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2 de setembro de 2019
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A GRANDE REGRESSÃO
Vários autores, Estação Liberdade

A recente guinada autoritária na política mundial deixou muita gente perplexa. Como explicar líderes saídos de reality shows ou que defendem crimes contra a humanidade? Como lidar com uma elite de neodemagogos e seus projetos antirracionalistas?

A grande regressão aborda esses temas com um “sotaque” um pouco distinto de livros recentes similares e um viés mais acentuadamente à esquerda. Entre os autores estão Zygmunt Bauman, Slavoj Žižek, Nancy Fraser, Bruno Latour, Arjun Appadurai, Wolfgang Streeck, Eva Illouz, Paul Mason e Renato Janine Ribeiro.

Os pensadores de países e especialidades diversas dão um prisma heterogêneo à discussão. O livro trata de política, mas também de história, sociologia, antropologia, crítica cultural, economia e até – ao investigar o “novo populismo” – psicologia.

A “grande regressão” vem como “ressaca” da globalização. O fluxo livre de capital e pessoas– como previsto por Appadurai – gerou desigualdade, terrorismo internacional e uma crise climática sem precedentes. As massas perderam a fé na política. Estamos “conectados, mas não integrados”, diz o búlgaro Ivan Krastev.

O título lembra The Great Transformation (A grande transformação), livro de Karl Polanyi (1944). Donatella della Porta cita Polanyi e sua tese sobre um padrão no avanço capitalista: “primeiro um estímulo à mercantilização”, depois “contramovimentos que buscam a seguridade social”.

Com o colapso do neoliberalismo, a ideia de “seguridade” foi subvertida. Exige-se um isolamento total do Outro – ressentimento abordado por Bauman, Žižek e Pankaj Mishra, e resumido por Illouz como o “particularismo nacional e religioso” dos excluídos.

Janine Ribeiro, em seu artigo, denuncia o projeto político brasileiro como “um sucesso na desigualdade, na exclusão social, na corrupção”. Em uma nota mais otimista, analisando a política nos últimos séculos, ele defende que a regressão é real, mas não durará para sempre.

 

[Gabriel Leal] Jornalista.

 

 

MARX E A CRÍTICA DO MODO DE REPRODUÇÃO CAPITALISTA
Jorge Grespan, Boitempo

A obra é pesquisa de fôlego por parte de Jorge Grespan, professor titular da USP. Nela, por meio do estudo sobre O capital, de Marx, em especial do Livro III, o autor brasileiro aborda com rigor a relação entre apresentação (Darstellung) e representação (Vorstellung). As concepções práticas dos agentes da produção, mostra o autor, não são uma simples “falsa consciência” ou mera má-fé. Trata-se do resultado do modo contraditório pelo qual as categorias da economia burguesa se apresentam aos agentes da produção no cotidiano.

Um capitalista, por exemplo, efetivamente precisa raciocinar em termos, a rigor, irracionais: calcula, em sua prática diuturna, a relação entre o preço de custo e o preço de venda do produto, buscando o ganho empresarial. Tais categorias fazem parte da realidade da sociedade capitalista e do burguês em especial; ao mesmo tempo, somente expressam a superfície da realidade efetiva do movimento do capital. Na medida em que sempre se tem por essencial a extração do mais-valor, o ganho empresarial parece não advir da esfera da produção propriamente dita, mas do trabalho do capitalista.

Aquilo que pode ser absolutamente sem conceito (begriffsloss) aparece como racional na religião do cotidiano, em que o irracional é efetivo. O empresário pode se ver como um trabalhador como qualquer outro somente na medida em que sua atividade consiste em explorar os trabalhadores e garantir a extração do mais-valor. O modo de representação capitalista, portanto, não é simplesmente ilusório: remete às sutilezas das metamorfoses das diferentes figuras do capital, principalmente à imbrincada dialética entre trabalho, propriedade, produção e a distribuição da riqueza social.

Esse modo de representação decorre de relações reais – mesmo que irracionais – e inerentes à produção capitalista. E mais: não só o capitalista, mas também o trabalhador está envolto nessa textura sensível-suprassensível: por meio de sua vontade, ele é coagido a vender sua força de trabalho; em meio à igualdade jurídica diante do capitalista, apresenta-se certa igualdade: tal qual o burguês, ele é um proprietário (de sua força de trabalho, no caso), de modo que parece poder almejar mais por meio de sua propriedade. O trabalhador pode representar a si mesmo, no limite, como empreendedor. Tal inversão é parte constitutiva do próprio modo de produção capitalista. Em tempos de “empreendedorismo”, compreender os meandros da produção capitalista pode ser essencial. A obra tem muito a contribuir nisso e na crítica às vicissitudes do presente.

 

[Vitor Bartoletti Sartori] Doutor em Filosofia do Direito pela USP e professor da Faculdade de Direito e Ciências do Estado da UFMG.

 

 

Novas narrativas da web
Sites e projetos que merecem seu tempo

 

Discos do Brasil

Maria Luiza Kfouri começou a colecionar discos aos 11 anos, em 1965. O site Discos do Brasil está na web desde 2005, quando exibia mais de 4 mil discos catalogados. Em 2006 já tinha 6 mil, organizados por intérpretes, arranjadores e compositores, com informações básicas sobre cada uma das mais de 44 mil músicas. Trabalho hercúleo, único. Apesar da antiga tecnologia em que o site funciona (Flash), é possível ouvir (e fazer download!) de cada arquivo. Para quem gosta de música, imperdível.

<www.discosdobrasil.com.br>

 

Efeito Colateral

O especial sobre os assassinatos cometidos por soldados do Exército brasileiro foi indicado ao Global Shining Light Award, o maior prêmio global de jornalismo investigativo. A Agência Pública é a única organização brasileira entre os finalistas e concorreu com essa série de reportagens feitas entre 2018 e 2019 sobre as mortes de civis por militares das Forças Armadas em operações de segurança pública no Brasil.

<https://apublica.org/especial/efeito-colateral>

 

Deepfakes

A repórter Luiza Pollo fez uma ótima introdução a um assunto que ainda vai ser muito comentado nos próximos anos. O deepfake é o método de trocar rostos em vídeos utilizando softwares de inteligência artificial. Já circulam na rede centenas, talvez milhares de memes em que políticos tiveram o rosto inserido em outros contextos. Outro uso controverso tem sido a pornografia: atrizes famosas têm o rosto colocado em vídeos explícitos. O TAB, do UOL, onde a história foi publicada, explica por que isso pode se tornar um problema em breve e por que não se deve acreditar mais em nada sem duvidar, nem vendo.

<https://tab.uol.com.br/edicao/deepfake/>

 

[Andre Deak] Diretor do Liquid Media Lab, professor de Jornalismo e Cinema na ESPM, mestre em Teoria da Comunicação pela ECA-USP e doutorando em Design na FAU-USP.



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