REPORTAGEM

Música clássica, do centro à periferia

Novos espaços reconfiguram a cena de música de concerto em São Paulo, tensionando sua associação histórica à elite na tentativa de democratizar o acesso e dialogar com diferentes públicos e linguagens artísticas

À margem da Estrada das Lágrimas, no limite de Heliópolis, zona sul de São Paulo, está instalada a primeira sala de concertos situada dentro de uma favela no mundo. Inaugurado em novembro do ano passado, o Teatro Baccarelli passa a integrar um circuito rico e expansivo de música clássica na cidade, que vem se reconfigurando na medida em que a tradição entra em choque com as demandas contemporâneas da cultura musical. 

Edilson Venturelli, maestro e CEO do Instituto Baccarelli, resume a missão do teatro: quebrar preconceitos. Por um lado, provar para o poder público que é possível levar infraestrutura cultural robusta para a periferia com o mesmo nível de investimento e qualidade que nas áreas centrais: “Não é preciso construir teatrinho, pode construir teatrão”, diz Venturelli, que escolheu a dedo o modelo das 550 poltronas coloridas que preenchem a sala, cujo projeto acústico foi realizado pelo mesmo escritório responsável pela Sala São Paulo e pelo Teatro Cultura Artística, de José Augusto Nepomuceno. 

Por outro lado, mostrar para a vizinhança “o quanto eles são cidadãos e podem se apropriar de tudo que o Estado oferece como cultura.” Em suma, romper com os códigos que inscreveram a música de concerto no imaginário social como prática de elite. “Inaugurar uma sala de concerto neste território é mostrar para o mundo que música clássica é coisa de favela”, defende o maestro, que destaca como muitos dos músicos que integram as orquestras sinfônicas que o estado de São Paulo exporta para o mundo saíram de condições similares às dos 1.650 alunos de diferentes faixas etárias atendidos pelo instituto, que oferece educação musical a estudantes de escolas públicas da região desde 1996, quando o maestro e filantropo Silvio Baccarelli sensibilizou-se com um incêndio que tomou conta da comunidade e decidiu agir.

Teatro Baccarelli Crédito: Carolina Azevedo

Hoje, o instituto mantém quatro grupos artísticos: o Coral Heliópolis, a Orquestra Juvenil Heliópolis, o Coral Jovem Heliópolis e a Orquestra Sinfônica Heliópolis, que, regida pelo maestro Isaac Karabtchevsky, já passou pelos palcos do Theatro Municipal, do Cultura Artística e do Rock in Rio, entre outros. A ênfase na educação musical de excelência levou jovens músicos do instituto tão longe quanto as orquestras de Lyon, na França; Lucerne, na Suíça; Santiago, no Chile; e Copenhague, na Dinamarca. Além de atender crianças a partir dos 2 anos de idade no turno contrário à escola, com serviço de ônibus atendendo às casas dos alunos, o instituto oferece café da manhã, almoço e lanche em um refeitório gerido pelo Instituto Capim Santo, que também promove emprego e capacitação profissional de mulheres da comunidade. 

Apesar de se destacar pelo trabalho social que realiza junto à favela de Heliópolis, o Baccarelli não trabalha sozinho na formação de músicos de orquestra em São Paulo, dividindo espaço com demais instituições públicas que dão forma às sinfonias da cidade. Instituições e programas públicos como a Escola de Música do Estado de São Paulo (EMESP Tom Jobim), o Conservatório de Tatuí, o Projeto Guri, as universidades estaduais paulistas (USP, Unicamp e Unesp) e a Academia da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp) são os pilares que sustentam a programação musical do município. 

Camila Fresca, curadora da Estação Motiva Cultural, espaço ligado à Sala São Paulo, destaca a quantidade de profissionais de alta competência formados por essas instituições todos os anos, problematizando que “o tanto de alunos muito bons e aptos a integrar orquestras é maior do que as vagas que podem absorver esses músicos”. Com o intuito de auxiliar jovens artistas em busca de inserção profissional, Fresca advoga por um circuito de música de câmara – isto é, de pequenos grupos de instrumentistas – mais robusto. Essa perspectiva orienta sua curadoria da sala da Estação Motiva Cultural, cuja escala mais íntima, em contraste com a Sala São Paulo, favorece essas formações. 

Sala São Paulo
Crédito: Alberto Ricci

Inaugurada em janeiro de 2025 no histórico saguão da Estação Júlio Prestes, no centro da cidade, a Estação Motiva Cultural abriga diversas manifestações artísticas, buscando absorver aquilo que a programação tradicional de concertos da sala vizinha não costuma acolher. Seguindo uma tendência que se espalha pelas salas de concerto da cidade, desde o Baccarelli até o Cultura Artística, a vocação multi-artes da curadoria de Fresca abraça séries de concerto infantil, sonorização de filmes, apresentações de poesia e de dança e espetáculos de música popular. 

Ela destaca, para a temporada de 2026, a sonorização inédita do filme Limite (1931), de Mário Peixoto, clássico do cinema mudo brasileiro cuja cópia restaurada ganhará trilha sonora composta por Leonardo Martinelli e interpretada pela orquestra de cordas do Percurso Ensemble. Também chama atenção para as apresentações de jazz realizadas pela Banda Mantiqueira, que transformam a plateia da Estação em salão com serviço de bar, embalado por versões de compositores brasileiros como Pixinguinha, Luiz Gonzaga, Dorival Caymmi e Tom Jobim, além de um repertório clássico de jazz norte-americano. 

Jazz na Estação
Crédito: Livian Alves

Fresca enfatiza a importância do modelo público de educação musical profissional que as instituições do estado de São Paulo oferecem na viabilização de uma programação de música de concerto oferecida a preços populares ou, com frequência, gratuitamente. “Ir a um concerto hoje é igual ou mais barato do que ir ao cinema. Temos uma educação musical de ponta que se reflete em uma oferta variada de concertos de altíssimo nível. Na Estação temos a missão de quebrar com a impressão de que os concertos de música clássica acontecem em um lugar empoeirado e esvaziado. Não é verdade: temos um público jovem variado e amplo. Vá aos concertos de música clássica e veja que eles estão sempre cheios, quando não lotados.”

Por mais que a oferta seja vasta e as políticas de gratuidade se façam presentes em todos os espaços de concerto consultados pela reportagem, persiste a impressão popular de que a música de concerto – que é frequentemente denominada “clássica” ou “erudita”, termos intencionalmente evitados pelos curadores e maestros entrevistados – ocupa um espaço distinto dos demais ritmos que embalam a cidade, em um pedestal que está ao alcance mas não se ousa tocar. 

Cenas descritas por Venturelli durante as sessões de abertura do teatro são representativas do problema. Se, por um lado, não fosse surpresa que a maioria das crianças que se apresentavam ali estivessem entrando em um teatro pela primeira vez, o maestro descreve com emoção o momento em que recebeu um senhor com lágrimas nos olhos no foyer do Baccarelli: “Ele dizia que há décadas andava no centro de São Paulo, olhava para o Theatro Municipal e morria de vontade de entrar, mas não tinha coragem. Agora na nossa quebrada tem um teatro elegante que vai mostrar para ele que pode entrar no Municipal.” 

Conforme o exemplo da Estação Motiva Cultural, a diversificação do conteúdo é uma solução que vem sendo experimentada pelos espaços. Ao intercalar concertos tradicionais com shows populares, eles apostam na migração de públicos entre estilos, com o intuito de “diluir as fronteiras e fazer com que todo mundo se sinta à vontade”, nas palavras de Fresca. Quando o Cultura Artística abriu sua programação, em janeiro de 2025, com um show de música eletrônica experimental conduzido por Patti Smith, o diretor executivo Frederico Lohmann foi elogiado: “é uma boa ideia porque você traz um público novo e com o tempo esse público vai para a música clássica”. Mas sua aposta tinha via de mão dupla: “eu esperava que o nosso público de música clássica fosse também para a Patti Smith, o que aconteceu naturalmente”.

No entanto, o espaço centenário vai além da música em sua experimentação, tendo abrigado, ao longo do ano passado, festival de poesia, peças de teatro, lançamentos de livros, sessões de cinema e outros eventos. Lohmann descreve o esforço como um resgate da aspiração original do Cultura Artística, que, fundado em 1912, foi palco de expressões e discussões multi-artísticas ligadas à Semana de Arte Moderna de 1922. Entre os projetos deste ano para o teatro, Lohmann destaca a ambição de transformar seu foyer em um espaço de exposições de artes plásticas. 

Este movimento de abertura condiz com o projeto original do prédio do Cultura Artística, projetado na década de 1940 pelo arquiteto Rino Levi. Se a monumentalidade de um espaço tradicional como o Municipal afasta transeuntes curiosos, a fachada de vidro que se abre da rua Nestor Pestana à praça Roosevelt sob o painel de Di Cavalcanti pretendia abraçar o centro de São Paulo. 

Theatro Municipal
Crédito: Wilfredor/Wikimedia

“Temos a sorte de estar nesse prédio pensado num momento muito especial de abertura da sociedade, de criação de uma utopia modernista”, define Lohmann, expressando a pretensão de honrar Levi e garantir que o espaço “tenha um impacto no entorno”. Além da fachada central, o teatro é composto por espaços para lojas nas laterais, cujo objetivo era o de manter o quarteirão vivo mesmo enquanto não aconteciam espetáculos. No final da década de 1970, o teatro foi murado e as lojas deixaram de existir, em um movimento que refletiu a tendência de fechamento em relação à rua pela qual passou o centro de São Paulo.

No novo projeto, o teatro ocupa as laterais outra vez com a livraria Megafauna, do lado direito, e com um espaço flexível chamado de “estúdio”, do lado esquerdo, que se abre para a calçada e já abrigou apresentações e leituras de poesia desde a reabertura. A evolução do prédio, marcada pelo desejo de manter seu entorno vivo, reflete o momento pulsante que a cena da música de concerto vive em São Paulo, procurando democratizar seu acesso e dialogar com diferentes públicos e linguagens artísticas. 

A fachada do Baccarelli se inspira na do Cultura Artística ao revestir-se de vidro e manter-se sempre aberta para a comunidade. Venturelli é enfático ao revelar que, em seu escritório, faz questão de manter as cortinas abertas. Diz que mirar a favela faz com que nunca se esqueça o porquê de estar trabalhando: “proporcionar cultura para essa comunidade de 200 mil pessoas e colocar Heliópolis na cena cultural da cidade, do estado, do Brasil e do mundo”.

O momento pulsante também lembra que a difusão de eventos artísticos de qualidade é fruto do trabalho árduo e custoso de milhares de profissionais espalhados pela cidade. Mesmo uma instituição histórica, de reconhecimento internacional, como o Theatro Municipal de São Paulo, precisa de garantias orçamentárias e liberdades artísticas que nem sempre são oferecidas pelo sistema que lhe sustenta para dar continuidade ao seu projeto. 

Andrea Caruso Saturnino, que celebra a programação robusta que seu palco vem abrigando nos últimos cinco anos, desde que iniciou a gestão como superintendente do Municipal, expressa como desejo para o futuro da instituição: “Que a gestão pública enxergue o teatro com a devida atenção que ele requer e reconheça a sua importância artística e cultural para a cidade de São Paulo, para o Brasil e para a América Latina. Como um teatro público, ele precisa desse suporte contundente e de forma séria. Que não seja um teatro que tenhamos que ficar defendendo o tempo todo”. 

 

Carolina Azevedo é jornalista, mestranda em teoria literária na USP e coordenadora do projeto Cultura SP no Le Monde Diplomatique Brasil.

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