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RESENHAS

Miscelânea

30 de abril de 2019
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MANIFESTO COMUNISTA EM QUADRINHOS

Karl Marx e Friedrich Engels, adaptação de Martin Rowson, Editora Veneta

Manifest der Kommunistischen Partei (Manifesto do Partido Comunista) foi encomendado a Karl Marx como uma declaração de princípios pelo grupo socialista Liga dos Justos, em junho de 1847, sem nenhuma expectativa do que seria seu significado para humanidade.

Peça fundamental na estruturação do pensamento marxista e sua crítica ao capitalismo, o curto documento, assinado por Marx e Friedrich Engels e conhecido por seus emblemáticos jargões revolucionários, sintetiza críticas a diferentes campos socialistas e seu ódio à burguesia e indica dez ações para um governo revolucionário da classe trabalhadora.

A improvável transformação de uma das obras políticas mais importantes da história em HQ pelo cartunista inglês Martin Rowson tem como resultado um livro esteticamente radical, surreal e furioso. Nele, terríveis robôs e engrenagens gigantescas são aquecidos por fornos que funcionam a combustão de crânios e jorram sangue; as almas dos trabalhadores são torturadas por religião, lei, moral, patriotismo e valores familiares; tudo ao deleite de sinistros patrões e banqueiros. Todo terror da distopia/realidade capitalista é apresentada de forma sombria em três cores: vermelho, preto e branco.

Marx e Engels espreitam esse inferno ora sussurrando, ora gritando trechos do manifesto de libertação. Embaladas pelo espectro fantasmagórico da fúria dos oprimidos, suas palavras assombram os opressores. Décadas depois, o mesmo espírito do Manifesto Comunista impulsionaria inúmeras revoluções mundo afora durante o século XX.

No único frame colorido do livro, sobre um palco descortina-se a utopia de uma sociedade livre que convive em harmonia com a natureza, onde as pessoas estão todas nuas, loucamente felizes, dançando e bebendo, e onde, ao fundo, se vê uma multidão carregando bandeiras vermelhas e incendiando uma fábrica. “No lugar da velha sociedade burguesa com suas classes e antagonismo de classe, nós teremos uma associação, na qual o livre desenvolvimento de cada um será a condição para o livre desenvolvimento de todos!”, profetiza Marx. É impossível dizer se um dia haverá ou o quão distante está esse lugar, mas, enquanto a utopia não vem, vale a leitura e a máxima final do manifesto: “Uni-vos!”.

 

[Cristiano Navarro] Editor do Le Monde Diplomatique Brasil.

 

 

O CAMINHO DO ALFERES TIRADENTES. UMA VIAGEM PELA TRILHA DOS INCONFIDENTES

Ivan Alves Filho, Mandala Produção

“Esse que todos acusam,/ sem amigo nem parente/ sem casa, fazenda ou lavras,/ metido em sonhos de louco,/ salvador que se não salva/ […] É o Alferes Tiradentes.” É com esses versos de celebração que a poetisa Cecília Meirelles fecha suas “Conversas indignadas”, no livro Romanceiro da Inconfidência. A figura de Joaquim José da Silva Xavier, ou apenas Tiradentes, até hoje habita o imaginário popular brasileiro. Ainda é possível, pelos caminhos de Minas, os mesmos que abrigaram o corpo decapitado do herói, revisitar a história e encontrar os vestígios da Inconfidência e do sonho da liberdade. E é dessa necessidade de refazer os caminhos do alferes que nasceu esse livro do historiador Ivan Alves Filho.

Dividida em dezenove capítulos, a obra parte da Fazenda de Pombal, em Ritápolis, onde nasceu Tiradentes, e refaz o caminho do alferes. O barroco das igrejas, a música de Lobo de Mesquita, a arte de Aleijadinho e Ataíde, nomes tão caros ao Brasil, são parte dessa trilha que nos leva àquele sonho – eleições ou mesmo um poeta à frente do Brasil, Tomás Antônio Gonzaga, cujos versos atravessaram o oceano e encantaram até mesmo Aleksándr Púchkin, o maior escritor da língua russa. O livro implica uma releitura da Conjuração Mineira, vista como o primeiro passo da revolução burguesa entre nós, e reafirma que a ideia do Brasil como missão despontou ali, com seus intelectuais.

Cada passo do historiador foi registrado pelas lentes dos fotógrafos Maurício Seidl e Luiz Antônio da Cruz, marcando o passado e o presente. Nas palavras do autor, o livro se esforça em reproduzir os aspectos importantes da vida cotidiana da região, dando a palavra a seus habitantes, os do presente e os do passado. Ou, ainda, com suas andanças pela Estrada Real, ele se transformou – como ele mesmo diz – em uma espécie de “historiador de campo”, desses que criam seus próprios documentos.

Foi o próprio alferes Tiradentes quem disse, em certa ocasião, que armaria uma meada tal que em dez, vinte ou cem anos se não haveria de desembaraçar. E é a existência de tantas honras em homenagem ao herói – poemas, enredos de samba, estudos – que dá força de razão às suas palavras. Afinal, ainda hoje, não é Joaquim Silvério dos Reis, o delator, quem nos fascina, mas o próprio Tiradentes, ou Cláudio Manuel da Costa, ou Tomás Antônio Gonzaga, nomes cuja grandeza justificam a leitura imperdível desse novo livro.

 

[André Rosa] Escritor e pesquisador da UFRJ. Colaborou, entre outras publicações, na Revista Brasileira (Academia Brasileira de Letras) e no russo Pravda.

 

 

<INTERNET>
Novas narrativas da web

Sites e projetos que merecem seu tempo

 

Balas perdidas

A equipe de infografia e inovação da AFP Paris e a equipe brasileira no Rio de Janeiro ilustraram um drama conhecido dos cariocas. Num trabalho multimídia, deram voz e rosto às vítimas das balas que invariavelmente acertam pessoas anônimas nas favelas, ditas balas perdidas no fogo cruzado entre a polícia e o tráfico, ou atiradas a esmo pela polícia, simplesmente. Pais, mães e sobreviventes dão testemunho e fazem reflexões sobre o abuso policial, a impunidade, a dor e também a esperança. Entre as histórias, a de Maicon, de 2 anos, morto pela polícia, a qual colocou no boletim de ocorrência “auto de resistência”. O caso segue sem solução há mais de vinte anos.

<https://interactive.afp.com/Balas-perdidas_253>

 

Menstruação e tabu

O jornal El País lançou em 2018 o trabalho “28 dias, 28 histórias para acabar com os tabus sobre menstruação”, um especial transmídia que aborda o tema de diversos pontos de vista e formatos. Educação e humor, misturados com jornalismo mais tradicional e novas linguagens, para falar de assuntos como o copo coletor menstrual de silicone (6 milhões de views em apenas um vídeo sobre isso no YouTube), um guia para relações sexuais durante o período, a origem do tabu que liga menstruação a algo sujo ou proibido e outros tantos temas.

<https://elpais.com/agr/28_dias_tabu_regla/a>

 

O desmatamento mais rápido do mundo

“Los desterrados del Chaco” apresenta, via scrollytelling (aquela narrativa em que a história acontece enquanto a página vai “descendo”, feita para celular), uma reportagem sobre o desaparecimento da região conhecida como Chaco, entre os Andes e o Amazonas, cobrindo quatro países. Das 4 mil espécies de plantas da região, quatrocentas existem apenas lá. Com ilustrações feitas para celulares com pouca conexão, voltadas para um público mais jovem, tem uma linguagem clara. Cada história foi também distribuída em outros canais e redes sociais, para aumentar o alcance. Venceu o prêmio Gabo de inovação de 2018.

<https://elsurti.com/page/desterrados/>

 

[Andre Deak] Diretor do Liquid Media Lab, professor de Jornalismo e Cinema da ESPM, mestre em Teoria da Comunicação pela ECA-USP e doutorando em Design na FAU-USP.



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