Marx e Engels: uma lição de retórica política para a esquerda

Manifesto comunista

Marx e Engels: uma lição de retórica política para a esquerda

por Raphael Fagundes
13 de março de 2020
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É de suma importância apreender a composição retórica dos argumentos usados por Karl Marx e Friedrich Engels para a construção de um discurso acessível às classes operárias de sua época. Essa observação serve de lição para as esquerdas atuais que almejam alcançar os trabalhadores.

O Manifesto do Partido Comunista é um documento histórico escrito sob e sobre as circunstâncias de um período histórico particular. Segundo Eric Hobsbawm, trata-se do “escrito político individual mais influente desde a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, da Revolução Francesa”. Diversos estudos foram feitos sobre ele, centenas de milhões de pessoas o leram em diversas línguas. No entanto, é de suma importância apreender a composição retórica dos argumentos usados por Karl Marx e Friedrich Engels para a construção de um discurso acessível às classes operárias de sua época. Essa observação serve de lição para as esquerdas atuais que almejam alcançar os trabalhadores.

Para isso, será necessário compreender que a retórica, segundo Aristóteles, trata dos meios que o orador deve lançar mão para encontrar provas capazes de levar o ouvinte à persuasão. Esse procedimento utiliza como recurso os valores e saberes compartilhados entre os membros que fazem parte das circunstâncias de comunicação. E não só os valores e saberes devem ser compartilhados, mas também a estética receptiva, a maneira habitual pela qual as mensagens se apresentam linguística e literariamente em dada época e espaço.

A retórica não era algo cultuado no século XIX, pelo contrário. Tzevtan Todorov argumenta que, embora a retórica tenha sido o primeiro sinal de consciência humana sobre a linguagem, sua história teve várias ascensões e quedas durante os séculos, “para soçobrar imperceptivelmente mais, segundo parece, definitivamente durante o século XIX”. Havia certa aversão, um preconceito, pois ela lembrava o engodo dos salões aristocráticos, os sermões dos padres, a enganação política etc.. Marx e Engels, por exemplo, ao criticarem o que chamavam de “socialismo burguês”, diziam que este “só atinge sua expressão adequada quando se torna simples figura de retórica”. E sobre o que designaram de “socialismo alemão” escreveram: “A roupagem tecida numa teia de aranha especulativa, bordada com as flores retóricas dos belos espíritos e impregnada de orvalho sentimental […] o socialismo alemão reconheceu cada vez melhor sua vocação de ser o representante grandiloquente daquela pequena burguesia”.

Acusavam as classes dominantes de manipularem sistemas e filosofias políticas para esconder, por meio da linguagem, a dominação de classe. Na questão jurídica: “vosso direito é apenas a vontade da vossa classe erigida em lei”; no cristianismo, “nada mais fácil do que dar um verniz socialista ao ascetismo cristão. O cristianismo também não se manifestou contra a propriedade privada, contra o matrimônio, contra o Estado? Em seu lugar não pregou a caridade e a pobreza, o celibato e a mortificação da carne, a vida monástica e a Igreja? O socialismo sacro [cristão] é apenas a água benta com que o padre consagra o despeito dos aristocratas”; e, por fim, no socialista alemão, que “todas as infâmias desse homem normal atribuiu um sentido oculto, superior, socialista, que as fazia significar o contrário do que realmente eram”. Acusar o outro de uma retórica que busca a dissimulação, isto é, que busca ocultar a verdade, é fundamental para desmerecer o argumento de quem se pretende combater perante o público. Os autores do Manifesto, portanto, destacavam a verdadeira intenção dos grupos que depreciavam: fazer a classe trabalhadora de idiota.

No entanto, o mais curioso é o fato de que para criticar uma ideia, acusando-a de ser mero engodo, usava-se a mesma estratégia, como podemos ver na última passagem citada. Marx e Engels não dispensaram alegorias e figuras de retórica. E nem podiam, já que “os bardos e fautores da modernidade também recorriam a antigos tropos quando se tratava de justificar seu projeto e torná-lo compreensível”.

Esses “atos de fala” nos levam a corroborar o que Hobsbawm trouxe à tona na sua introdução ao Manifesto no 150° aniversário da obra. O historiador inglês destacou que foi a “defesa eloquente” de Marx “na Comuna de Paris de 1871 (conhecida popularmente como A guerra civil na França)” que “conferiu-lhe considerável notoriedade na imprensa como um líder perigoso da subversão internacional, temido pelos governos”. Isto é, a eloquência, a habilidade retórica de Karl Marx, foi o que lhe atribuiu fama em sua época.

As metáforas de Marx e Engels e a linguagem de seu tempo

Há uma relação muito íntima entre alegoria e metáfora. A retórica antiga via a alegoria como um ornatus, um ornamento para o discurso, lembrando, inclusive, os ornamentos que um soldado deveria usar quando se preparava para a guerra. Essa concepção se transforma entre os teólogos medievais que passaram a encará-la como uma espécie de “desvio” que assume o lugar de um termo “próprio” ou “literal”. Contudo, Todorov nos mostra que a metáfora, isto é, a linguagem figurada carregada de tropos, mostra-se a partir do século XIX como uma aversão à linguagem natural. A metáfora seria ainda considerada um desvio, mas passou a ser entendida como uma forma de omitir o real.

É desta maneira que podemos ser induzidos a acreditar que a metáfora não passa de um arranjo linguístico a serviço da ideologia. E é exatamente nesses termos que se encontra a crítica de João Adolfo Hansen à Lukács, por este atribuir ao conceito de alegoria o que historicamente se aplicaria apenas à alegoria medieval: “Tal concepção significa que o artista contemporâneo é formalista, quando alegorizante, pois opera com uma forma vazia a que não mais corresponde nenhuma transcendência num mundo de fragmentos mercadorias ou, ainda, porque propõe reacionariamente a transcendência num mundo em que ela é ideologia”.

Essa característica da metáfora e da alegoria como desvio é apreendida como o cerne da atividade retórica pelos estudiosos belgas, liderados por Jean Dubois. “Mesmo fora da natureza do desvio, o simples fato do desvio é carregado de sentido: significa precisamente Retórica…” Mas ao longo do texto, mostraremos que a metáfora não tem a função de esconder a verdade, “cavando um abismo entre o homem e o real”, como acreditava Lukács, mas uma maneira de evidenciar os dados apresentados pelo orador, tornando-os mais sensíveis aos valores e saberes do ouvinte.

Por ora, precisamos compreender que o orador que promove esse “efeito” na linguagem, manifesta “no mesmo movimento, a um só tempo, o desvio e a norma. Uma metáfora, por exemplo, só é percebida como metáfora porque remete ao mesmo tempo ao sentido próprio e ao sentido figurado. Portanto, é exatamente a relação norma-desvio que constitui o fato de estilo, e não o desvio como tal”. Ou seja, Marx e Engels não podem ser vistos aqui como oradores que lançam metáforas a esmo e permanecem apenas no campo da ilusão. Suas metáforas e alegorias são recuperadas da mentalidade, do significado tradicional que certas imagens exerciam na cultura popular.

Para tornar seu texto acessível às classes populares, Marx e Engels utilizaram de algumas crenças que se encontravam consolidadas no imaginário por séculos. É por isso que começam com: “Um espectro ronda a Europa – o espectro do comunismo”. A crença em fantasmas era muito comum. É uma crença dos tempos absolutistas, visto que o próprio Thomas Hobbes confessava ter medo de fantasmas. O etnólogo polonês, L. Stomma, “trabalhando em documentos de seu país da segunda metade do século XIX, analisou quinhentos casos de mortos transformados em ‘demônios’, isto é, fantasmas, como acreditavam seus próximos”, dentre eles se encontram fetos mortos, abortados, suicidas, noivos mortos pouco antes do casamento etc.

Mas não para por aí. Outro medo disseminado popularmente foi recuperado na eloquência dos dois fundadores da Liga dos Comunistas: “a moderna sociedade burguesa, que fez surgir como que por encanto possantes meios de produção e de troca, assemelham-se ao feiticeiro que já não pode controlar as potências infernais por ele postas em movimento”. Essa alegoria foi usada para explicar o fato de a burguesia não ser capaz de controlar as crises do capitalismo: “Basta mencionar as crises comerciais que, com seu periódico retorno, põem em questão e ameaçam cada vez mais a experiência de toda a sociedade burguesa”.

Como a burguesia, em “seu domínio de classe de apenas cem anos”, conseguiu produzir forças “poderosas e colossais” capazes de explorar continentes inteiros e de fazer brotar do solo populações inteiras senão “por encanto”? Parecia ser praticamente impossível, comparando a evolução das classes dominantes em períodos precedentes, que a burguesia tenha conseguido se expandir da maneira que se expandiu em tão pouco tempo. Parecia mágica. Sendo assim, era fácil assemelhar a sua imagem a de um feiticeiro.

Vale lembrar que a feitiçaria, isto é, a magia ilícita determinada pela elite eclesiástica, tinha uma “correspondência na visão das elites laicas, nomeadamente da elite jurídica, que transforma a feiticeira e o mágico, enquanto desclassificados religiosos, em desclassificados sociais”, nos mostra Francisco Bethencourt. Ou seja, os feiticeiros eram membros das classes dominadas, viviam em contato direto e frequente com a classe operária. Era um aspecto mágico que fazia parte do mundo do proletariado.

Marshall Berman acredita que essa imagética invocada por Marx e Engels que, por sua vez, “projeta uma aura de maravilhoso sobre o mundo moderno” buscando o sentido do terror, está ligada a outras duas imagens demoníacas da literatura moderna: o Frankenstein de Mary Shelley, que ao “expandir os poderes humanos através da ciência e da racionalidade, desencadeia poderes demoníacos que irrompem de maneira irracional”; e o Fausto de Goethe, onde “o consumado poder oculto, que finalmente torna o feiticeiro obsoleto, é todo o moderno sistema social”. A modernidade não aniquilou os monstros, ela fez mais, criou novos.

A esses monstros podemos acrescentar o vampiro que após o romance de Bram Stoker ganhou um grande espaço. No entanto, antes mesmo do clássico da literatura ocidental, esse morto-vivo já era um personagem consolidado na mentalidade popular, e inclusive no vocabulário político do qual Marx fazia parte. “Desde 1741, o termo ‘vampiro’ assume na Inglaterra o sentido de ‘tirano que suga a vida de seu povo’, e Voltaire, depois, afirma que ‘os verdadeiros vampiros são os monges, que comem à custa dos reis e dos povos’”, explica Claude Lecouteux.

Em Karl Marx, encontramos o personagem mitológico em outros textos, quando afirma que “o capital é trabalho morto, o qual, como um vampiro, vive apenas para sugar o trabalho vivo, e quanto mais sobreviver, mais trabalho sugará”. No 18 Brumário de Luís Bonaparte, por seu turno, destaca que “a ordem burguesa, que no princípio do século pôs o Estado para montar guarda sobre a recém-criada pequena propriedade e premiou-a com lauréis, tornou-se um vampiro que suga seu sangue e sua medula, atirando-o no caldeirão alquimista do capital”. Em outra situação, tratando das horas prolongadas do trabalho, Marx resgata a imagem vampiresca do burguês: “O prolongamento da jornada de trabalho além dos limites do dia natural, adentrando a madrugada, funciona apenas como um paliativo, pois não faz mais abrandar a sede vampírica do sangue vivo do trabalho”.

Ou seja, esse tipo de linguagem era comum na eloquência de Marx e não apenas um privilégio do Manifesto Comunista. Cícero, confrontando a perspectiva dominante entre os oradores da era clássica, refutava a ideia de que a figura de retórica fosse um mero ornamento. Assim, as monstruosidades, na atividade retórica de Karl Marx, entre metáforas e analogias, não pode ser encarada como um mero enfeite no discurso, pelo contrário, possui uma função de extrema importância.

No Manifesto, a alegoria do espectro estava, como vimos, relacionada ao medo que o fantasma desencadeava no período em que o texto foi escrito. Marx e Engels seguiram o seguinte raciocínio para convencer as classes populares a se aderirem a única força capaz de levar a burguesia à queda: o mesmo medo que todos sentiam do fantasma, horripilante e pavoroso, era o medo que a burguesia sentia do comunismo, porque este era capaz de organizar os operários, a única classe capaz de derrubá-la. Os autores buscavam estabelecer uma relação de medo, tanto que no final do documento, afirmam: “Que as classes dominantes tremam diante de uma revolução comunista”.

Essa relação não foi uma “invenção” de Marx e Engels, embora em termos de retórica trata-se exatamente de uma invenção. O desprezo para Aristóteles é motivo de cólera, e no seu tratado de retórica mostra que “ninguém desdenha aquele a quem teme”. E para criar essa disposição temerosa, esse pathos fascinante, o orador deve tornar presente o objeto do medo: “é necessário que esta ameaça não apareça afastada, senão próxima, quase iminente”. Por isso que no preâmbulo do Manifesto nos deparamos com a seguinte afirmação: “O comunismo já é reconhecido como força por todas as potências da Europa”. E ao longo de todo o texto, Marx e Engels vão construindo a sensação de perigo que justifica esse temor das classes dominantes. O Manifesto promove uma dialética de emoções: a esperança que move os proletários e o temor que move a burguesia.

A burguesia temia os operários como todos temiam os fantasmas (descrição popular do nível de medo). Os trabalhadores deveriam combater a burguesia como faziam cotidianamente em ataques contra vampiros e feiticeiros (seres demoníacos na mentalidade popular) que os atormentavam. A esquerda atual precisa capturar as forças imaginárias e reais que atormentam os trabalhadores para produzir um discurso contundente na luta contra a burguesia.

 

Raphael Fagundes é autor do livro “Herdeiros da Facúndia: uma análise da retórica política nos Sermões do padre António Vieira e nas celebrações do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro”



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