Manifesto Comunista em quadrinhos - Le Monde Diplomatique

RESENHA

Manifesto Comunista em quadrinhos

por Cristiano Navarro
14 de maio de 2019
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Marx e Engels espreitam esse inferno ora sussurrando, ora gritando trechos do manifesto de libertação. Embaladas pelo espectro fantasmagórico da fúria dos oprimidos, suas palavras assombram os opressores. Décadas depois, o mesmo espírito do Manifesto Comunista impulsionaria inúmeras revoluções mundo afora durante o século XX.

Manifest der Kommunistischen Partei (Manifesto do Partido Comunista) foi encomendado a Karl Marx como uma declaração de princípios pelo grupo socialista Liga dos Justos, em junho de 1847, sem nenhuma expectativa do que seria seu significado para humanidade.

Peça fundamental na estruturação do pensamento marxista e sua crítica ao capitalismo, o curto documento, assinado por Marx e Friedrich Engels e conhecido por seus emblemáticos jargões revolucionários, sintetiza críticas a diferentes campos socialistas e seu ódio à burguesia e indica dez ações para um governo revolucionário da classe trabalhadora.

A improvável transformação de uma das obras políticas mais importantes da história em HQ pelo cartunista inglês Martin Rowson tem como resultado um livro esteticamente radical, surreal e furioso. Nele, terríveis robôs e engrenagens gigantescas são aquecidos por fornos que funcionam a combustão de crânios e jorram sangue; as almas dos trabalhadores são torturadas por religião, lei, moral, patriotismo e valores familiares; tudo ao deleite de sinistros patrões e banqueiros. Todo terror da distopia/realidade capitalista é apresentada de forma sombria em três cores: vermelho, preto e branco.

Marx e Engels espreitam esse inferno ora sussurrando, ora gritando trechos do manifesto de libertação. Embaladas pelo espectro fantasmagórico da fúria dos oprimidos, suas palavras assombram os opressores. Décadas depois, o mesmo espírito do Manifesto Comunista impulsionaria inúmeras revoluções mundo afora durante o século XX.

No único frame colorido do livro, sobre um palco descortina-se a utopia de uma sociedade livre que convive em harmonia com a natureza, onde as pessoas estão todas nuas, loucamente felizes, dançando e bebendo, e onde, ao fundo, se vê uma multidão carregando bandeiras vermelhas e incendiando uma fábrica. “No lugar da velha sociedade burguesa com suas classes e antagonismo de classe, nós teremos uma associação, na qual o livre desenvolvimento de cada um será a condição para o livre desenvolvimento de todos!”, profetiza Marx. É impossível dizer se um dia haverá ou o quão distante está esse lugar, mas, enquanto a utopia não vem, vale a leitura e a máxima final do manifesto: “Uni-vos!”.

MANIFESTO COMUNISTA EM QUADRINHOS –  Karl Marx e Friedrich Engels, adaptação de Martin Rowson, Editora Veneta

Cristiano Navarro é Editor do Le Monde Diplomatique Brasil.



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