Lula vence mais em cidades com alto índice de participação partidário-eleitoral
Pesquisa do Observatório Participa (OPar) aponta ainda que votação em Lula teve maior crescimento no segundo turno em cidades do Sudeste e Centro-Oeste com baixa participação
No segundo turno de 2026, Lula venceu em cerca de 63% dos municípios com alto índice de participação partidário-eleitoral e em 40% daqueles com baixa participação. Foi neste último grupo, porém, que ele conquistou mais novas vitórias e obteve maior ganho relativo de votos sobre Flávio Bolsonaro. Nos municípios com alta participação, Lula reverteu o resultado em apenas 54 cidades onde Flávio havia vencido no primeiro turno. Já entre aqueles com baixa participação, nos quais Flávio havia conquistado mais vitórias na primeira rodada, Lula virou o resultado em 156 cidades.
A participação partidário-eleitoral é medida pelo índice de participação partidário-eleitoral, o IPar eleitoral municipal, criado pelo Observatório Participa (OPar), do INCT Participa. O índice agrega numa única medida três informações: a) a variação da filiação partidária entre eleições, b) o comparecimento às urnas e c) o alistamento eleitoral não obrigatório de jovens de 16 e 17 anos. Reunidas em uma escala de 0 a 100, elas permitem comparar os municípios pelo nível de participação partidário-eleitoral.
Para analisar a relação entre participação partidário-eleitoral e os resultados eleitorais de 2026 nos dois turnos, mantivemos os mesmos 5.542 municípios considerados no primeiro turno e sua divisão original em dois grupos com o mesmo número de cidades, segundo o IPar daquele turno. Os 2.771 municípios com os maiores valores do índice compõem a faixa de IPar alto, e os demais 2.771, a de IPar baixo. O ponto de corte entre os grupos é de 39,26 no índice.

No primeiro turno, no grupo de IPar alto, Lula liderou em 1.704 municípios, ou 61,5%, e Flávio Bolsonaro em 1.067, equivalentes a 38,5%. Lula recebeu 23,23 milhões de votos, e Flávio Bolsonaro, 18 milhões, neste grupo. Nos municípios de IPar baixo, Flávio ficou à frente em 1.817, ou 65,6%, enquanto Lula liderou em 954, correspondentes a 34,4%. Flávio somou 36,97 milhões de votos, contra 29,78 milhões de Lula.
O IPar do primeiro turno foi o ponto de partida para examinar o comparecimento no segundo e o ganho de votos de Lula entre os turnos. Esse cruzamento permite distinguir os níveis de participação partidário-eleitoral associados a cada candidato nas diferentes regiões do país no primeiro turno e a intensidade das mudanças ocorridas nos resultados municipais em cada faixa do índice e região. O Gráfico 1 apresenta as medidas de comparecimento e de crescimento eleitoral de Lula nos municípios no segundo turno, conforme sua classificação no grupo IPar alto e IPar baixo.
Gráfico 1. Comparecimento e avanço de Lula segundo o IPar do primeiro turno

O painel A apresenta a média municipal do percentual de eleitores aptos que compareceram às urnas em cada turno. O painel B mostra o quanto esse comparecimento aumentou entre os turnos, em pontos percentuais. O painel C apresenta o crescimento percentual dos votos de Lula de duas formas: pela média das taxas de crescimento de cada município, atribuindo o mesmo peso a todas as cidades; e pelo crescimento do total de votos recebidos pelo candidato em cada faixa do IPar. Por fim, o painel D mostra o aumento médio, em pontos percentuais, da participação de Lula no total de votos recebidos pelos dois candidatos, Lula e Flávio Bolsonaro.
Conforme mostra o painel A, o comparecimento médio municipal passou de 82,11% para 82,84% nas cidades de IPar alto, aumento de 0,73 ponto percentual. Nas de IPar baixo, passou de 76,43% para 78,35%, aumento de 1,92 ponto percentual. Em números absolutos, o total de eleitores que compareceram passou de 46.013.893 para 46.609.127 no primeiro grupo e de 76.948.030 para 79.235.289 no segundo, aumentos de 595.234 e 2.287.259, respectivamente. Embora o grupo de municípios com IPar alto tenha mantido o comparecimento mais elevado, destaca-se que aquele com IPar baixo obteve maior crescimento. Isso aparece também de modo claro na frequência das cidades, uma vez que o comparecimento cresceu em 1999 das 2771 cidades de IPar alto e em 2422 das 2771 de IPar baixo.
O Mapa 1 relaciona o IPar do primeiro turno ao comparecimento eleitoral no segundo. Para visualizar essa distribuição, os municípios foram divididos em dois grupos de igual tamanho, usando como referência a mediana do comparecimento: 80,93% dos eleitores aptos. Entre as cidades com IPar alto, 2.030 (73,3%) ficaram acima desse patamar; entre aquelas com IPar baixo, foram 741 (26,7%). Enquanto o mapa apresenta o nível de comparecimento no segundo turno, o Gráfico 1 mostra também quanto ele aumentou entre os turnos em cada faixa do IPar.
Mapa 1. IPar do primeiro turno e comparecimento no segundo turno. Azul indica comparecimento acima da mediana de 80,93% dos aptos e ocre, até esse valor. Tons escuros representam IPar alto e tons claros, IPar baixo. O mapa representa o nível no segundo turno, não a mudança entre os turnos

A combinação de IPar alto e comparecimento acima da mediana reúne 58,6% das cidades do Nordeste e 57,5% das do Sul. No Sudeste e no Centro-Oeste, predominam cidades de IPar baixo e comparecimento até a mediana, com 60,3% e 71,1%, respectivamente. No Norte, a combinação mais frequente é IPar alto e comparecimento até a mediana, presente em 49,4% das cidades. Note-se que, embora o Mapa 1 não identifique os candidatos votados, ele oferece uma imagem que corresponde à geografia da distribuição do voto. As duas regiões que concentram engajamento partidário-eleitoral e comparecimento altos correspondem ao Nordeste e ao Sul, que também se destacam pelo desempenho dos candidatos. Lula obteve sua maior proporção regional de votos válidos no Nordeste, com 69,4%, e Flávio no Sul, com 62,6%. Além da classificação dos municípios nas 4 categorias feitas pelo Gráfico 2, também é possível identificar que a relação entre elas persiste mesmo quando os municípios não são agrupados em duas faixas de IPar e de comparecimento. Ou seja, quanto maior o IPar, maior tende a ser o comparecimento no segundo turno. No entanto, a interpretação dessa associação exige cautela pois o IPar inicial já incorpora o comparecimento do primeiro turno.
O maior aumento do comparecimento no grupo de IPar baixo também não identifica a origem dos novos votos de Lula. Nas comparações eleitorais, seu crescimento proporcional foi maior nessa faixa, mas ele terminou vencendo numa proporção maior de cidades de IPar alto. A contagem de vitórias mostra a diferença entre o desempenho final e o avanço entre os turnos.
Lula ampliou o número de vitórias nas duas faixas do IPar. Nos municípios com participação partidário-eleitoral alta, passou de 1704 para 1758 cidades, enquanto Flávio recuou de 1067 para 1013. Nas cidades com participação baixa, Lula passou de 954 para 1109 vitórias e Flávio, de 1817 para 1661. O saldo de novas cidades vencidas por Lula foi, portanto, maior na faixa daquelas com baixa participação partidário-eleitoral da população (155 contra 54 naquelas de alta participação). Mesmo perdendo municípios, Flávio continuou à frente em aproximadamente 60% das cidades de IPar baixo (contra 65,6% no primeiro turno), diante de 37% de IPar alto. Lula aumentou sua presença onde tinha menos vitórias.
Gráfico 2. Municípios vencidos por Lula e Flávio nos dois turnos. Cada barra reúne as mesmas 2.771 cidades de uma faixa do IPar. O segundo turno teve um empate na faixa de IPar baixo. A contagem de cidades não considera o tamanho de seus eleitorados

O Mapa 2 mostra onde Lula mais avançou na disputa com Flávio. Para medir esse ganho relativo, calculamos, em cada turno, a participação de Lula no total de votos recebidos pelos dois candidatos. Se essa participação passa de 55% para 58%, por exemplo, o ganho é de três pontos percentuais. Os votos nas demais candidaturas do primeiro turno ficam fora do cálculo para garantir a mesma base de comparação entre os turnos. O ganho médio foi de 2,74 pontos percentuais nos municípios com baixa participação partidário-eleitoral e de 1,95 ponto naqueles com alta participação. O mapa combina essas duas faixas do IPar com a divisão dos municípios em dois grupos de igual tamanho: aqueles em que o ganho de Lula foi de até 2,37 pontos percentuais, valor da mediana, e aqueles em que ficou acima desse patamar.
Mapa 2. IPar e ganho relativo de Lula. Roxo indica ganho acima de 2,37 pontos percentuais e ocre, ganho até esse valor, incluindo reduções. Os tons escuros indicam IPar alto e os tons claros, IPar baixo. O ganho considera apenas os votos dos dois candidatos que foram ao segundo turno

No Nordeste, 61,3% das cidades combinam IPar alto e ganho até 2,37 pontos. No Sudeste, 60,9% combinam IPar baixo e ganho acima daquele valor. Esse segundo cenário engloba 538 das 644 cidades de São Paulo e 72 das 92 do Rio de Janeiro. Ou seja, Lula teve alta votação em muitas cidades do Nordeste, mas conquistou mais espaço entre os turnos em grande parte do Sudeste, em municípios com IPar baixo. No Sul, os ganhos acima desse patamar ocorrem tanto em municípios com IPar alto (32,7% das cidades da região) quanto naqueles com IPar baixo (30,2%). Entre os estados dessa região, Santa Catarina se destaca pela associação mais forte entre IPar baixo e maior ganho de Lula, com 69 dos 72 municípios de IPar baixo registrando ganho de Lula acima da mediana nacional. No Centro-Oeste, 53,7% das cidades combinam IPar baixo e ganho de Lula acima de 2,37 pontos percentuais. Essa proporção chega a 69,6% em Mato Grosso do Sul e a 53,7% em Goiás. No Norte, a combinação mais frequente reúne IPar alto e ganho de até 2,37 pontos, presente em 43,2% dos municípios. A tendência de ganhos maiores nas cidades com IPar baixo aparece, sobretudo, no Acre, no Amazonas e no Pará.
Em síntese, os resultados mostram diferenças regionais no avanço de Lula entre os turnos. No Centro-Oeste e Sudeste, predominam municípios com baixa participação partidário-eleitoral e ganhos maiores para o candidato. No Norte, predominou a combinação de participação alta e ganhos menores, embora Acre, Amazonas e Pará apresentem maior presença do padrão observado no Centro-Oeste e Sudeste. No Sul, os ganhos maiores se distribuem entre as duas faixas do IPar, com destaque para Santa Catarina pela associação entre baixa participação e maior avanço de Lula.
Cumpre notar que os mapas dos municípios conferem destaque às cidades de maior tamanho, embora elas nem sempre tenham mais eleitores. Para tornar clara a diferença entre eleitores e território, o Mapa 3 repete as cores do mapa anterior, mas representa cada município por um círculo proporcional ao seu número do eleitorado apto no segundo turno. Assim, São Paulo, Rio de Janeiro e outras cidades populosas passaram a ter uma presença visual que corresponde ao número de pessoas que podiam votar.
Mapa 3. IPar e ganho relativo de Lula, com a área dos círculos proporcional ao eleitorado apto no segundo turno. As cores e os cortes são os mesmos do Mapa 2. Os círculos foram deslocados para evitar sobreposição. Seu tamanho representa eleitores aptos, não quantidade de votos recebidos nem novos votos de Lula

As 1759 cidades de IPar baixo e ganho acima de 2,37 pontos representam 31,7% dos municípios, mas reúnem 55,6% do eleitorado, ou 86,42 milhões de pessoas aptas a votar. Há também 1759 cidades de IPar alto e ganho até esse valor, porém elas concentram apenas 15,9% dos eleitores, ou 24,65 milhões. Assim, fica claro que a mesma quantidade de cidades pode ter um peso eleitoral muito diferente em função do tamanho de seu eleitorado.
São Paulo, Rio de Janeiro e Salvador estão representados no mapa por círculos de IPar baixo e ganho eleitoral maior. Manaus, Belém e Fortaleza apresentam IPar alto com ganho eleitoral alto. Porto Alegre tem IPar baixo e ganho eleitoral menor. Ao tornar essas diferenças mais visíveis, o mapa ajuda a entender por que contar o número de cidades não basta para avaliar o grau da mudança do resultado eleitoral. As duas faixas de IPar reúnem o mesmo número de municípios, mas têm eleitorados de magnitudes diferentes. São 55,78 milhões de eleitores aptos nas cidades de IPar alto e 99,61 milhões nas de IPar baixo. Nestas últimas, Lula recebeu 36,65 milhões de votos no segundo turno e Flávio, 39,84 milhões. Nas cidades de IPar alto, foram 26,53 milhões para Lula e 18,75 milhões para Flávio. Ambos somaram mais votos na faixa que concentra um número maior de eleitores.
Em relação ao primeiro turno, Lula acrescentou 3,30 milhões de votos nas cidades de IPar alto e 6,88 milhões nas de IPar baixo. Flávio também cresceu em votos, mesmo vencendo em menos municípios. Foram cerca de 750 mil votos adicionais na faixa de IPar alto e 2,87 milhões na de IPar baixo. Com isso, a vantagem de Lula nas cidades de IPar alto passou de 5,23 milhões para 7,78 milhões de votos. Nas de IPar baixo, Flávio permaneceu à frente, mas sua vantagem caiu de 7,19 milhões para 3,19 milhões. As cidades de IPar baixo correspondem a cerca de 61% da melhora da diferença de votos a favor de Lula. Esse aumento teve maior peso no total, apesar de não ter sido suficiente para passar à frente de Flávio na soma dos votos dessa faixa de municípios.
Gráfico 3. Votos de Lula e Flávio nas duas faixas do IPar inicial, em milhões. As anotações mostram a diferença de votos entre os candidatos. Lula ampliou a vantagem nas cidades de IPar alto. Flávio manteve a liderança nas de IPar baixo, com uma vantagem menor

A comparação com o eleitorado apto também mostra a mudança do desempenho de Lula. Nas cidades de IPar baixo, os votos de Lula passaram de aproximadamente 30 para 37 em cada 100 pessoas aptas a votar. Nas de IPar alto, passaram de 42 para 48. Flávio também aumentou sua votação por eleitor apto nas duas faixas, de 37 para 40 nas cidades de IPar baixo, e de 32 para 34 nas de IPar alto. O total de eleitores aptos inclui quem se absteve ou votou em branco e nulo.
Em suma, Lula terminou o segundo turno vencendo em uma parcela maior de cidades com participação partidário-eleitoral alta. Porém, seu crescimento proporcional foi maior nas cidades de IPar baixo, onde reduziu a desvantagem sobre Flávio e concentrou a maior parte dos votos adicionais. Os mapas mostram onde isso ocorreu, evidenciando também o peso do eleitorado envolvido em cada município. Embora as cidades com IPar alto tenham mantido maior comparecimento médio, aquelas com IPar baixo registraram maior aumento da presença nas urnas entre os turnos. Esses movimentos coexistem, como também coexistem a virada de votos entre as candidaturas do primeiro para o segundo turno, com o comparecimento de novos eleitores. Os dados municipais, porém, não permitem identificar quanto do crescimento de Lula veio de eleitores que haviam votado em outras candidaturas, se abstido ou votado em branco ou nulo no primeiro turno. O que se observa é que as cidades de IPar baixo contribuíram mais para a mudança da diferença total de votos e a melhora de sua posição diante de Flávio.
Rodrigo Martins é cientista político, pesquisador do NDAC/Cebrap e especialista-visitante do INCT Participa.
Adrian Gurza Lavalle é coordenador do INCT Participa, presidente do Cebrap e professor livre docente da FFLCH/USP.
Lizandra Serafim é professora do Departamento de Ciências Sociais e do Programa de Pós-Graduação em Ciência Política e Relações Internacionais da UFPB, coordenadora do NPPD/UFPB e membro do Comitê Gestor do INCT Participa.
Carla Almeida é professora associada da UEM, coordenadora do SociDem/UEM e membro do Comitê Gestor do INCT Participa.
Ana Carolina Vaz é doutoranda em Ciência Política pela Universidade de Brasília, membro do Resocie, Grupo de Pesquisa sobre Relações entre Sociedade e pesquisadora do INCT Participa e do Observatório Participa (OPar).

