O RACISMO EXISTE, É CRUEL, VIOLENTO E MATA

Meu irmão, meu amigo, meu camarada… Manoel Neto!

herança escravocrata, de racismo estrutural, o processo discriminatório e racista de civilização nos trópicos, o racismo que mata, desde sempre, no Brasil! Foi isso que matou Manoel

Conheci Manoel na tarde de 19 de fevereiro de 2026, através das mídias sociais, a partir da notícia de sua morte, através de suicídio. Ação tomada após ter passado por ato de racismo em um camarote no Carnaval soteropolitano. Portanto, de fato, eu nunca tive qualquer contato com ele, nunca troquei qualquer palavra e muito menos alguma ideia. Nem aquelas conversas sem sentido algum sobre as coisas mais triviais da vida. Nada de conversarmos sobre política, futebol, religião, amores, sonhos e dissabores… Absolutamente nada! 

Mas eu sei exatamente quem ele era, sei exatamente por que e do que ele morreu, pois Manoel sou eu! Assim como eu era Manoel!  

A experiência de ser um homem negro adulto no Brasil, consciente de todas as contradições e empecilhos que isso lhe acarreta, nunca é individual. Ela é coletiva, repassada de geração em geração, de indivíduo em indivíduo, como se fosse uma maldição. E que se fique bem definido, nada de deturpações religiosas aqui, não me venham com a falácia da maldição de Cam aos povos negros. Estou falando de herança escravocrata, de racismo estrutural, estou falando de processo discriminatório e racista de civilização nos trópicos, estou falando do racismo que mata, desde sempre, no Brasil! Foi isso que matou Manoel, foi essa dor que dilacerou a sua existência! 

Dor que marca e rasga como chaga corpo e alma, dilacera sonhos e expectativas, macula conquistas e sucessos! Pois mesmo nos momentos ela esta sempre ali, a espreita, rondando, esperando a hora de se fazer reinar… 

A desumanização da experiencia por ele sofrida, a sensação de abandono e fragilidade, de ter que encarar a persona do “negro bravo/revoltado” para se fazer respeitar – ou temido? – mas preocupado em não ser rotulado em permanência por aquele ato de desespero em se fazer ouvir, visto em sua simples dignidade humana. Não queria ser visto como rei ou superstar, apenas como um homem negro. Um ser humano em sua plena existência de vida, em um momento de lazer e diversão! Nada mais, nada menos do que isso! Um símbolo de universalidade humana, uma única vez – aquela vez – enquanto sujeito universal! 

Mas a todo momento, mesmo antes da situação gatilho, atento aos seus irmãos de cor e destino, que ocupavam posições de trabalho naquele local, para que estes não entrassem em confusão. Não sofressem qualquer tipo de abuso ou situação desagradável naquele ambiente de festa para todos. Procurando apaziguar possíveis situações de conflito e tensões… Afinal de contas, era Carnaval! Tempo de renovação e explosão de energias, busca por novas promessas e felicidades, mesmo que finitas ao final da Quarta-Feira de Cinzas!  

O seu relato acerca dos momentos vividos na festa é tocante, sensível na sua reafirmação da busca pela felicidade e o amor! De que a vida é bela, apesar de tudo, é bela e vale a pena! Do carinho sem limites pelos seus, sem vergonha de expor sua consciência de raça e classe, mas ao mesmo tempo, sem pudor em se desnudar psicologicamente nesse processo! De se revelar sozinho e desamparado, mesmo em meio a uma multidão, no oceano de águas turvas de solidão que envolve os homens negros no Brasil. Desterrados, nunca em plena pertença e muito menos em vivência, numa terra varonil por ele cortada, reconfigurada, protegida e alicerçada, mas que a ele nega seus dotes e frutos. O rotulando e classificando como o seu inimigo número um… O bestializado, o feroz, o bandoleiro, o marginal, o perigoso, mente e corpo criminal, força incontida… O inumano em perfeito estado e definição! Nunca um simples cidadão qualquer, nunca com o direito da mediocridade humana que nos faz todos iguais e comuns! Não para Manoel, não para mim, não para você, não para nós… Não para nós! 

É cansativo, dói, machuca, violenta, sufoca. Não dá folga, se faz onipresente… Nunca descansa, está sempre ali, aqui, acolá, sempre… No mundo real, virtual ou imaginado… Tortura física e psicológica, talhando a ferro frio suas marcas indeléveis… Perpétuas… Que torna tudo cada vez mais e mais pesado, mais sujo e escuro! Numa sensação de torpor em desesperança, tal qual frio extremo em pleno verão tropical, um sentimento de total desencontro e perplexidade. 

Ao final se revela como antivida que estende seus braços e abraça em conforto, como última solução… A última chance de escapar dessa realidade que se reescreve para nós sempre com o mesmo final! Roteiro que parece nunca mudar! Filme de horror em que não queremos mais ser protagonistas e nem coadjuvantes!  

Crédito: Reprodução/Redes sociais

O racismo mata, ponto! É, isso. Ao seu final, gera o ato que executa o último suspiro dos corpos negros de vários tons e pigmentações de melanina… Na dor e sofrimento, na morte enquanto rainha má, a negritude não é questionada ou desvalorizada! São todos homens negros que foram (são) avôs, pais, filhos, amores, maridos, amantes, amigos, camaradas, colegas, parças, inimigos de alguém… Seres vivos despossuídos de sua condição inequívoca de humanidade, desde antes de nascerem! Já presentes ao mundo previamente definidos e marcados. Rotulados antes e depois de sempre!   

E Manoel coloca e questiona ludicamente, poeticamente isso… Ainda é didático, respeitoso – extremamente respeitoso – por mais que você sinta uma fúria a cada letra ali digitada… Um grito que almejava irromper de maneira visceral, mas que se faz conter e ponderar. Pois mesmo em seu momento de máxima dor e desilusão, sabia que não podia deixar se levar pela fúria dos revoltosos e injustiçados. Nem exercer, mesmo que verbalmente, ao ódio dos discriminados e violentados! Não podia dar esse gosto a eles, de ser utilizado como o estereótipo do negro “emocionado por nada”, daquele que “perde a razão por revidar”, que em vez de argumentar, opta pela “pura e simples violência”! Cordato e didático, pensando em ser exemplo aos seus, até o final…  

Até o final! Não podendo ser livre para expelir aos berros a dor infinita que circulava em seu peito! Não lhe dando paz e sossego nem por um instante! Sempre procurando não errar, nem quando estava certo… Até o final não podendo ser plenamente quem era! Sempre manter o decoro, por mais que quisesse tanto só uma vez, só uma mísera vez, resolver situações desse tipo em socos e pontapés! Perfeitamente compreensível e humanamente explicado, mas não para ele, não para nós. Não podemos alimentar os rótulos e estereótipos! Por mais que isso nos machuque! Temos que ser sempre cordatos e ponderados. 

Essa é a essência da última postagem de Manoel. A tensão que atravessava seu âmago nos últimos suspiros de sua vida, em seus últimos pensamentos! Pois existem horas em que o “nós por nós” não funciona! É lindo, bem-intencionado, é poderoso, faz diferença… Mas chega uma hora em que não causa mais efeito! Pois sabemos, eu e você aqui estamos lendo estas linhas, que o que nos resta é sempre a solidão. Mesmo assim, temos que ponderar e ponderar, enquanto nos desumanizavam sistematicamente. Ao final, sendo sempre os culpados por nossos destinos e desatinos que acorrentam em nós. 

E pelo que se lê em vários dos comentários deploráveis que povoam as páginas referentes ao seu suicídio, ele estava – triste e infelizmente – mais que correto! 

A ridicularização que se segue, o culpando, por ser “fraco”, enfatizando o seu “vitimismo”, e por “se deixar derrotar/abater”… É de uma crueldade sem tamanho, mas revela não só o quanto estamos doentes e falidos como sociedade, mas o quanto o racismo, com suas várias faces e alcances, não é mimimi. Muito menos “coisa que não existe no Brasil”. Ele existe, é cruel, violento e mata! Descaradamente ou sutilmente, ele MATA! Sendo um dos grandes legados do processo civilizatório brasileiro! Mata e culpabiliza as suas vítimas e persegue aqueles que lhe denunciam e combate! Até mais nada restar, até mais nada esperançar!  

Ele só queria mais que sobreviver, ele queria VIVER! Livre, com seus direitos e deveres cidadãos, ir e vir, sem ser incomodado ou barrado, sem ser lido e rotulado previamente!  

Uma vez na vida ser compreendido e respeitado enquanto um ser humano! Mas isso é demais, ainda mais no Brasil, mesmo na terra preta da Bahia, na “Roma negra” de Salvador, em pleno Carnaval! 

 Não temos direitos a confetes e serpentinas, nem por um instante ou momento, nem na suspensão de realidades e alteridades de sentidos do Carnaval! Isso cansa, isso cansa, isso cansa… Isso dói, isso mata… Eu sei bem disso, você sabe bem disso, Manoel sabia bem disso e por isso morreu! Ele que era nós, eu e você! O melhor amigo que eu nunca conheci, mas que sempre amei, o irmão que nunca conheci, mas sempre esteve junto a mim. Homem negro como eu, que era eu e aqui não mais está, pela maldita covardia – a nossa covardia – sistêmica de não encaramos e buscarmos superarmos o racismo enquanto nosso elemento definidor de civilidade e cidadania! De quem por aqui é ou não ser humano! De quem pode aqui ser quem é, em toda a sua plenitude de erros, contradições, complexidades e belezas em ser demasiadamente e simplesmente humano!  

Que façamos do sonho de Manoel muito mais do que um delírio de Carnaval! Já está mais do que na hora disso! Mais do que na hora… 

Meu irmão, meu amigo, meu camarada, a quem nunca conheci, mas sempre amei e amarei infinitamente, todo amor e axé do mundo! Que nossos ancestrais lhe acolham e acalentem. Que o mel lhe seja sempre doce e farto. Que a eternidade lhe seja infinita de felicidades! 

Manoel Neto, para todo sempre, PRESENTE! 

Christian Ribeiro é doutor em Sociologia. Professor titular da SEDUC-SP, pesquisador das áreas de negritudes, movimentos negros e pensamento negro no Brasil. Membro do grupo de pesquisa “Pensamento social: contextos, instituições, intelectuais e movimentos” do IFCH/UNICAMP. 

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