RESENHAS

Miscelânea

Confira as resenhas dos livros “Agenciamentos Terroristas: Homonacionalismos em tempos queer”, de Jasbir K. Puar, “Café com Caxiri”, de Edgard Zanette e “Corpo lúcido”, de Flávia Santos

AGENCIAMENTOS TERRORISTAS: HOMONACIONALISMO EM TEMPOS QUEER

Jasbir K. Puar, crocodilo edições e Editora da Unicamp

Agenciamentos terroristas, de Jasbir K. Puar, publicado pela crocodilo edições em parceria com a Editora da Unicamp, é um marco nos estudos contemporâneos sobre sexualidade, raça e segurança. Longe de propor uma teoria identitária ou celebratória da diversidade, Puar constrói uma crítica densa e implacável ao modo como os discursos de tolerância sexual operam em consonância com a lógica securitária global.

A autora introduz o conceito de homonacionalismo para descrever como certos sujeitos LGBTI são integrados ao projeto hegemônico ocidental como símbolos de civilização – enquanto outros, identificados pela racialização e pela queerização forçada, são alvos de vigilância, exclusão e violência. Em vez de considerar a teoria queer como um campo marginal aos estudos de segurança, Puar demonstra como sexualidade e gênero são elementos centrais na produção contemporânea da guerra e na construção da figura do inimigo.

Ao longo do livro, Puar mobiliza análises de políticas públicas, imagens de tortura, campanhas de direitos humanos e dinâmicas midiáticas para revelar como o liberalismo sexual pode servir de engrenagem para a máquina de guerra. O texto exige de quem lê disposição para pensar com base em uma crítica sem sujeito estável – em que nem todo queer é radical e nem toda inclusão significa emancipação.

Publicado originalmente em 2007, o livro ganha nova força na edição brasileira. Em tempos de securitização crescente e retomada de discursos moralistas, Agenciamentos terroristas é leitura urgente para quem se recusa a separar política sexual das tecnologias do poder contemporâneo.

 

[Lou Barzaghi] Doutorando em Arquitetura e Urbanismo na Universidade de Campinas (Unicamp), onde desenvolve pesquisa sobre urbanismo e guerra às drogas, com foco em Medellín, Colômbia, e pesquisador do Laboratório de Análise em Segurança Internacional e Tecnologias de monitoramento (LASInTec), da Unifesp.

CAFÉ COM CAXIRI

Edgard Zanette, Labrador

“O caxiri é uma bebida alcoólica de origem indígena que fazemos aqui na Amazônia. Ele pode ser feito de várias maneiras.” Com essa frase, Edgard Zanette nos apresenta o significado e a representação do título do romance Café com caxiri. Se o caxiri, esse produto obtido da fermentação de mandioca, batata-doce ou cana-de-açúcar, que varia em cada agrupamento indígena, se faz como escolha simbólica, não é à toa: o rumo do personagem João, narrador curitibano, de classe proletária – nos termos marxistas – e estudante de Direito passará para o Norte do país, em particular Roraima. Com temáticas sobre luto, desigualdade social, masculinidade e alienação parental, o autor nos guia desde a infância de João, ou talvez “moita”, como gosta de se referir, dado o fato de sentir o despertencimento ao seu redor, indo ao campus da Federal, bares, encontro com mulheres e a doença de sua avó, para terminar no objetivo central: a descoberta sobre sua mãe e suas origens familiares.

Ao experienciar a solidão dos tempos da escola e os percalços com o trabalho exaustivo, explorado da mão de obra de sua avó, João, o moita, o “joão-ninguém”, atravessa a memória como elemento constitutivo que podemos atribuir ao livro de Zanette. É como se a metáfora do Alzheimer fizesse presença no texto, de modo igual a como Antonio Cícero é citado ao decorrer das passagens de Café com caxiri: guardamos nossos pensamentos em lembranças em gavetas, e não em cofres, pois se perde a coisa à vista. Se a doença definha um indivíduo progressivamente, o teor metafísico que se mescla com aspectos sociais é também ponto de partida para elucidar seu rumo para Roraima, para enfrentar seus fantasmas, deixando de lado uma família em conflitos.

O leitor encontrará nesse livro uma prosa intimista, quase que um diário da jornada do herói, tão referenciada na literatura, mas diria que está mais para um romance de formação, pois o narrador e sua maturidade são vistos de forma explícita. Uma obra que conta a história de um garoto pobre, as revelações da masculinidade, o bullying e a fragmentação de um eu que, como menciona o personagem principal, “eu seguia assim, vivendo conforme a necessidade”, ou seja, sobrevivia, tornando Edgard Zanette hábil ao trabalhar com delicadeza e brutalidade a narrativa em questão.

[Lorraine Ramos Assis] Socióloga e crítica literária. 

CORPO LÚCIDO

Flávia Santos, Diadorim

Corpo lúcido apresenta exemplares de sentimentos que se movem em linhas de lucidez sobre um mundo onde o corpo é composto de palavras meticulosamente maduras. “Abacateiro, acataremos o seu ato”, como canta Gilberto Gil. O livro é iniciado na epígrafe de Carlos Drummond de Andrade, Dissoluções, “Escurece, e não me seduz. Tatear sequer uma lâmpada”.

Segundo Davi Arrigucci Jr., Drummond experimenta dramaticamente as contradições que enfrenta: seu lirismo nunca é puro, é mesclado de drama e pensamento, uma espécie de engenho poético associativo, objeto claro em Corpo lúcido, em que as colisões emaranhadas ocorrem no dia a dia, na condição do ar, em nó na garganta, na rinite alérgica, em um amor não correspondido, representado no samba que desce a Rua Augusta, poema “Eu canto”, em que podemos até ouvir a melodia sugerida pelo texto. Caminhamos, então, pela “Avenida São João”, onde alguma coisa acontece quando a cruzamos na primeira hora da tarde e enxergamos dois pombos no parapeito de uma kitnet, pedestres desatentos: “Paulistanos reclamam do metrô parado em cascatas borradas de corpos”. A poeta visita a sensibilidade pela raiz, como transcorrido por seu poema, “Abacateiro”: 

leio muitas páginas por semana

e apenas um exemplar de mim:

contemplo – solitário – abacateiro

Ponte Cidade Jardim

abacates em verde e cinza

apodrecem

na alça, esquina com a ponte

Em Flávia Santos, as periferias, marginalizações de corpos e sentimentos, não existem apenas para depois da ponte, próximas do centro. Estão por toda parte. No atravessar da rua, no desamor, em um samba de Vanzolini. São inúmeras as imagens, sensações, cheiros e angústias em que somos atravessados pela concisão de Corpo lúcido, parecendo que não deveríamos sair de casa sem ele; é uma espécie de mata ciliar urbana, podendo, entretanto, nos proteger em dias cinzas, chuvosos ou ensolarados.

 

[Alessandro Araujo] Autor de Rabada (2024) e Longe de todas aquelas nuvens (2020). Colaborador das revistas Philos, Cult, Bula, da editora Selvageria e do jornal Rascunho. Especialista em Língua Portuguesa e Literatura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie.

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