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Miscelânea

1 de outubro de 2020
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EU, OTA, RIO DE HIROSHIMA

Jean-Paul Alègre, Temporal Editora

 

Os ataques nucleares a Hiroshima e a Nagasaki, acontecimentos únicos até hoje na história, já foram registrados e contados tantas vezes e, ainda assim, não parecem existir narrativas ou retratos suficientes que deem conta de sua violência. Jean-Paul Alègre, dramaturgo francês publicado pela primeira vez no Brasil pela Temporal Editora, decidiu somar aos demais seu olhar sobre o acontecimento, mas o fez por um caminho pouco usual. Após uma visita a Hiroshima, em 2012, Alègre encantou-se com as paisagens que encontrou lá, em especial com o rio que corta a cidade, o Otagawa. De volta à França, trabalhou em uma peça cujos temas seriam a produção da bomba nuclear, bem como as particularidades de vidas que foram interrompidas com o bombardeio, e escolheu fazer isso colocando o rio, chamado apenas de “Ota”, como personagem central. 

A centralidade de Ota está justamente em seu ponto de conexão entre as tramas desenhadas. As cenas se alternam entre o núcleo político norte-americano, que começa a construção da bomba após uma carta enviada por Albert Einstein divulgando a possibilidade, e o núcleo japonês, focado em especial na troca de cartas entre dois irmãos: ela, em Hiroshima; ele, em Tóquio. Entre esses dois grupos está Ota, personificado. Numa estrutura dramática que aproxima as tragédias clássicas do teatro moderno, o rio tem papel ora de coro, ora de narrador: comenta os acontecimentos da cena anterior e nos prepara para as cenas que virão. Mas sua função dramática não é apenas conexão. Ota vive a vida da cidade, conhece seus moradores e, por isso, sabe que é alvo. Ainda assim, reconhece-se eterno, mesmo diante do colapso. Suas águas sempre seguem para o mar. 

Em dado momento, a vida dos irmãos e do rio é unida à explosão nuclear calculada com desconcertante frieza. E já não há muito mais o que contar, senão os relatos daqueles que, por estarem longe do marco zero, sobreviveram, ainda que vítimas de amputações ou radioatividade. No final, a peça atinge seu ápice dramático e os atores dão voz às vítimas, criando testemunhos em retalhos que apontam para a violência desmedida que ainda deve ser muito contada – e encenada. 

 

[Raquel Toledo] Professora, pesquisadora e produtora de conteúdo sobre literatura.

 

O VÍRUS COMO FILOSOFIA/A FILOSOFIA COMO VÍRUS: REFLEXÕES DE EMERGÊNCIA SOBRE A COVID-19

Andityas Soares de Moura Costa Matos e Francis García Collado, GLAC Edições

 

Para além da biopolítica, no livro a pandemia é captada de modo a demonstrar a urgência de uma filosofia que enfrente as narrativas vinculadas ao fundamento bioárztquico de nossas sociedades, em que se escancaram as portas do fascismo biotecnológico. A bioarztquia, segundo os autores, é aquele poder microfísico que controla vida e morte por meio da razão médico-farmacêutica neoliberal. 

Entre inúmeros textos que abordam a pandemia hoje, os autores são originais porque desenvolvem um pensamento crítico que não se limita a compreender esse evento apenas enquanto crise sanitário-econômica alheia às políticas e epistemologias que se sustentam na produção de cadáveres. Assim, confrontam as leituras filosóficas da pandemia de pensadores como Agamben, Butler e Preciado, demonstrando que as transformações causadas pelo vírus Sars-CoV-2 deslocam as estruturas tradicionais, apontando para a necessidade de experimentar filosofias que não são emolduráveis em leituras que abandonaram a arte de viver em nome de imperativos médico-políticos assentados em modelos matemáticos e epidemiológicos a serviço do mercado. 

Isso não significa que a morte não seja um fato objetivo, mas que a atual pandemia está produzindo subjetividades que, seja no modelo europeu (soberano), asiático (algorítmico) ou latino-americano (necropolítico), se comprometem com o abandono da vida em nome da mera existência (re)produtiva. 

Ao retomarem a afirmação de Spinoza segundo a qual ainda não sabemos o que pode um corpo, Matos e Collado devolvem ao centro do debate filosófico o que foi retirado do uso comum humano e se perguntam como realizar uma filosofia da vida em vez de uma filosofia sobre a vida.

 

[Joyce Karine de Sá Souza] Doutora em Direito & Justiça pela UFMG e professora universitária.

 

<INTERNET>

 

Novas narrativas da web 

Sites e projetos que merecem seu tempo 

 

Evolução da Terra 

Onde estava localizada sua cidade no planeta Terra há 200 milhões de anos, quando África e América ainda eram um só continente? Nesse site interativo você digita o nome de seu município e escolhe o período em que quer voltar no tempo. Ou simplesmente vai observando como os continentes atuais se formaram e quais animais existiam no globo nesse período. Ótimo para crianças aprenderem sobre movimentos tectônicos terrestres. E quem sabe uma demonstração visual para conversar com terraplanistas…

https://dinosaurpictures.org/ancient-earth#0

 

Ruralômetro 

Um termômetro feito pela equipe de reportagem da ONG Repórter Brasil mede como cada deputado federal atuou em leis importantes para o meio ambiente, indígenas e trabalhadores rurais. Quanto pior o impacto dos projetos que o parlamentar votou ou propôs, mais alta é sua temperatura. A “febre ruralista” indica comportamento negativo nessas áreas. Além da temperatura, os filtros permitem descobrir quais deputados têm multa no Ibama, violaram a lei trabalhista e deixaram de recolher o INSS. Os filtros revelam ainda quais receberam financiamento de empresas autuadas por infrações ambientais ou flagradas por trabalho escravo. Alguns deputados foram à justiça para impedir que seu nome estivesse no Ruralômetro, veja só. Todos os dados usados pela Repórter Brasil são públicos. 

https://ruralometro.reporterbrasil.org.br

 

Veias da cidade 

Sensores baratos, embutidos nos carros, fazem parte de uma experiência do MIT para monitorar o meio ambiente nas cidades. O Senseable City Lab criou o projeto City Veins, que analisa a qualidade do ar, por exemplo, com base em automóveis que circulam pelas ruas. A proposta é organizar de várias formas uma rede de sensores de baixo custo que possam ser espalhados em larga escala pelas cidades, gerando dados abertos e colaborativos, com custos muito menores do que um sistema centralizado teria, seja de desenvolvimento ou manutenção. No site, é possível ver uma animação dos dados gerados em algumas cidades, como Amsterdã, Curitiba e Nova York. 

http://senseable.mit.edu/city-veins/

[Andre Deak] Sócio do Liquid Media Lab, professor de Jornalismo e Cinema da ESPM, mestre em Teoria da Comunicação pela ECA-USP e doutorando em Design na FAU-USP.



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