redução da pobreza, valorização do trabalho e do salário, acesso à direitos e proteção de identidades marginalizadas. Por sua vez, a partir de 1994, o PSDB se converte em condutor local da agenda neoliberal globalizada. E as legislaturas de Alckmin como deputado estadual e federal, e depois como governador de São Paulo até 2018, foram coerentes com as metas neoliberais de redução do Estado e privatização de bens e serviços públicos, entregues ao mercado globalizado e financeirizado.[5]

Em 2022, a coligação Brasil da Esperança, reúne sete partidos majoritariamente do campo progressista (PT, PSB, PCdoB, PV, PSOL, Rede e Solidariedade) na candidatura Lula/Alkmin: nomeação que sintetiza a aliança entre trajetórias pessoais e campos políticos opostos que hegemonizaram o debate dos anos 1990 até o golpe de 2016. Uma aliança viabilizada quando: “…os divergentes se unem para derrotar os antagônicos”.[6]

Para compreender o contexto atual e a política como prática antagônica e contingente recorremos à abordagem proposta por Ernesto Laclau,[7] quando diferenças ideológicas, identidades políticas e núcleos aparentemente irreconciliáveis são deslocados por um novo polo de poder: um fenômeno associado à crise de formações hegemônicas,[8] com instabilidades e rupturas nas cadeias de significação e nos regimes de autoridade, verdade e legitimidade que favorecem, por exemplo, fenômenos como o negacionismo.[9] E que produz também deslocamentos em clivagens como público e privado,[10] para recolocar em disputa  as democracias liberais tanto por projetos de avanço, como de descarte.[11] Com as noções de “antagonismo”, “conflito”, “demanda” e “hegemonia” a teoria do discurso de Laclau estrutura uma visão não normativa da política, centrada nas práticas e disputas ideológicas pelo sentido da ação, onde o debate se vincula a identidades e demandas estruturadas na própria prática político-discursiva.[12]  Uma situação amplificada com o uso de tecnologias cibernéticas que aceleram, integram  e alteram os fluxos de informação e formação das identidades sociais.[13]

Entendendo a campanha como momento chave para a construção da hegemonia,[14] selecionamos um corpus discursivo que envolve texto, contexto, fala e performance de um período iniciado com o lançamento da pré-candidatura em 7 de maio de 2022 e vai até a votação em primeiro turno, 30 de outubro de 2022. A seleção considerou formato e conteúdo do site oficial da campanha, o fluxo de mensagens dos grupos formados nas redes sociais: como no Telegram e Whatsapp e postagens do perfil oficial no Twitter e Instagram e no canal oficial do Youtube; discursos direcionados para segmentos e grupos sociais específicos: povos tradicionais, movimentos indígena e ambientalista, e empresariado da FIESP, por exemplo. E por fim, também colocamos esse corpus em diálogo com o discurso da campanha Lula em 2018.[15]

Alckmin e Lula, no lançamento das diretrizes do programa de governo, em São Paulo. (Foto: Ricardo Stuckert)

 

O diagnóstico da situação proposto pela candidatura Lula/Alkmin

O diagnóstico indica aquilo que a candidatura Lula/Alckmin considera existente no mundo: quais são os atores, processos e elementos ontológicos que ordenam o social e impactam as práticas políticas[16]. A partir do que o discurso entende como “problemas” levantamos as injustiças, entrando no plano ôntico que dá sentido e valor ao diagnosticado. O corpo discursivo apontou para quatro eixos: (eixo 1) fome, (eixo 2) ameaças à soberania e (eixo 3) desmonte institucional – atravessados por um quarto (eixo transversal) um país dividido pelo ódio associado à bolsonarização da política e da sociedade.

O primeiro eixo abrange as questões sociais e se organiza pela metáfora da fome: “Nós temos fome de alimentos, de educação, de direitos humanos, de água potável, de saneamento básico, de reforma agrária. Nós temos fome de democracia, fome de paz e fome de amor”[17]. A pesquisa mostrou que fome é a principal redundância discursivas da candidatura e elemento de maior apelo. Nesse sentido, percebe-se que a injustiça gira em torno da queda da qualidade de vida após o fim dos governos PT. Nos pratos cada vez mais vazios[18]; no desemprego e perda de direitos trabalhistas; na crescente violência; no descaso com a saúde pública e mortes pela Covid-19; na educação; desmonte e desvalorização da cultura: “Não é possível que o mundo seja capaz de produzir mais alimento do que o povo consome e, ao mesmo tempo, você tem quase 900 milhões de pessoas que vão dormir toda noite sem ter o que comer […] E quem vai resolver isso? Nós. Com partido forte, movimento social, sindicato forte. A gente não pode aceitar a ideia de que os milicianos vão resolver estes problemas. Não é só fome de comida, mas é fome de tudo o que eu falei que a gente precisa resolver para este país se transformar numa nação.”[19]

O segundo eixo de problemas são as ameaças à soberania como o desmatamento da Amazônia e descaso com as questões ambientais e climáticas, e agressões aos povos e direitos indígenas; privatizações de setores estratégicos; e desmoralização internacional do Brasil sintetizada na frase: “voltar a falar de igual para igual com os países mais ricos e poderosos”.[20] As injustiças recaem sobre o povo brasileiro e comunidade internacional, uma vez que os danos à Amazonia que “envergonha os brasileiros e coloca o Brasil na condição de vilão do meio ambiente, sob o risco cada vez eminente de sanções econômicas por parte da União Europeia” .[21] Além disso, desmontes e privatizações que geram “mais desemprego, mais reduções de salário, será mais trabalho intermitente e mais trabalhadores fazendo bico, porque não terão emprego seguro.” [22]

O terceiro eixo, desmonte institucional, se remete a um cenário de promoção do antipetismo, do golpe de 2016, da Lava Jato e prisão ilegal de Lula; do fatiamento da Petrobras, quebra das empreiteiras e destruição do emprego. E focaliza o desmonte institucional de políticas públicas e do Estado, com retrocessos socioeconômicos, corrupção e ausência de transparência na gestão pública; travessados por ameaças à democracia. Um país em crise, com anormalidade, insegurança e instabilidade permanentes: “vivemos no Brasil uma crise econômica, de credibilidade e de relações do governo com as instituições” [23]; “Bolsonaro ofende o STF, a Câmara, o Senado, a ONU, a OMS […]as únicas instituições que ele resposta sãos os filhos e os milicianos […]”[24]

E transversal aos demais, o eixo da bolsonarização associado à emergência do fascismo que que e catalisa a violência, a polarização e adota ódio e mentira como estratégias de governo, e promove empoderamento de milícias, acesso e porte de armas, indústria de Fake News e divisão nas famílias e espaços de sociabilidade: “o povo se vê refém de um governo perverso”[25] e “tenta sobreviver enquanto muitos morrem de covid, de fome, de tiro”[26] […] “Uma situação de desgovernança total, ou seja, você […]tem um governo da República que se preocupa todo dia em tentar criar uma polêmica na sociedade porque ele vive disso, […] de desrespeitar as instituições, desrespeitar as autoridades, desrespeitar a relação internacional, desrespeitar a lógica da ciência.”[27]

 

A solução do problema e a fronteira antagônica que delimita as identidades nós e eles

As redundâncias pelas quais a campanha Lula/Alkmin atua sobre o mundo e se projeta no futuro são reconstruir, retomar, recuperar, atualizando o passado e acionando a retrospectiva de quando tudo era melhor. “No meu tempo de governo o povo tinha orgulho de poder comprar picanha pro churrasco e hoje não consegue comprar meio quilo de carne moída”[28]. Como diagnóstico propõe: colocar o pobre no orçamento; prezar por uma política altiva e ativa; recuperar a normalidade democrática. E como eixo transversal propõe “livrar o Brasil da praga que é Bolsonaro”[29]. Nesse sentido, a proposta que unifica os sujeitos políticos em torno da candidatura é a desbolsonarização do país. A maioria das propostas são especulares às da campanha de 2018 (geração de emprego e salários; políticas sociais; crescimento econômico; um Brasil protagonista; fortalecimento da democracia)[30] – porém, não mais pautadas na resistência e luta, e sim na reconquista da paz, da união social e familiar, na prosperidade e no fim da polarização e do ódio (reduz a ênfase em conquistas materiais, e amplia o tom moral e emocional).

Com a promessa de se fazer mais e melhor o discurso Lula/Alkmin também reconhece novos sujeitos e agendas: “o pessoal vegetariano, que não come carne, poder comer uma boa salada orgânica, estimularmos uma agricultura mais saudável no nosso país.”[31]. Como em 2018, aposta na memória como principal ativo político[32], e as práticas discursivas articulam sujeitos e demandas em um nós que inclui tanto agricultura familiar como agronegócio; a prosperidade do trabalhador e o lucro dos empresários; as minorias ameaçadas pelo atual governo – indígenas, pretos, LGBTQIA+, mulheres e os evangélicos. Essa fronteira entre identidades antagônicas é explicitada no vídeo “Dois Lados – Que Brasil Você Quer? Lula 2022”,[33] dividido entre imagens do bolsonarismo e da campanha Lula/Alckmin. Assim, coerente com a composição Lula/Alkmin, percebe-se que a configuração do nós e do eles parte da ideia de juntar os divergentes para derrotar os antagônicos.

Assim, percebe-se que Bolsonaro e o bolsonarismo surgem como origem das injustiças. E a desbolsonarização como: pacificação do país dividido e reconstrução do país arrasado.

 

As estratégias discursivas: “como engajar eleitores”

Depois de considerar o diagnóstico e o prognóstico, cabe nos deter nas estratégias discursivas para motivação e conquista de apoiadores. As estratégias que compõem o marco motivacional da candidatura Lula-Alckmin podem se sintetizadas em: tons e repertório discursivo, reconstrução histórica, operações de substituição, uso de programa político, uso dos significantes flutuantes, estilos enunciativos, retórica, uso de temas tabu, e uso de mídias sociais.

O uso de diferentes tons discursivos varia em função da demanda ou proposta abordada. Em geral, Lula se expressa em linguagem que se faz entender pelo povo. Quando defende colocar o pobre no orçamento o repertório é ético, humanista e poderia se dizer: populista social. Por exemplo: “Nosso compromisso mais urgente é com quem está passando fome […] mas agora sofrem na fila de ossos e na fila do caminhão de lixo […] agora estou mais exigente: não quero só que as pessoas tomem café, almocem e jantem. Eu quero também que as pessoas tenham emprego, acesso a lazer. Que os aeroportos virem rodoviárias, cheios de pobres viajando […] o Brasil merece mais livros e mais amor: Esse país merece ser humanizado. O Brasil não precisa de ódio, precisa de amor, emprego e salário […] nossa arma é a esperança […] mais que governar, a gente quer cuidar do povo brasileiro.” Nessas práticas discursivas predominam tons emocionais, exemplares e esperançosos. O tom emocional, se remete a própria história, com a vivência da pobreza e da fome, para mostrar que entende a situação do povo trabalhador. Mas uma emoção que não desemboca em ódio ou impotência, mas se projeta na esperança de um amanhã melhor e em exemplos de superação a partir das políticas públicas criadas em seu governo Era possível ao filho de uma empregada doméstica virar doutor. Ou ao colocar que … nossa arma é a esperança. Mas não a esperança de que as coisas vão cair do céu. A esperança de quem trabalha e luta. O que remarca com um componente moral: o Brasil não precisa de ódio, precisa de amor, emprego e salário.

Um outro repertório progressista e social-democrata, institucionalista com tom de estadista, emerge com soluções visando recuperar uma política altiva e ativa e reconstruir o país. Ele defende o fortalecimento do Estado para superação da pobreza, geração de emprego, melhoria da saúde e educação, via políticas públicas: “…quando o Estado age, é possível levar política pública à sociedade brasileira, sobretudo aos mais pobres. E a soberania é articulada às demandas de justiça social: Soberania é garantir dignidade ao povo […] Este país só será soberano quando todos forem tratados com igualdade de condições e direitos”. E é a experiência que garante o respeito internacional: “Minha relação com o mundo é muito forte, por isso fui recebido na Alemanha pelo novo chanceler, fui recebido pelo Macron, pelo López Obrador, pelo Aníbal Fernandes […] enquanto nosso presidente não é recebido por ninguém, porque ninguém quer conversar com ele, só o pessoal de extrema direita, os fascistas que estão pelo mundo […] Serei o mandato que mais vai fazer acertos na questão climática”. Demandas que também se articulam ao terceiro eixo de reinstitucionalização democrática onde a experiência de gestão confere um tom institucionalista: eu e Alckmin já governamos […] no restabelecimento da democracia brasileira […] em devolver o Brasil ao povo trabalhadora, devolver o Brasil aos filhos do Brasil […] consertar o estrago que eles fizeram”.

No conjunto de demandas que sintetizam a solução principal: livrar o Brasil da praga que é Bolsonaro, o repertório continua progressista mas com tom moralista: no desrespeito às instituições democráticas;  no negacionismo da pandemia e no descaso com a vida; na indiferença com o sofrimento do povo; no descompromisso com o trabalho, salário e condições de vida do trabalhador; na defesa do armamentismo; nas relações com milicianos; na exploração do sectarismo religioso; no duplo critério de ter como bandeira a crítica à corrupção enquanto a corrupção marca seu governo; se apresentar como um guardião da soberania enquanto se submete aos interesses externos e poderes econômicos. É assim que as práticas discursivas da candidatura Lula/Alckmin reiteram que o Brasil piorou e que para livrar o Brasil dessa praga, é preciso: unir os divergentes para derrotar os antagônicos.

A estratégia discursiva de reconstrução histórica se apoia no passado recente. Falas como “as pessoas puderam comprar TV nova, geladeira nova. O povo podia comer carne. Esse é o Brasil que eu deixei quando sai do governo. Um Brasil que era motivo de orgulho no mundo[34] mostram esse apelo de resgate da memória. Se por um lado, essa estratégia já havia sido usada em 2018[35] – ganha nova eficácia depois do povo ter experimentado a combinação de inflação alta, crise econômica, Covid-19, reformas trabalhistas e previdenciária, e demais desmontes da proteção social.  Em meio à fome, experiencias já vividas ganham mais atrativo do que a “continuidade do atual governo ou das candidaturas de pessoas que só fazem promessas”.[36]

O uso de operações de substituição também está presente no discurso Lula/Alckmin. Por exemplo: à acusação retomada por Bolsonaro de que “depois de quebrar o Brasil, Lula quer voltar a cena do crime” foi respondida pelo candidato a vice que declarou: “Muitos foram enganados por um processo mentiroso e parcial contra Lula. Hoje sabemos a verdade. Agora, é a família Bolsonaro que precisa explicar a compra de 51 imóveis com dinheiro vivo”. Esse deslocamento do discurso, para tomar posse do tema e adequá-lo de modo favorável, é também exemplo de como é possível usar novos significados para requalificar e incorporar a chamada “terceira via”: “os adversários usam falas antigas do Geraldo Alckmin para confundir as pessoas, mas o momento é de unidade, pelo Brasil e pelo povo”[37], ou seja, o bolsonarismo é o mal maior a ser combatido, qualquer outra divergência é eclipsada para a pacificação do país, o que permite ampliar o nós, aglutinando demandas divergentes, ou mesmo antagônicas.

Provavelmente, por conta desse perfil discursivo aglutinador, a campanha optou pelo não uso de um programa político, e trabalhar com diretrizes amplas.[38] Mas, de forma geral, podemos identificar que as propostas giram em torno de cinco pontos: 1) Urgência no combate à fome e à pobreza; 2) Retomada do investimento público e privado com: Estado forte, fim do teto de gastos, investimento para geração de emprego; 3) Combate à inflação e redução do custo de vida, com fortalecimento da Petrobras, políticas de incentivo à agricultura, estoques reguladores com redução do preço dos alimentos e eliminação da fome; 4) Defesa da Amazônia, combate ao desmatamento, respeito às leis ambientais e proteção dos povos indígenas, enfrentamento das mudanças climáticas; 5) Democracia, justiça, paz, e reinserção soberana do Brasil no mundo.[39]

O discurso da campanha utiliza-se também da apropriação dos chamados significantes flutuantes, cujos sentidos são colocados em suspenso ou postos em disputa. Vemos isso, por exemplo, nas falas sobre empreendedorismo, para Lula, “o empreendedor não pode ser o cara da motocicleta que não tem direito, que não tem salário, que não tem patrão, o empreendedor pode ser um cara que tenha no Estado uma política de crédito que garante a ele o seu empreendimento”. Da mesma forma que “empreendedorismo” se convertem em significantes flutuantes: “pátria”, “soberania”, “corrupção”, “empresas estatais”, “forças armadas”, “segurança” e “liberdade”, onde o que vai denotar o sentido desses elementos serão as práticas articulatórias que os associam com outros termos da cadeia de equivalências com outros significantes presentes nos discursos de cada candidato, como vemos no diagrama abaixo:

Outra estratégia discursiva é o uso de estilos enunciativos. Historicamente, o estilo de Lula é popular, e repleto de episódios da vida pessoal, muitas vezes acionando o humor para explicar temas complexos e gerar proximidade (diferente do popular em Bolsonaro, que aciona o grotesco, o escatológico como estratégia de empatia, e o humor para ferir). Mas discurso sempre conflitivo e antagônico: quando questionado sobre o “eles” recorrente em suas falas, Lula argumenta que na política sempre existe um “nós” e um “eles” (e evita situar esse “eles” em algum grupo específico).[40] Nesse sentido, seu estilo enunciativo é conflitivo e antagônico em relação a Bolsonaro e ao bolsonarismo. No entanto, um antagonismo que traz contradições: aciona um discurso populista que constrói cadeias de equivalência entre demandas de diferentes grupos sociais, mas ao mesmo tempo um discurso institucional/administrativo que prioriza a reconstrução de institucionalidades consolidadas nos governos neoliberais. Essa dimensão rememorativa se articula com ao eixo transversal: a pacificação da sociedade polarizada com um tom ético/moral presente na oposição armas/livros, ódio/amor e na reaproximação das famílias divididas pela política, também presente em dimensões semióticas não linguísticas como tons azuis dominantes nas imagens e roupas utilizadas na campanha, ou na postura de Lula nos debates evitando o confronto direto e o humor irônico que marcam seu modo de polemizar.

O uso da retórica também constitui outra estratégia discursiva. O estilo retórico de Lula é metafórico, quando a fome passa a significar todas as carências e mazelas sociais geradas pelos fracassos do bolsonarismo. Mas ao mesmo tempo metonímico quando essas carências estabelecem vínculos de contiguidade e causalidade com mazelas do presente. O estilo metafórico se adequa à projeção de uma esperança emancipatória centrada na figura de Lula, que dá saltos semânticos e articula sentidos nem sempre compatíveis como, por exemplo, a retomada de obras de infraestrutura e do crescimento com a preservação ambiental e enfrentamento da questão climática. O estilo metonímico, por sua vez, é mais afeito aos eixos de reconstrução institucional e soberania, que se baseiam em relações lineares de continuidade e verbos como reconstruir, refazer, retomar, recuperar indicam que a reconstrução institucional prevalece sobre a transformação social.

Um tema tabu pode estar presente nas estratégias discursivas como um impedimento (um tema recalcado), ou estrategicamente abordado na busca de aderência de segmentos específicos. Alguns exemplos de temas presentes na sociedade, mas total ou parcialmente evitados: política de juros, emendas parlamentares, novas formas de representação como os mandatos coletivos, as privatizações quando não se referem à Petrobras, a regulação da mídia, a discussão sobre a maioridade penal, a descriminalização das drogas. Em contrapartida, alguns temas que já foram recalcados e passaram a ser acionados na campanha são, por exemplo: a taxação das grandes fortunas, as mudanças no mundo do trabalho (incluindo as mediadas pela digitalização), o aborto e demais temas religiosos que dialogam com os valores evangélicos.

Em relação ao uso das mídias sociais a campanha Lula/Alkmin representa um marco em direção ao pós-massivo, reconhecendo a diversidade de identidades aglutinadas em bolhas digitais. Nas campanhas Lula e Haddad em 2018, o ambiente digital funcionou como repositório de conteúdos elaborados para as mídias impressas e eletrônicas.[41] Em 2022, site oficial (https://lula.com.br/) e canal youtube (https://www.youtube.com/LulaOficial) se complementam como espaços de mobilização e articulação do ativismo online e offline, com grupos de discussão, publicação e distribuição de conteúdos segmentados para as diferentes redes sociais: Twitter / Facebook / Instagram / whatsapp / Telegram / Tiktok / Linkedin / Kwai, e opções de engajamento ajustadas aos parâmetros algorítmicos, sociais, perfilamento de usuários, discursivos, semióticos, retóricos, fluxos e padrões de emissão e recepção, frequência de impulsionamentos, etc., para oferecer a usuários/ativistas materiais para ações online e offline, descentralizadas e viralizáveis. Tudo isso replica e ressignifica o fenômeno nomeado por Cesarino como “corpo digital do rei”,[42] indicando um contexto alterado por condicionamentos, estruturais ou antiestruturais,[43] das mediações tecnológicas, onde diferentes perfis de emissores e receptores emergem: seguidores devotos de um político/influencer (como diagnosticado por Cesarino), ou atores mobilizados por múltiplos projetos e agendas públicas. E a memética tornou o humor ferramenta central da política, onde a publicação espontânea (mas também subterrânea) ganha relevo: a campanha Lula/Alkmin busca produzir estratégias digitais tendo o humor como eixo: como as “pack de figurinhas do Lula”, ou os espaços de publicações espontânea de apoiadores “lulaoke”, por exemplo.[44]

 

A modo de conclusão

O foco no passado e na defesa das instituições gera contradições com a discursividade populista que marca o estilo e a história de Lula, que confronta povo e elites, e propõe a incorporação de demandas excluídas pela arquitetura estatal institucionalizada. Como Lula/Alkmin apresentam um discurso institucionalista, de administração gerencial das demandas, fica aberto a Bolsonaro e à direita lugares antissistêmicos, como porta vozes de uma insatisfação traduzidas no: “Tem que mudar tudo isso que tá aí, talkei?”. Essa institucionalização também está na pacificação que atravessa a campanha tendo como centro a nomeação Lula/Alkmin: superação da polarização originária que potencializou o antipetismo, a demonização da esquerda e as perseguições e arbitrariedades da Lava Jato, que viabilizaram o golpe de 2016 e a ascensão de Bolsonaro e do bolsonarismo.

Mas o que marca essa campanha são: foco na rejeição do adversário, priorização de dimensões éticas e morais, secundarizarão de propostas, e arquitetura comunicacional voltada para a impulsividade. O modelo polarizador, que parece ser uma tendencia globalizada, favorece clivagens centradas em valores, e a emergência de ideologias fascistas em que o outro deve ser eliminado. Mas a principal alteração entre a campanha atual e a de Lula em 2018, pautada pelo antipetismo, gira em torno das experiências e a frustrações geradas por quatro anos de bolsonarismo, com a transição de um lugar de resistência e permanência que a campanha Lula/Haddad ocupava, para um lugar de mudança representado pela pacificação e conciliação nomeada pela aliança Lula/Alkmin –  aliança que também projeta uma incógnita, ao sugerir que estamos finalizando um ciclo histórico de quase 50 anos iniciado na redemocratização, quando todas as forças geradas na resistência à ditadura tiveram seu momento de realização: do MDB, ao “centrão” (ou “baixo clero”) que Bolsonaro integra, passando pelo PSDB e pelo PT.

No entanto, a coalizão pluralista representada por Lula/Alkmin opera sobre significantes que flutuam para recepcionar sentidos diferentes e até incompatíveis, como agronegócio e preservação ambiental; teto de gastos/juros da divida pública com ampliar recursos destinados às políticas sociais e “colocar o pobre no orçamento”. Além disso, a defesa das conquistas civilizatórias viabilizadas pelas democracias liberais, vinculadas ao discurso da campanha Lula/Alkmin que transforma adversários em aliados, e assim resitua o antagonismo em processos agonísticos, se de um lado aponta para uma superação da polarização que alimenta a extrema direita, por outro não responde demandas antisistêmicas relacionadas aos déficits e desgastes do ideário neoliberal hegemônico desde os anos 1980 e deixa aberto à extrema direita o lugar de “novo” ainda que represente o arcaico, e é significativo que ambos os discursos em conflito se reportem ao passado; um passado distante, repressivo e concentrador da ditadura militar, um passado recente, progressista e distributivo dos governos Lula e Dilma.

A campanha midiática da candidatura Lula/Alkmin, por sua vez, avança anos luz em relação à 2018: diversificação discursiva, padrões semióticos linguísticos e extralinguísticos, uso integrado de múltiplas arquiteturas algorítmicas, informação parametrizada para a diversidade de perfis dos receptores, com sua conversão em públicos mobilizados e engajado, reconhecimento de novos lugares e identidades mediadoras (YouTubers, Influenciadores, veganos, indígenas, quilombolas, povos pretos, etc.). Tudo isso, sem utilizar padrões operacionais ilegítimos e subterrâneos. Mas ao mesmo tempo, encontramos uma discursividade digital focada na polarização e rejeição do adversário – e quando projetos se tornam supérfluos o que desaparece é o futuro. Mas essa polarização tem uma história e o digital é atravessado por ela – quando algoritmos programados para acionar impulsos de consumo passam a ser direcionados para impulsionar o consumo de políticos, a política já havia se tornado um espetáculo de consumo, com suas obsolescências e trocas programadas. E passar do foco na rejeição ao foco na eliminação do adversário é um salto em direção ao fascismo, que nas redes digitais foi acelerado e encurtado para alguns passos, likes ou cliques.

Aqui na periferia, como no centro global, a transversalidade societária dos aptos a admitir o fascismo como virtude, externalidade ou dano colateral escancara que a questão também não é educacional – não nos termos atribuídos à educação como deficiência dos pobres, pela qual o próprio explorado se torna autor da sua exploração. A questão está no sentido político que cultura assume quando processos humanos não estão submetidos a disjuntivas como alta cultura e cultura popular, consumo e produção, tradição e criação, arte e ciência, emoção e razão, consciência e realidade, economia e ideologia, estrutura e superestrutura, público e privado – fronteiras que a própria arquitetura cibernética, como efeito estrutural ou antiestrutural, ressignifica. O desastre gerado pelo populismo de direita, amplificado pela transição cibernética, revela a política – seguindo Laclau – como prática social cotidiana, conflitual, discursiva, aberta à criatividade humana, mas também revela a coexistência de sua antítese: a eliminação do outro, o fascismo e a guerra.  Cabe entender porque as atuais democracias liberais tem reproduzido culturas e sujeitos políticos que rejeitam a democracia, e o que nesse modelo tem ocupado o lugar de substantivo a ser preservado, e de adjetivo passível de descarte.

Paulo A. A. Balthazar e Thais P. Bittencourt são doutorandos em Ciências Sociais na UFRRJ e Ana Carolina Aguiar é mestranda em Economia Política Internacional na UFRJ.

[2] O judiciário utilizado como arma de guerra

[3] Estudos sobre os meios de comunicação de massa nos últimos 20 anos revelaram um padrão de gestão da informação impulsionado pelo movimento Neocon dos EUA nos anos 1990. Esse modelo se estabelece no Brasil após os anos 2000, com a desconexão ostensiva entre fato e versão nos veículos impressos e eletrônicos, abrindo espaços para radicalizações reacionárias e ultraliberais como Trump e Bolsonaro (RIBEIRO e ORTELLADO, 2019)

[5] ao longo do texto, colocamos em itálico palavras ou significados tanto expressos pelos porta-vozes como sínteses achamos adequadas, em termos de significado, e que gostaríamos de destacar.

[6] 8:22 PM – 20 de julho de 2022 – Twitter Web App

[7] contingência onde: “es mucho más importante la diferencia contingencia-necesidad, que la noción de contingencia pura o de una necesidad pura; uno siempre se maneja, se mueve dentro de un contexto onde hay cosas posibles y otras que no son posibles, no hay ningún contenido que considerado en sí mismo tenga una necesidad a priori” (LACLAU, 2002)

[8]“crisis orgánica” en el sentido gramsciano, entonces lo que es posible de ser aceptado, en términos discursivos, es mucho más y el elemento de necesidad aparece en este momento desplazado (LACLAU, 2002)

[9] Sobre negacionismo ver: J. O. Romano (Org.), A Negação da Pandemia e os Anticorpos da Ciência: disputa política de discursos sobre a pandemia da Covid-19, ActionAid, Rio de Janeiro, 2021

[10] Ver: O fim da velha divisão? Público e privado na era da interne (Miguel, L. F. e Meireles, A. V. Tempo Social, revista de sociologia da USP, v. 33, n. 2 pgs.311 a 329, 2021

[11] Ver, por exemplo, o artigo “Democracia sob Ataque” (Sergio Amadeu, Le Monde Dilplomatique, Ed. 181 de agosto de 2022).

[12] “a menor unidade da qual partiremos corresponde à categoria de “demanda social”. Conforme assinalei em outra oportunidade, em inglês o conceito de demanda (demand) é ambíguo, pode significar uma solicitação, mas também pode significar uma exigência. Uma demanda que, satisfeita ou não, permanece isolada, será denominada por nós uma demanda democrática. Uma pluralidade de demandas que, através de sua articulação de equivalências, constitui uma subjetividade social mais ampla, serão denominadas demandas populares.” (Laclau, E., A Razão Populista, Três Estrelas, S. Paulo, 2013, págs. 123 e 124)

[13] Sobre a atual dimensão cibernética da luta política ver: CESARINO, L. Como vencer uma eleição sem sair de casa: a ascensão do populismo digital no Brasil, Internet & Sociedade n.1/ v.1, fevereiro, págs. 91-120

[14] Verón, E. La palabra adversativa. En AA.VV., El Discurso Político, lenguaje y acontecimientos (pp. 13-26). Buenos Aires: Hachette, 1987.

[15] J. O. Romano (Org.), Paixão e razão: Os discursos políticos na disputa eleitoral de 2018, São Paulo: Veneta, 2018

[16] Balsa, 2017

[17] https://lula.com.br/lula-acabar-com-esse-mal-desgracado-da-fome-tem-de-ser-prioridade/

[18] https://lula.com.br/volta-da-fome-esta-associada-a-ma-gestao-da-economia-e-da-pandemia-pelo-governo-bolsonaro/

[19] https://lula.com.br/lula-acabar-com-esse-mal-desgracado-da-fome-tem-de-ser-prioridade/

[20] https://lula.com.br/leia-a-integra-do-discurso-de-lula-no-lancamento-do-movimento-vamos-juntos-pelo-brasil/

[21] https://lula.com.br/brasil-segue-batendo-recorde-de-desmatamento-e-corre-risco-de-sofrer-sancoes-da-uniao-europeia/

[22] https://lula.com.br/lula-defende-patrimonio-publico-e-diz-que-privatizacao-resultara-em-mais-desemprego/

[23] https://twitter.com/LulaOficial/status/1556999192865800199?s=20&t=q1eNo-BYifU56Ly0QxM1SQ

[24] https://twitter.com/LulaOficial/status/1260382355530940419?s=20&t=q1eNo-BYifU56Ly0QxM1SQ

[25] https://lula.com.br/lula-amazonia-e-do-povo-brasileiro-e-nao-refem-das-perversoes-desse-governo/

[26] https://twitter.com/LulaOficial/status/1546840884737724416?s=20&t=_dTIMYbn1AFi-yJ4C32xMA

[27] https://lula.com.br/leia-a-integra-da-entrevista-coletiva-de-lula-com-youtubers-e-midia-alternativa/

[28] https://twitter.com/LulaOficial/status/1203700287418093570?s=20&t=e88NutBLoLWLIqLXm7bs-w

[29]https://www.em.com.br/app/noticia/politica/2022/06/17/interna_politica,1374173/lula-diz-que-bolsonaro-e-uma-praga-temos-que-nos-livrar.shtml

[30] https://diplomatique.org.br/wp-content/uploads/2019/03/livropaixaoerazao.pdf

[31] https://twitter.com/LulaOficial/status/1494331706932793352?s=20&t=e88NutBLoLWLIqLXm7bs-w

[32] https://diplomatique.org.br/wp-content/uploads/2019/03/livropaixaoerazao.pdf

[33] Vídeo de campanha questiona “Qual Brasil você quer?”, disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=M8IAxydEJl4

 

[34] Em Debate na Globo, 29/09/22. Encaminhada no grupo do Telegram Canal do Lula às 23:11.

[35] Idem nota 15, pág. 36

[36] https://twitter.com/LulaOficial/status/1575820383130832899?s=20&t=LnMvfLY0Ja3fWz6KHQF4hw e filme de Diego Lisboa que busca retratar a vida daqueles que nos governos PT https://www.youtube.com/watch?v=HtdoNI3hCvQ&ab_channel=Lula

[37] https://twitter.com/LulaOficial/status/1568244080752066562?s=20&t=UQEihq2VDuXYs-JXkzUClg

[38] https://www.correiobraziliense.com.br/politica/2022/09/5039694-pt-esconde-plano-final-de-governo-lula-diz-que-nao-precisa-fazer-promessas.html

[39] https://lula.com.br/diretrizes-do-programa-lula-alckmin-destacam-combate-a-fome-defesa-da-amazonia-retomada-do-desenvolvimento-e-democracia/

[40] Idem nota 15, págs. 36 a 39

[41] Idem nota 9 págs. 36 a 39

[42]  Cesarino, L., Rev. antropol. (São Paulo, Online) | v. 62 n. 3: 530-557 | USP, 2019

[43] Cesarino, L., Caderno CRH, Salvador, v. 34, p. 1-18, e021022, 2021

[44] https://lula.com.br/?s=figurinhas e https://lula.com.br/lulaoke/



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