Muito mais que uma pandemia - Le Monde Diplomatique

Gripe suína

Muito mais que uma pandemia

Edição - 23 | México
por Ignacio Ramonet
5 de junho de 2009
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As novas técnicas de produção e empresas como a multinacional Smithfield Foods, com filiais no México, confinando milhões de porcos em enormes chiqueiros, são consideradas por epidemiologistas uma verdadeira bomba-relógio, facilitando a disseminação e mutação de novos vírus em larga escala

Na margem texana do largo vale do rio Grande, a dois passos da fronteira com o México, situa-se Harlingen. Nessa pequena e aprazível cidade americana, no dia 5 de maio passado, faleceu Judy Trunnell, jovem professora de 33 anos que acabara de dar à luz uma menina radiante e saudável. “Era uma pessoa maravilhosa que se dedicava à educação de crianças deficientes”, declararam seus familiares e amigos no funeral.1

Quis o destino que Judy fosse a primeira americana a falecer com o vírus da nova gripe, chamada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) de A (H1N1). Um nome asséptico para evitar o uso de “gripe mexicana”, que contraria as autoridades daquele país, ou “gripe suína”, que incomoda os grandes industriais da carne de porco.

Sem se deixar distrair por essa astúcia terminológica, o marido de Judy, Steven Trunnell, interpôs perante um tribunal, no dia 11 de maio passado, uma ação contra a mais importante empresa produtora de carne suína do mundo: a Smithfield Foods Inc. Essa multinacional possui uma filial mexicana, a Granjas Carroll, que conta com gigantescos criadouros de porcos próximo de um pequeno povoado de 3 mil habitantes, La Gloria, no estado mexicano de Veracruz.

Ação de perdas e danos

O advogado de Steven Trunnell, Marc Rosenthal, revelou que a companhia possui mais de um milhão de porcos amontoados em aproximadamente 200 chiqueiros situados no vale de Perote. De acordo com ele, os habitantes locais queixam-se do cheiro fétido e das péssimas condições de higiene do local. E Marc Rosenthal2 se propôs a denunciar o horror dos insalubres criadouros industriais de porcos e apresentar provas de que a gripe A (H1N1) pode ter se originado dessas imundas pocilgas de La Gloria. A ação é por perdas e danos “pela morte injusta de Judy, provocada pela Smithfield Foods” e tem o valor de “aproximadamente US$ 1 bilhão”.

Embora a empresa Smithfield Foods negue qualquer relação entre suas instalações e a aparição de um foco da nova gripe3, um relatório recente da organização não-governamental GRAIN4 parece confirmá-lo. No documento, os especialistas alertam que o aumento em grande escala de chiqueiros industriais criou as condições perfeitas para o surgimento e disseminação de novas formas de gripe altamente virulentas. Tais criadouros constituem bombas-relógio prontas para desencadear epidemias mundiais. “A alta concentração de enormes quantidades de animais apertados em muito pouco espaço facilita a rápida transmissão e combinação dos vírus”, declararam, em 2006, pesquisadores do Instituto Nacional de Saúde (NIH) dos Estados Unidos5.

Três anos antes, em março de 2003, a revista Science6 já havia advertido que a gripe suína estava evoluindo de forma rápida devido ao aumento do tamanho dos criadouros industriais e do uso generalizado de antibióticos e vacinas. Os virologistas alertavam precisamente o México e os Estados Unidos acerca do perigoso coquetel virótico que estava por vir7.“Parece que depois de anos de estabilidade, o vírus da gripe suína na América do Norte se acha em uma fase de rápida evolução e a cada ano produz novas variantes”, apontaram.

Atribuíam a fulgurante mutação dos vírus a duas causas: o confinamento em criadouros insalubres e a prática de vacinar as fêmeas, que colaborava para a seleção de novos vírus mutantes. Segundo os especialistas, esses dois fatores “aumentam a probabilidade de que surja um novo vírus transmissível entre humanos”. Seja através das fezes, dos alimentos, da água ou até mesmo das botas dos trabalhadores, o vírus se disseminaria de modo incontrolável.

Um berço para novas pandemias

Nesse mesmo artigo, o dr. Christopher Olsen, virologista molecular da Faculdade de Veterinária da Universidade de Wisconsin, atreveu-se a profetizar: “Agora devemos buscar no México a granja onde aparecerá a próxima pandemia8.” Tudo indica que essa granja foi localizada. E que o inferno da atual epidemia começou em La Gloria, a pouca distância dos criadouros de porcos da empresa Smithfield.

Gigante produtor de carne suína, a Smithfield Foods Inc. é uma das maiores empresas agroalimentícias do planeta e a número um, em escala mundial, na produção de carne de porco. Está sediada na cidade de Smithfield, Virginia, e possui filiais em nove países.

Com um faturamento de quase US$ 12 bilhões, a Smithfield Foods é a terceira companhia americana mais poderosa na produção de alimentos, depois da Archer Daniels Midland e da Tyson Foods. Em 2008, ocupou a 222a posição entre as 500 empresas mais importantes do mundo, segundo a revista Fortune9. Porém esta companhia, que abastece as cadeias de fastfood como McDonald’s e Subway, foi acusada com frequência de contaminar a água, o solo e o ar, e de não respeitar os direitos de seus trabalhadores. Em 1997, por exemplo, a Smithfield Foods foi multada em US$ 12,3 milhões, por violar a Lei de Águas Potáveis10. Abusos como esse foram duramente denunciados pela ONG Human Rights Watch em seu relatório de 2005, Sangue, suor e medo. Direitos dos trabalhadores nos frigoríficos e avícolas dos Estados Unidos11.

Para evitar acusações, a Smithfield Foods transferiu parte de seus criadouros para países como México, Romênia e Polônia, em que as leis em favor do meio ambiente são mais relaxadas ou mesmo inexistentes, e onde alguns políticos estão dispostos a deixar-se corromper.12 Assim, em 1994, através de sua filial Granjas Carroll, a Smithfield fixou-se na remota zona rural de La Gloria, aproveitando o Tratado de Livre Comércio entre México, Estados Unidos e Canadá (Nafta).

Lá, os porcos vivem presos em jaulas que impedem seu movimento, no interior de barracas com ventilação deficiente e iluminação constante para estimular seu crescimento. São engordados até alcançar 120 kg, em criadouros rodeados por montanhas de excrementos e sujeira.

A partir de 2004, a contaminação do ambiente e seu impacto na saúde dos habitantes vizinhos levaram ao surgimento de um movimento ecologista. Muitos habitantes de La Gloria e de uma dezena de comunidades que convivem há anos com essa fetidez e respiram dia e noite um ar irrespirável se uniram para protestar contra a expansão da multinacional. Organizaram assembleias e marchas. A empresa Granjas Carroll respondeu reprimindo-os e processando-os por difamação.

Vários ativistas foram detidos e obrigados a pagar fiança para sair da prisão.

Um correspondente do jornal A Jornada13, Andrés Timoteo, deslocou-se até o povoado para descrever o ambiente: “Nuvens de moscas emanam das lagoas de oxidação, onde a empresa Gra
njas Carroll despeja os dejetos fecais de suas granjas de porcos, e a contaminação a céu aberto já gerou uma epidemia de infecções respiratórias. O vetor epidêmico residiria nas nuvens de moscas geradas nas granjas de porcos e nas lagoas de oxidação”. Os habitantes atribuem o aparecimento de infecções a essa poluição e ao envenenamento das águas e da atmosfera.

Outro repórter, Jorge Morales Vázquez, narrou14 como os moradores protestam há anos contra a expansão indiscriminada da empresa criadora de porcos. Eles já sofreram perseguição policial, coerção e ameaças. Durante sua investigação, o jornalista constatou “o fétido odor, proveniente das granjas de porcos, que se respira durante todo o dia na pequena comunidade de apenas 3 mil habitantes, assim como a existência de enxames de moscas que infestam os lares das famílias”.

Verificou, também, a proximidade das “lagoas de oxidação” responsáveis pelo nauseabundo fedor que se espalha pela região e onde os dejetos fecais dos porcos são submetidos a um processo de decomposição, convertendo-se em gás metano. O repórter pôde observar também os chamados “biodigestores”, fossas cobertas com uma porta de metal, onde são jogados os cadáveres de porcos enfermos ou mortos por brigas nos chiqueiros. E relatou a suspeita de que haja problemas de infiltração nos lençóis freáticos.

O controle epidemiológico já alertava

“Nesses buracos cavados no solo, os cadáveres se decompõem, o que representa uma fonte a mais de contaminação e proliferação de moscas do tamanho de uma abelha, chamadas de muerteras, as quais, levadas pelo vento, viajam em enxames até La Gloria e invadem as residências”, afirmou. Muitas famílias declararam que foram afetadas por frequentes dores de cabeça, enfermidades gastrointestinais e das vias respiratórias, e sofreram com diarreia, tosse, infecções de garganta, vômitos e febre.

Nesse local, presumivelmente o vírus A (H1N1) passou dos porcos para os humanos em algum momento entre novembro de 2008 e janeiro de 2009. E deve ter começado a infectar uma quantidade maior de pessoas em meados de março.15

As autoridades mexicanas não divulgaram a informação, mas, no final do ano passado e início de 2009, o número de enfermos em La Gloria era tão alto que vários organismos internacionais de saúde começaram a preocupar-se com a situação. Em 6 de abril passado – ou seja, 18 dias antes de o governo mexicano alertar a OMS sobre o aparecimento de um novo vírus de gripe humana – a Biosurveillance, que pertence ao Veratect16, centro do governo americano de informações epidemiológicas, informou que em La Gloria estavam ocorrendo uma série de estranhos casos de “infecções respiratórias” similares “a bronquite pneumônica, com febre e forte tosse” e que “60% dos habitantes” padeciam de uma nova e atípica enfermidade.

Não há dúvida de que o México logo soube que um foco infeccioso grave de uma gripe desconhecida havia sido produzido no vale de Perote e que, sem que os tratamentos habituais pudessem impedi-lo, o mal se difundia rapidamente através do país. Mas o governo não deu o alerta nem mobilizou de fato seus serviços de saúde e seus pesquisadores. Tampouco informou imediatamente a OMS sobre a gravidade de uma situação que estava fugindo de controle.

Por que o Estado mexicano agiu de modo tão irresponsável? Tudo indica que a causa principal de tal atitude foi diplomática. Tratava-se de evitar a qualquer custo que, por razões de segurança sanitária, a visita oficial de Barack Obama, prevista para os dias 16 e 17 de abril, fosse adiada. Para Felipe Calderón, cuja eleição em julho de 2006 foi muito controversa, a visita do mandatário americano era uma consagração definitiva. Nada, nem mesmo a ameaça de um novo vírus devastador, devia adiá-la.

Prova de como a epidemia já estava avançada nessa ocasião é que ela havia chegado até o próprio Palácio Nacional e afetava o círculo próximo de Felipe Calderón. Logo depois, um assessor do secretário americano de Energia, Steven Chu, que havia ido ao México para preparar a viagem do presidente Obama, foi contaminado pela nova enfermidade. O porta-voz da Casa Branca, Robert Gibbs, reconheceu que a esposa, o filho e o sobrinho do funcionário também apresentavam sintomas da nova gripe.17

Ante a magnitude que tomava a pandemia, os serviços mexicanos de saúde decidiram, por fim, agir. Enviaram amostras médicas tomadas de alguns enfermos de La Gloria para laboratórios dos Estados Unidos e do Canadá. Foi o laboratório nacional de microbiologia da Agência de Saúde Pública do Canadá, em Winnipeg, que detectou o novo vírus, contendo elementos da gripe aviária, da suína e da humana combinados. O resultado saiu em 23 de abril, a partir de uma amostra tomada de um menino de cinco anos que havia ficado doente em março passado.

Esse menino, hoje curado, foi identificado como o primeiro ser humano – ou “paciente zero” – infectado pela virulenta gripe suína. Ele se chama Édgar Hernández, e sua história, narrada pelo The New York Times18, tornou-o famoso no mundo inteiro. Édgar relatou os severos sintomas que sofreu em La Gloria: ardência na cabeça, tosse, dores de barriga e garganta e falta de apetite19.

O Tamiflu, um bom negócio

Segundo a revista Science, estima-se que no dia 23 de abril, data em que o México tornou pública a pandemia, já havia entre 6 mil e 32 mil casos de gripe suína no país. Muito mais que as cifras confirmadas pelos laboratórios.

Até o momento, há pouca evidência de que este surto da gripe A (H1N1) seja mais perigoso que as infecções rotineiras, que a cada ano causam a morte de 250 mil a 500 mil pessoas no planeta. Porém, segundo a Science, o vírus A (H1N1) parece muito mais contagioso que o da gripe comum. A OMS, por sua vez, alertou que ele ainda pode sofrer mutação, tornar-se muito mais virulento e causar uma pandemia que poderia propagar-se com uma intensidade três vezes maior. A organização assinala que “a gravidade desta gripe está influenciada pela tendência pandêmica de dar a volta ao mundo pelo menos duas ou três vezes”. Atualmente, no hemisfério sul, inicia-se o período habitual de gripe e ali o vírus A (H1N1) poderia combinar-se com medicamentos antivirais e proceder a uma nova mutação, para regressar ao hemisfério norte em outubro próximo, em condições muito mais virulentas, como ocorreu com a terrível “gripe espanhola”, em 1918. Embora tudo indique que a nova epidemia será menos severa que a de 1918, alguns especialistas estimam que seja tão letal
como a de 1957 – a “gripe asiática” –, que deixou mais de 2 milhões de mortos.

Para proteger seus cidadãos, os governantes estão adquirindo quantidades significativas do medicamento antiviral Tamiflu, um dos poucos tratamentos eficazes para combater o vírus mutante H1N1. Dadas as circunstâncias, a história do Tamiflu não deixa de ser sugestiva. Ele foi descoberto pela empresa biofarmacêutica Gileade Sciences Inc, com sede em Foster City, Califórnia. A Gileade cedeu os direitos de fabricação e de comercialização à multinacional suíça Roche, que lhe repassa 22% dos lucros anuais pelas vendas do Tamiflu.

É interessante notar que Donald Rumsfeld, ex-secretário de Defesa do governo George W. Bush, foi presidente da Gileade Sciences Inc. desde 3 de dezembro de 1997 até assumir seu cargo no Pentágono em 2001, e conserva um importante lote de ações da companhia.

Quando assumiu seu cargo no governo, uma das primeiras medidas de Rumsfeld foi declarar o Tamiflu de uso obrigatório nas Forças Armadas.20 Os lucros da Roche e da Gileade (e, por conseguinte, o enriquecimento pessoal de Rumsfeld) dispararam. As ações da empresa também foram altamente beneficiadas na Bolsa, a partir de 2003, quando surgiram na Ásia as ameaças de epidemias do Sintoma Respiratório Agudo Severo (SRAS) e do vírus H5N1 da gripe aviária. Fascinados pela teoria de complô, alguns chegaram a deduzir que o detestável Rumsfeld deveria estar implicado, de uma maneira ou de outra, no surgimento dessas epidemias e, em particular, no aparecimento do novo vírus mutante A (H1N1).

Isso é pouco provável. A principal responsabilidade desta grave ameaça sanitária reside na industrialização delirante da produção pecuária. O impiedoso sistema de criação intensiva transformou radicalmente o setor pecuário. Hoje se parece mais com a indústria petroquímica do que com a feliz granja familiar ainda descrita nos livros escolares.21 Em 1965, por exemplo, havia nos Estados Unidos 53 milhões de porcos em mais de um milhão de granjas. Agora, existem 65 milhões de porcos concentrados em apenas 65 mil locais de exploração. Em um curto espaço de tempo passou-se dos chiqueiros caseiros aos infernos “concentradores”, nos quais se amontoam dezenas de milhares de animais que, em meio à fetidez e sob calor asfixiante, trocam vírus patogênicos com grande intensidade.

Esse tipo de pecuária desumana, intensiva e produtivista, que desanimaliza o animal e o considera como mero produto industrial, um simples material que dá carne e rende lucros financeiros, é o culpado pela pandemia em curso.22 Quando, pelos próprios excessos de empresários insensatos, esse depravado modelo desmorona, o desastre sanitário ameaça afetar todos nós.

 

*Ignacio Ramonet é jornalista, sociólogo e diretor da versão espanhola de Le Monde Diplomatique.



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