Resenhas de livros do mês de Julho - Le Monde Diplomatique Brasil

Resenhas

Miscelânia

2 de julho de 2019
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Respondendo à pergunta “Contra quem, de que forma e onde”, o autor nos dá indícios da maneira pela qual o caso se tornou central na discussão dos limites da política de pacificação. Para tanto, mobiliza a própria forma como se expõem os variados discursos e como as narrativas sobre o caso ganham a sensibilidade da insensível ordem midiática, mantendo em seu cerne a violência institucional. A controvérsia, resgatada pelo autor, é só um dos meios pelos quais a violência radical se expressa ideologicamente.

 

<LIVROS>

CADÊ O AMARILDO? O DESAPARECIMENTO DO PEDREIRO E O CASO DAS UPPS

Leandro Resende, Baioneta Editora

No meio de tantas obras que buscam interpretar a situação penosa de nossos dias, o livro se distingue pela profundidade e clareza na demonstração de uma situação de completa normalização da violência institucional. A selvageria habitual, como forma de controle, ocorre no Brasil por meio de diversos dispositivos, dos quais o mais conhecido é a militarização da polícia, apontada no livro. O jornalista e sociólogo Leandro Resende não só desmistifica o consenso acrítico que se formou em torno das UPPs, como ainda demonstra a ruptura e quebra desse consenso a partir do desaparecimento de Amarildo.

Resende revela, com um passo a passo interessante, os desdobramentos do caso na sequência da quebra de sua singularização, isto é, quando o caso deixa de ser apenas o de mais um pobre desaparecido para tornar-se a simbolização de uma luta que ultrapassaria as fronteiras do Rio de Janeiro. Um dos motivos cruciais, sem dúvida, foram os levantes de junho de 2013, que colocaram em xeque as diversas pós-políticas administrativas e gestionárias do período que chegava ao fim, o que, por sua vez, colocaria em xeque as próprias UPPs.

Respondendo à pergunta “Contra quem, de que forma e onde”, o autor nos dá indícios da maneira pela qual o caso se tornou central na discussão dos limites da política de pacificação. Para tanto, mobiliza a própria forma como se expõem os variados discursos e como as narrativas sobre o caso ganham a sensibilidade da insensível ordem midiática, mantendo em seu cerne a violência institucional. A controvérsia, resgatada pelo autor, é só um dos meios pelos quais a violência radical se expressa ideologicamente.

Para além do próprio caso, o livro marca-se pela tentativa de esmiuçar os diversos argumentos e contra-argumentos lançados na construção e desdobramento do acontecimento em torno de Amarildo. Com isso, o autor não apenas evidencia os pressupostos político-ideológicos dos atores, como ainda torna claros os mecanismos utilizados por eles para diminuir o problema e isentar o poder governamental, ao naturalizar a violência no país. Ambos os polos em choque são sustentados pela brutalidade da vida militarizada imposta aos mais pobres por meio da ideologia do trabalho.

 

[Douglas Rodrigues Barros] Escritor e estudante de Filosofia, acabou de publicar, pela Editora Hedra, Lugar de negro, lugar de branco? Esboço para uma crítica à metafísica racial.

 

 

TEMPOS DE DIZER, TEMPOS DE ESCUTAR: TESTEMUNHOS DE MULHERES NO BRASIL E NA ARGENTINA

Danielle Tega, Intermeios/Fapesp

Desafiando a história recente e persistente, Danielle Tega nos brinda com uma pesquisa acerca dos testemunhos de mulheres militantes que vivenciaram os horrores das ditaduras militares no Brasil e na Argentina. Obra sensível e perturbadora, dura como aço e delicada como asas de borboleta, tal como afirmava Diego Rivera sobre as pinturas de Frida Kahlo, Tempos de dizer, tempos de escutar costura memória, gênero e subjetividade em sua narrativa comparativa e triangular. Com recursos teóricos da sociologia crítica, do pensamento feminista e da psicanálise, o livro leva o leitor a uma espécie de “experiência do choque”, como poderia dizer Walter Benjamin, um silêncio demasiadamente ruidoso, que, no entanto, reeduca e recoloca subjetividades silenciadas em condição de atuar na transformação política da história.

Não há nesse livro um estudo com base em entrevistas; na realidade, sua matéria-prima são as agentes sociais de carne e osso que escolheram tornar públicos seus testemunhos e, assim, transmitir e reinterpretar suas experiências biográficas, seja em espaços de escrita (livros e autobiografias), seja mediante a criação fílmica (ficção e documentário). Nas narrativas estudadas, a autora examina o significado do conjunto de vozes, posições e motivações das enunciadoras, os tempos verbais adotados, o estilo e as estratégias de cada registro, e ampara-se metodologicamente na dialética entre forma e conteúdo. Ao longo do doloroso e necessário processo de transmissão, situado no limiar da “repetição traumática” e do “imperativo da sobrevivência”, é possível escutar alguns elementos da reconstituição subjetiva de quem recorda: solidão, violência sexual, sofrimento, humilhação, afeto, acolhimento e, por fim, a relação com o corpo e com os filhos e filhas.

Em um momento em que detratores da memória social festejam regimes autoritários com nostalgia, exaltam torturadores sem nenhum constrangimento e atacam diuturnamente o movimento feminista, a obra aparece como uma afronta aos discursos dos vencedores. Como afirmava Rosa Luxemburgo, não somos nada sem derrotas, “pois cada uma contribuiu para nossa força e nosso entendimento”. Nessa escuta e nessa análise do passado encontra-se, portanto, uma promessa de (re)construção do presente.

 

[Deni Alfaro Rubbo] Professor de Ciência Política da Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul (UEMS).

 

 

<INTERNET>

 

Novas narrativas da web

Sites e projetos que merecem seu tempo

 

Mapa queer

Mapeamentos ajudam a dar visibilidade: se não está no mapa, talvez não exista. Mapas que georreferenciam histórias buscam inserir no mundo concreto – naquela rua, naquela esquina – coisas que aconteceram com pessoas, memórias, afetos. O projeto Queering the Map insere depoimentos colaborativos em regiões do mundo todo, com maior número de participações na Europa e nos Estados Unidos. “A intenção do projeto é documentar espaços de memória queer, de parque a garagens, estacionamentos, momentos queer, onde quer que tenham ocorrido.”

<https://queeringthemap.com>

 

Tinder de monstros

Algoritmos discriminam – não há outra forma de eles funcionarem senão separando conteúdos de acordo com o que pensam que te interessa mais, ou seja, discriminando conteúdos. Monstermatch é uma espécie de Tinder (o famoso app de encontrar pessoas) com monstros que te mostra, no jogo, como o algoritmo funciona. Por exemplo: se você escolhe mais pessoas de determinado tipo, é esse tipo que mais vai aparecer para você. O que você conversa no app também é monitorado, com o pretexto de te conhecer melhor e te colocar em contato com perfis similares, ou que topam seu tipo de cantada.

<https://monstermatch.hiddenswitch.com>

 

BTS World

A banda mais famosa do mundo – talvez você não saiba – é a sul-coreana BTS (Bangtan Boys), surgida em 2013, sucesso mundial absoluto entre jovens que ouvem k-pop. Alguns de seus vídeos têm quase 1 bilhão de views no YouTube. Um bilhão, isso mesmo. Eles lançaram um game para celular em que você pode ser o gerente da banda no início da carreira deles, tomando decisões que levem ao sucesso do grupo. Fizeram, para isso, conteúdo original, como músicas, imagens e até mesmo simulares de conversas com os sete integrantes da banda. Uma forma criativa de apresentar novos conteúdos, com uma narrativa envolvente.

<https://btsw.netmarble.com>

 

[Andre Deak] Diretor do Liquid Media Lab, professor de Jornalismo e Cinema da ESPM, mestre em Teoria da Comunicação pela ECA-USP e doutorando em Design na FAU-USP.



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