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31 de maio de 2019
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“Sintomas mórbidos: a encruzilhada da esquerda brasileira” e “Economia para poucos: impactos sociais da austeridade e alternativas para o Brasil”

SINTOMAS MÓRBIDOS: A ENCRUZILHADA DA ESQUERDA BRASILEIRA

Sabrina Fernandes, Autonomia Literária

Normalmente, quando pensamos no sintoma de uma doença – uma tosse persistente, por exemplo –, pensamos na relação entre um grande problema, a infecção nas vias respiratórias, e um pequeno problema, a tosse. Contudo, do ponto de vista de causas e efeitos, a tosse, por mais que seja incômoda, não é tanto um problema, mas uma solução, uma tentativa do corpo de expelir uma secreção. É claro que o doente a experimenta como problema, porque atrapalha, mas para pensar esse sintoma é necessário deixar o incômodo de lado e aprender a olhar para ele como uma resposta a um impasse subjacente.

Esse difícil esforço de mudança de perspectiva é um dos grandes méritos do novo livro de Sabrina Fernandes: o esforço de colocar o sintoma em perspectiva, olhá-lo sobre o pano de fundo de um panorama mais geral. A obra é um exercício exemplar daquela imaginação sociológica sem a qual, nos lembra Wright Mills, o pensamento social e político é incapaz de distinguir causa e efeito, problema e sintoma, tática e estratégia. Pois não basta termos informações sobre o que ocorre à nossa volta para que sejamos capazes de ascender a uma análise da conjuntura global na qual estamos inseridos: é preciso ainda ser capaz de reconhecer nas invariâncias e padrões que os dados apresentam os traços de uma estrutura subjacente. E é exatamente assim que Sintomas mórbidos opera uma transformação no sentido de “sintoma”: de problema central, para uma resposta a um problema estrutural e histórico mais geral.

Por meio de uma leitura robusta da tradição do marxismo humanista, a autora utiliza sua extensa pesquisa de campo com as organizações de esquerda para dar corpo a uma interpretação da dinâmica contemporânea da pós-política e da ultrapolítica como duas respostas a um problema estrutural mais profundo, a chamada crise da práxis, um “contexto em que os obstáculos à síntese [da teoria com a prática] prevalecem”, criando uma desconexão praticamente insuperável entre fragmentos da esquerda, cada vez mais ilhados entre si, presos em um diálogo de surdos.

 

[Gabriel Tupinambá] Psicanalista e doutor em Filosofia pela European Graduate School, na Suíça.

 

ECONOMIA PARA POUCOS: IMPACTOS SOCIAIS DA AUSTERIDADE E ALTERNATIVAS PARA O BRASIL

Ana Luiza Matos de Oliveira, Esther Dweck e Pedro Rossi, Autonomia Literária

Desde 2015, o Brasil embarcou na austeridade. A crise no mercado de trabalho, causada pelo choque na política econômica naquele ano e agravada pela perpetuação desta política, e o corte nas políticas sociais têm tido grande impacto na qualidade de vida da população brasileira.

Este segundo ponto – o impacto social da política fiscal – é discutido em Economia para poucos. O livro traz contribuições de diversos especialistas da academia e de organizações da sociedade civil, discutindo como a política fiscal tem impacto na questão social de forma teórica e prática: de que modo os cortes impactam a educação básica e superior, a seguridade social, a saúde, o meio ambiente, a cultura, a segurança pública, a questão federativa, o direito à moradia, a questão agrária, a igualdade de gênero e de raça e os direitos humanos. Ou seja, discute-se como a austeridade impacta a garantia dos direitos sociais assegurados pela Constituição Federal de 1988 em seu artigo 6º.

Os resultados não são positivos. Em todas as áreas, os autores mostram que, desde que a austeridade foi adotada, em 2015, indicadores sociais diversos do Brasil no mínimo deixaram de melhorar e muitos regrediram. Na verdade, o país tem descumprido tratados internacionais que garantem a realização progressiva dos direitos humanos, que ditam que não se podem tomar medidas que promovam retrocessos na realização de direitos.

Em tempos de perpetuação dos contingenciamentos para a política social no Brasil sob o argumento de que “não há dinheiro”, para além de apontar os impactos negativos dos cortes já ocorridos nessas áreas desde 2015 e constitucionalizados por meio da Emenda Constitucional n. 95/2016, o livro dá pistas sobre o que pode ocorrer com a ampliação dos cortes para a já desfinanciada área social. E aponta também possíveis alternativas à política de arrocho social perpetrada nos últimos anos no país.

 

[Raul Ventura Neto] Professor adjunto da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Pará.

 

 

<INTERNET>

Novas narrativas da web

Sites e projetos que merecem seu tempo

 

GPS ideológico

O jornal Folha de S.Paulo fez uma infografia interativa que coloca lado a lado perfis de influenciadores que estão no Twitter, posicionando cada um de acordo com a afinidade ideológica de seus seguidores e pares. Na posição mais à esquerda ficaram perfis como Lola Aronovich, Rosa de Nagasaki e Haddad Tranquilão (perfil de sátira; Fernando Haddad está próximo de Manuela d’Ávila, Brasil 247 e Xico Sá). Bolsonaro e Danilo Gentili estão próximos, mas distantes ainda da ponta direita do espectro. Pelo menos para esse algoritmo, há quem esteja ainda muito mais à direita.

<http://bit.ly/gpsideologico>

 

Mapa das fazendas dos políticos

Consideradas as últimas fronteiras agrícolas do país, regiões do Tocantins e partes do Maranhão, Piauí e Bahia, além da Amazônia Legal, concentram a maior parte das terras dos congressistas brasileiros, segundo levantamento feito pelo De Olho nos Ruralistas. A análise leva em conta as fazendas dos donos de mais de 100 hectares de terra, segundo declarações entregues no ano passado à Justiça Eleitoral. No site, pode-se ver um mapa com todas as fazendas, separadas entre senadores e deputados. Ao todo, os deputados federais são donos de 43,9 mil hectares de terra, espalhados por treze estados. Os senadores, apesar de serem em menor número – 81 para 513 deputados – respondem por uma área maior. No total, somam 107,8 mil hectares.

<http://bit.ly/fazendasruralistas>

 

NSA colaborativa

Um projeto de arte na web criou uma interface para que você experimente como trabalha um agente de inteligência que vigia mídias sociais para prever crimes. O sistema – como fazem os sistemas reais de vigilância – retira posts da sua timeline para que você avalie se são ameaças reais de terrorismo ou se apenas estão fora de contexto. A ideia é perceber o quão invasivos são esses sistemas e o quanto a privacidade é invadida em nome da segurança. Além de site, virou app e instalações de arte em museus.

<www.crowdsourcedintel.org>

 

[Andre Deak] Diretor do Liquid Media Lab, professor de Jornalismo e Cinema da ESPM, mestre em Teoria da Comunicação pela ECA-USP e doutorando em Design na FAU-USP.



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