MISCELÂNEA - Le Monde Diplomatique

MISCELÂNEA

3 de janeiro de 2019
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<LIVROS>

 

SUPER-HOMEM E O ROMANTISMO DE AÇO

Rogério de Campos, Veneta

Em 2018, o Super-Homem completou 80 repetitivos anos como o famoso valentão de cueca por cima das calças que está sempre disposto a restabelecer a ordem entre os terráqueos, descendo a porrada em criminosos e inimigos da liberdade. Lançado de maneira despretensiosa pela revista norte-americana Action Comics pouco antes da Segunda Guerra Mundial, o personagem do planeta Krypton abriu o mercado de super-heróis e inaugurou o modelo comic books, servindo como molde para milhares de outros heróis de gibis.

Sob um novo tsunami que toma especialmente as salas de cinema, Super-Homem e o romantismo de aço atualiza um debate pertinente para a indústria cultural de hoje: o Super-Homem é fascista?

A pergunta – lançada pelo escritor, jornalista e publisher de uma das mais importantes editoras de HQs do Brasil, Rogério de Campos – já havia sido respondida anteriormente de forma afirmativa por outros autores que pesquisam quadrinhos. Mas, dado o momento histórico que vivemos e a relevância do culto aos super-heróis, as respostas se tornam chaves de compreensão política.   

Em uma passagem, citando o jornalista David Hajdu, o livro lembra que as vendas de super-heróis começaram a cair quando ficou claro que os regimes fascistas seriam derrotados. Em outro trecho, o autor recorre à entrevista do roteirista Allan Moore para destacar sua atualidade: “Tenho a impressão que o atual tsunami de filmes de super-heróis norte-americanos não faz nada bem à nossa cultura. É importante notar que em 2016, ano em que a Grã-Bretanha votou no ‘Brexit’ e que a América elegeu o que parece um bufão nazi, seis das doze maiores bilheterias são filmes de super-heróis”.

“É muito esquisita essa coisa do nosso tempo. Os super-heróis foram criados por dois moleques semivirgens que tinham uma vida social péssima, com problema de bullying, e criaram um personagem para o público infantojuvenil na década de 1930, e como isso, hoje, passa a ser a leitura de homens adultos brancos? E isso tomou conta dos cinemas e bate muito com o momento histórico que vivemos”, expôs o autor na conversa que tivemos sobre o livro no oitavo episódio do Guilhotina, o podcast do Le Monde Diplomatique Brasil.

 

[Cristiano Navarro] Editor web do Le Monde Diplomatique Brasil.

POR UMA EDUCAÇÃO CRÍTICA E PARTICIPATIVA

Frei Betto, Rocco

O livro que Frei Betto acaba de lançar não podia ser mais oportuno, graças a seu título: Por uma educação crítica e participativa. Pois não é, exatamente, disso que precisamos?

Constituem o livro depoimentos do autor, histórias, artigos de opinião etc. No atacado, um acurado diagnóstico da situação contemporânea da educação brasileira e algumas propostas. Quase sempre curtos, os textos distribuem-se por seções cujos títulos podem servir de guia para o leitor selecionar o que mais lhe interessa por ocasião da leitura, como “Escola e família”, “Educação e mídia”, “Papel da universidade”, “Educação popular”.

Corajosa é a conceituação de certos termos que, embora frequentes no que se fala e se escreve sobre educação, poucas vezes têm explicitado o sentido em que comparecem ao texto. Exemplo? “Educar é formar pessoas verdadeiramente humanizadas e felizes. Isso significa pessoas com ética, valores, princípios e projetos de vida”. E não é isso mesmo?

Questões de linguagem são constantes na obra de Frei Betto, e ele, aqui, aponta (e lamenta) que nem sempre educadores e educandos falam a mesma linguagem. E sugere que cabe aos educadores tomar providências, ainda que talvez seja inevitável a permanência de sotaques.

Em outra chave, o livro equipara o status de diferentes aprendizagens, apontando a equivocada superioridade de algumas sobre outras – por exemplo, filosofia e culinária. E também amplia a concepção dos agentes educadores, incluindo, ao lado da escola, família, sindicato e Igreja.

Contextualizando suas reflexões no mundo nosso de cada dia, onde vivemos um capitalismo desenfreado, de incentivo ao consumo e de alterações profundas na sociabilidade e na afetividade, Por uma educação crítica e participativa oferece a seus leitores uma bem-vinda lição de o que é, como se faz e para que serve educar as pessoas…

Pra que serve? Com certeza, para viver – de forma crítica, participativa e feliz – “nosso breve período de vida a bordo desta nave espacial chamada planeta Terra”, como, com tanta beleza, nos lembra o autor.

 

[Marisa Lajolo] Escritora, ensaísta e professora de Literatura.

 

INTERNET

Novas narrativas da web

Sites e projetos que merecem seu tempo

O fim de uma facção

Jornalistas do Intercept Brasil investigaram as mudanças de comando nas principais favelas do Rio de Janeiro de 2017. Por meio de mapas e dados que produziram, descobriram que uma das mais poderosas organizações criminosas do Brasil, que faturava milhões de reais e teve em suas fileiras mitos do crime como Nem da Rocinha, perdeu quase tudo no período de um ano. Traições, prisões e batalhas perdidas explicam um pouco as razões do declínio da ADA, os Amigos dos Amigos.

 

The Correspondent

“As notícias que são produzidas nos deixam mais cínicos, divididos e menos informados. Queremos mudar isso, com você.” Com esse chamado e uma equipe de experientes jornalistas internacionais, uma campanha de financiamento colaborativo levantou mais de US$ 2,5 milhões para lançar um portal. Não, você não leu errado: 2,5 milhões de dólares, arrecadados com mais de 45 mil pessoas, em mais de cem países, para o primeiro ano de uma plataforma de unbreaking news (uma brincadeira com breaking news, as notícias de última hora produzidas no modelo industrial que as redações se acostumaram a trabalhar). A proposta deles é abandonar o modelo fast-food de notícias, sem anúncios. #acompanhar

 

Uma por uma

Vencedora do prêmio Vladimir Herzog Multimídia 2018, essa grande reportagem do portal NE10 fala do feminicídio em Pernambuco. Foram 204 mulheres assassinadas de janeiro a outubro de 2018, 64 delas mortas porque eram mulheres. A investigação levantou a história de cada uma delas, para mostrar que não se trata de números, mas de vidas. Construída de maneira impecável com áudios, fotografias, vídeos e textos, é um belo exemplo do que pode ser considerado uma boa execução de reportagem multimídia hoje em dia.

 

[Andre Deak] Diretor do Liquid Media Lab, professor de Jornalismo da ESPM, mestre em Teoria da Comunicação pela ECA-USP e doutorando em Design na FAU-USP.



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