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CULTURA E POLÍTICA

A música popular brasileira volta a protagonizar a cena política

por Gustavo Conde
16 de março de 2018
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Chico responde àquelas pessoas que o hostilizaram nas ruas e nas redes sociais, recomendando a ele Cuba como opção de exílio – como se Cuba fosse um castigo na Terra como Miami. É ainda mais contundente e impactante que suas canções de críticas à ditadura, porque, desta vez, Chico aponta o dedo para a parcela fascista, ignorante e intolerante da população brasileira. E, convenhamos: como é gostoso testemunhar isso

A música brasileira deve ser compreendida neste momento como um instrumento poderosíssimo de resistência e ação política, dada a violência sem precedentes que a ruptura democrática trouxe ao país a partir de 2016. O ponto é: o afunilamento do debate público e a histeria coletiva que culminou num dos rompantes políticos mais violentos – porque mascarados – da história prodigiosa de golpes do Brasil preparou, ao mesmo tempo, o terreno para as mais grotescas ações do poder sublegítimo instaurado, como remexeu no caldo de cultura simbólico que estava relativamente bem comportado no período de democracia plena.

Em outras palavras: o golpe ouriçou os sentidos. Muitos se perguntam sobre o porquê da ditadura militar ter produzido artistas tão contundentes e inteligentes. Eis a resposta: o arbítrio, a violência e o sufocamento social desestabilizam os sentidos sociais, deslocando-os de suas zonas de conforto semântico. Sentidos em movimento – e isso é um axioma da linguística e da psicanálise – a plurivocalidade explode como um vulcão.

Talvez seja o dispositivo de segurança simbólico de toda e qualquer sociedade: quando os sentidos se estabilizam demais e se acomodam (a democracia plena – porém não consolidada), abre-se o espaço para as timias psíquicas mais descompensadas e atrofiadas (as paneleiras, o MBL). É o preço da estabilidade discursiva relativa.

Nota mental e bibliográfica: isso é eminentemente técnico e pode ser aferido em livros de análise do discurso francesa, como os trabalhos de Michel Pêcheux, Jean-Jacques Courtine e Dominique Mainguenau – mas também em trabalhos de Michel Foucault e Jacques Lacan. Para saber mais sobre a origem do sentido e sua relação com o movimento, conferir a teoria gerativa do linguista Noam Chomsky.

 

Os sentidos que se movimentam

Retomando o raciocínio: o sentido, portanto, não gosta de paralisia – nem de mesmice. O sentido rechaça tudo o que não seja movimento. A rigor, o sentido só existe se houver movimento (movimento fonológico, morfológico, gramatical, sintático, cenográfico, histórico, subjetivo). Se uma dessas instâncias começar a falhar, as outras tendem ir a reboque.

Evidentemente, há de se ter as célebres “condições de produção”. Ou: nem todo golpe de Estado promove uma tempestade semântica. Há de se ter uma sociedade com características específicas. No caso da brasileira, uma vocação devastadora para a criatividade.

Isso pode ser facilmente comprovado com nossos dois golpes recentes, o de 1964 e o de 2016. Há dezenas de livros sobre a canção popular brasileira que delimitam com muita clareza a “elasticidade” metafórica que a ditadura proporcionou ao cancioneiro popular. O assunto é vasto e complexo e não cabe decupá-lo aqui.

Um exemplo, no entanto, é necessário. Cito Chico Buarque. A canção Cálice não ensejou muitas dúvidas e, por isso, foi logo censurada. A inteligência dos militares era extremamente limitada e só uma canção escandalosamente de protesto como Cálice – a despeito de toda a sua elegância aliterativa – poderia ser notada pelos censores rasos da ditadura brasileira.

Se se ouvir a versão de 1978, finalmente liberada pela censura depois de cinco anos, a percepção devasta. O grupo MPB4 repetindo à exaustão as palavras “cálice” e “pai”, entremeados por Milton Nascimento e o próprio Chico com suas vozes soltas no tecido melódico era – e é – impactante. Os silêncios, a percussão, a dor da voz de Milton, tudo isso esfregou na cara da censura o quanto ela era obtusa (como censurar uma obra-prima daquelas?).

 

Chico Buarque e as sutilezas poéticas da resistência

Mas, as sutilezas de sentido estavam em outras canções. Apesar de você fritou os neurônios do general Médici et caterva. Poucos sabem, mas ter uma canção censurada naqueles termos era uma vitória monumental de Chico Buarque e da resistência democrática. Era a certeza de que eles “entenderam o recado” e que não tinham como responder, senão proibindo. Isso, caros leitores, é a conhecida “vitória moral”.

Nota mental intermediária: em geral, as pessoas “práticas” não gostam de “vitória moral”. Acham a vitória moral algo sem função e sem materialidade. Mas esquecem que o mundo é feito de símbolos e que são estes que definem a história, mesmo que eles não representem um “lucro político” imediato. Reclamar da vitória moral é, num certo sentido, imoral.

Retomando: Chico, no entanto, não representava só esse esfregão contumaz na cara dos milicos. Chico era também a sátira corrosiva. Seu pseudônimo Julinho de Adelaide foi uma espécie de trollagem conceitual da ditadura. Censores ficaram mais confusos do que já eram e deixaram passar um lote inteiro de canções ácida e elegantemente críticas. Acorda amor era só uma delas.

 

As “proto-trollagens” de Chico e o Chico 2018

A cada vez que Chico Buarque “enganava” a ditadura, a porção democrática do país fruía em êxtase. Isso manteve muita gente mobilizada e concentrada na retomada da democracia. Chico Buarque pode ser o fio condutor de uma leitura sobre o período de exceção, sobretudo porque ele é um artista singular que ainda está em franca atividade e, muito mais do que isso, está de posse de seu sentido mais profundo de resistência democrática. Seu último álbum – Caravanas – é o seu trabalho mais político, disparado. Ele fulmina o golpe de Estado com a sua habitual elegância, mas com uma assertividade inédita. A dicção de Chico Buarque se adensou em termos de contundência estética e sentido político, por assim dizer.

Tome-se, apenas para constar, alguns versos de Desaforos, canção feita especialmente para as paneleiras do Leblon e de Higienópolis: “Vejo-te a flanar pela avenida / como dama florescida num viveiro / e em salões que nunca vi / serei o primeiro a duvidar / que em horas vagas / os teus lábios delicados / roguem pragas por aí”. Devastador, com luva de pelica e um sorriso no rosto.

Chico responde àquelas pessoas que o hostilizaram nas ruas e nas redes sociais, recomendando a ele Cuba como opção de exílio – como se Cuba fosse um castigo na Terra como Miami. É ainda mais contundente e impactante que suas canções de críticas à ditadura, porque, desta vez, Chico aponta o dedo para a parcela fascista, ignorante e intolerante da população brasileira. E, convenhamos: como é gostoso testemunhar isso.

 

A canção popular como estratégia de resistência

A canção popular, portanto, é um elemento estratégico de resistência política em todo e qualquer momento histórico. Ela só distensiona os punhos quando a democracia é plena – pois, aí, podemos fazer a arte com liberdade e dentro das pulsões subjetivas do animal estético que caracteriza o sujeito histórico. Ou seja: sem a obrigação de resistir ao arbítrio explícito de poderes golpistas.

É por isso que, agora, ela volta com essa força descomunal, inclusive agregando e retomando todo o raciocínio já iniciado nos idos de 1964, o golpe pai de todos os golpes. Traduzindo: todo o cancioneiro do período da ditadura está de volta, com sua imensa força retórica e política para, mais uma vez, nos tirar dessa enrascada épica que a nossa história golpista insiste em repetir.

Cada verso, cada estrofe, cada refrão de toda e qualquer canção de Chico Buarque, Gonzaguinha, Aldir Blanc, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Jorge Ben e toda a safra de cancioneiros dos anos 1970, volta neste momento histórico como flechas afiadas e perfurantes nessa estrutura totalitária de mordaça, violência e achaques simbólicos.

Hoje, no entanto, o sistema é muito pior. Hoje, há a Rede Globo de Televisão, esse consórcio que nasceu de maneira fraudulenta no próprio golpe de 1964. A TV Globo, caros leitores, foi “parida” em 1965, numa troca de fraudes e favores do governo brasileiro, sistemas públicos de concessão e comunicação e empresas privadas norte-americanas, com toda a sorte de laranjas e mascaramentos fiscais. A fraude da Globo não é só essa da Fifa ou da receita federal: está na sua própria origem.

 

O começo da resistência massiva e o momento da virada

Para vencer esse sistema brutalmente corrupto e violento será necessária muita música popular. A Globo teme a canção popular porque sabe o poder que ela tem. Por isso, ela também entrou nesse nicho e o neutraliza com seus pavorosos “The Voices” e especiais de Roberto Carlos, o suprassumo da domesticação estética de baixo nível.

Mas, notem que, neste ano, a poderosa Vênus já tomou o primeiro susto. A escola de samba Paraíso de Tuiuti deixou um recado extremamente poderoso, tanto para a emissora, quanto para o “governo federal”. A escola de samba apontou o dedo diretamente para a emissora – que, aliás, transmitiu o desfile em rede nacional, numa auto “trollagem” sem precedentes.

De modo que todo esse processo só está começando. Teremos muitas canções retomadas e muitas canções pela frente. Para superar essa página tão infeliz da nossa história, este capítulo tão complexo que nos assaltou de maneira surpreendente, só a arte – articulada com muita atuação política e social. É ela, a arte, que vai permitir uma reação digna e eficiente.

É a partir deste ponto de inflexão histórica que o tecido democrático deve concentrar sua força e seu sentido de cidadania e resistência. A canção brasileira pode iluminar mais uma vez o longo caminho de retorno à democracia.

 

*Gustavo Conde é músico, linguista e professor.



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