Na Austrália, uma temporada no inferno - Le Monde Diplomatique

AQUECIMENTO AMEAÇA FLORA E FAUNA EXTRAORDINÁRIAS

Na Austrália, uma temporada no inferno

Edição - 150 | Austrália
por Maxime Lancien, enviado especial
7 de Janeiro de 2020
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“A terra está queimando.” Até o momento, a expressão não passava de uma imagem. Na Austrália, ela descreve com precisão incêndios gigantescos que há três meses destroem o país, a ponto de os bombeiros desistirem de apagar o fogo. Tais catástrofes podem ser classificadas como “naturais”, quando se acumulam provas de sua origem industrial?

Domingo, 13 de janeiro de 2019. Faz 47 °C nas planícies de Nova Gales do Sul, e o Rio Darling agoniza ao vivo pela TV. O solo vermelho australiano está rachado. Às vezes, o céu fica laranja, e tempestades de areia engolem pequenas localidades, como Mildura, mergulhando-as em uma noite extraterrestre.

Por muito tempo, a bacia hidrográfica de Murray-Darling, celeiro agrícola da Austrália, deu vida a uma de cada duas propriedades rurais do país. Os períodos de seca ritmavam a existência dos vinhedos, pomares, pastagens e campos de algodão que se estendem por 1 milhão de quilômetros quadrados, de Victoria a Queensland – uma área equivalente à do Egito. Mas, em 2019, o calor extremo desencadeou a proliferação de algas azuis. Centenas de milhares de peixes mortos asfixiados flutuam ao sol, vítimas da espuma letal produzida pelas cianobactérias dolichospermum e microcystis. As comunidades locais culpam a agroindústria pelo ecocídio.1 “Lamento que algumas pessoas queiram usar esse drama apenas para fazer política. […] Essa é uma das consequências da seca, com a qual continuo tão preocupado como sempre estive”, foi a resposta do primeiro-ministro, Scott Morrison.2

O fenômeno climático batizado de Angry Summer [verão bravo] tomou conta do país pela primeira vez em 2012. Desde então, o “supervilão” se tornou mais perigoso. Sete anos depois, é necessário recorrer a um superlativo para expressar sua virulência: Angriest Summer [o mais bravo dos verões].3 Em apenas noventa dias, 206 recordes de temperatura foram quebrados. Em 24 de janeiro de 2019, os termômetros chegaram a 49,5 °C na cidade de Port Augusta, na Austrália Meridional. “Eu amo um país queimado de sol”, escreveu Dorothea Mackellar em seu poema “My Country” (1908), que expressava o nascimento de sentimentos patrióticos. “Uma terra de vastas planícies, de cadeias montanhosas irregulares, de secas e de chuvas torrenciais. Eu amo seus horizontes longínquos.” Agora, a meteorologia está exaurindo a “terra marrom”, tão amada pela poeta, e perturbando seus horizontes.

Lago Hume na Austrália, país atingiu temperaturas de até 49,5º C em 219 (Crédito: Tim J Keegan)
Lago Hume na Austrália, país atingiu temperaturas de até 49,5º C em 219 (Crédito: Tim J Keegan)
Coalas e periquitos-australianos

Como o órgão responsável pela gestão da bacia tem reagido ao aquecimento global? Após uma investigação realizada em 2018, a Comissão Real da Bacia Murray-Darling emitiu suas conclusões, mostrando a complacência das autoridades em relação aos agricultores. As planícies úmidas estão fritando, mas os investidores dos latifúndios ignoram a ameaça. De maneira totalmente ilegal, bombeiam intensivamente a água do Rio Darling, exaurindo a bacia hidrográfica. “Foi mais a política do que a ciência que estabeleceu limites para a quantidade de água que pode ser retirada dos rios da bacia”,4 observa o relatório. Três milhões de pessoas dependem desse ecossistema agonizante. Falta água potável mesmo em poços e reservatórios. Serão os agricultores, suas famílias e as comunidades aborígines os primeiros refugiados climáticos australianos?

A Oceania é o continente com a maior taxa de espécies de animais e plantas endêmicas – ela concentra, por exemplo, 80% dos mamíferos endêmicos do mundo. Isso se explica pelo longuíssimo período de isolamento após a separação entre a Austrália e Gondwana, há 40 milhões de anos. Mas a chegada do gato doméstico (Felix catus) e da raposa (Vulpes vulpes), trazidos pelos colonizadores britânicos, dizimou parcialmente a população de mamíferos locais. Em dois séculos, 10% das 273 espécies terrestres endêmicas da Austrália desapareceram, em comparação com apenas uma na América do Norte.5 O aquecimento global está agravando a mortalidade dos grupos mais frágeis, a ponto de 21% dos mamíferos endêmicos estarem em risco. A sexta extinção em massa descrita pela jornalista Elizabeth Kolbert6 está esvaziando florestas, savanas e recifes.

Desde os primeiros dias do verão, em novembro de 2018, milhares de morcegos (Pteropus) foram vistos caindo no chão, de Cairns a Adelaide. Justin Welbergen, professor de Ecologia Animal em Sydney e especialista em quirópteros, estuda os efeitos das temperaturas extremas no comportamento e na demografia dos morcegos. “Há poucas dúvidas de que nossos verões serão cada vez mais quentes. Os morcegos morrerão em uma área maior e com mais frequência, especialmente as fêmeas e seus filhotes.” O desaparecimento maciço desses animais, essenciais para a polinização, fragiliza a selva australiana.

E outras espécies, mais solitárias, tímidas ou noturnas, desaparecem em segredo nas florestas tropicais: “Coalas, cacatuas-negras-de-bico-curto, periquitos-australianos, diamantes-mandarins e beija-flores da espécie Atthis heloisa”,7 enumera o cientista. O Melomys rubicola, um ratinho habitante da ilha arenosa de Bramble Cay, que está sendo gradualmente engolida pelo mar, desapareceu em 2019. Em 2014, o coala representava US$ 2 bilhões em receitas turísticas. Nada menos do que 30 mil empregos diretos dependiam desse marsupial arborícola, agora classificado como espécie “funcionalmente extinta” – isto é, incapaz de se reproduzir ou de desempenhar seu papel no ecossistema.

Sozinha, a Grande Barreira de Corais tem um valor econômico, social e simbólico estimado em US$ 56 bilhões.8 Mas de que adiantam esses números, que repetem a lógica da economia padrão, quando se sabe que a indústria extrativa australiana representa US$ 248 bilhões em produtos exportados, empregando 247 mil pessoas?

Quase 90% dos australianos vivem a menos de 30 quilômetros da costa. O perímetro litorâneo entre Brisbane e Melbourne concentra 15 milhões de pessoas, mais da metade da população total da Austrália, que é de 25,4 milhões de habitantes. O resultado é uma forte pressão sobre os recursos hídricos,9 começando pelos de Murray-Darling. O aquecimento global, portanto, torna a Austrália mais vulnerável do que qualquer outro país desenvolvido à elevação do nível do mar e aos ciclones extratropicais. “Nossa pátria é cercada pelo mar”, lembra o hino nacional, Advance Australia Fair. A Austrália está “cercada por mares em elevação”, completa a climatologista Joëlle Gergis: “Uma parte fundamental de nossa identidade nacional vai desabar, e estamos assistindo a isso de cima de um terreno em erosão”.10 O pior cenário prevê um aumento do nível do mar de mais de 1 metro até 2100, o que significa para as seguradoras US$ 226 bilhões em ativos imobiliários e de infraestrutura engolidos pelas inundações e pela erosão. Em junho de 2016, violentas tempestades atingiram a costa leste do país, de Queensland à Tasmânia. A força das ondas destruiu casas e estradas, principalmente em Sydney, nos bairros de Collaroy e Narrabeen. Sem as praias necessárias para que o mar possa respirar, as ondas quebram contra o concreto.

“A queima de gás e petróleo e o desmatamento levam à produção de gases de efeito estufa, que estão na raiz dos Angry Summers”,11 resume a associação Climate Council. Normalmente refrescada pelos Vendavais da Latitude 40, a Tasmânia, uma ilha localizada no sudeste do continente, atingia 35 °C no último mês de janeiro. Nuvens negras mergulham a cidade de Hobart em um claro-escuro irreal. Por trás das montanhas, as florestas tropicais ardem. Quinhentos bombeiros lutam para proteger os pinheiros king billy e huon, tesouros botânicos milenares. Já viraram fumaça 200 mil hectares de terra até então muito úmida.
No continente, a paisagem australiana, em parte nascida do fogo, está sendo consumida a uma velocidade alarmante. “A temporada de incêndios durou mais do que o normal em Queensland e começou mais cedo na Tasmânia”, observa o Climate Council, que pede uma reação forte para reduzir as emissões “a zero líquido até 2050, por meio de uma ação política coordenada”. Uma aposta alta, em um país campeão mundial de exportação de carvão, no momento em que os meios de comunicação do bilionário Rupert Murdoch (que controla 70% da imprensa nacional),12 os empresários ligados à indústria fóssil e think tanks como o Minerals Council of Australia e a Australian Coal Association denunciam o “mito” do aquecimento global. Após a “ameaça vermelha” da Guerra Fria, a direita australiana agora apregoa a “ameaça verde”.

Corrida pelo gás natural

Em Townsville, a taxa de desemprego é de 9%, 3% acima da média observada no restante de Queensland. Em setembro de 2018, 17,7% dos jovens entre 17 e 24 anos estavam desempregados. “Don’t take my coal job and I won’t take your soy latte” [Não tome meu emprego no setor de carvão e eu não tomo seu latte de soja], proclama um adesivo que caçoa dos ambientalistas, citadinos pretensiosos que dão lições aos operários enquanto bebericam seu leite vegetal. Ali se planeja construir a Carmichael, a maior mina de carvão do planeta: quase 447 quilômetros quadrados, ou seja, quatro vezes a área de Paris. Com uma produção de 60 milhões de toneladas por ano, o esgotamento da megamina levaria 150 anos. Apesar das dúvidas do Tesouro de Queensland quanto à viabilidade financeira do projeto, o governo de Campbell Newman e o de Annastacia Palaszczuk deram apoio total ao conglomerado indiano Adani, operador do projeto. Milhares de empregos seriam garantidos por várias gerações, prometeram. A Adani, no entanto, não esconde seu desejo de automatizar a mina “do poço ao porto”, a exemplo da gigante Rio Tinto, que controla caminhões autônomos de um centro operacional com sede em Perth, na Austrália Ocidental.

“Em 2017-2018, os royalties do carvão representaram, no conjunto das receitas públicas de Queensland, apenas 6,4%, número que deve cair para 4,6% em 2021-2022”,13 observa o escritor James Bradley. Mais problemático, um estudo realizado pelo Australia Institute mostra que as empresas estrangeiras detêm 86% da indústria de mineração do país e teriam gasto em dez anos mais de meio bilhão de dólares para influenciar os diferentes governos australianos.14 Os defensores da ecologia política simplesmente não têm recursos para competir com os lobbies extrativistas. As eleições legislativas de maio de 2019, apelidadas de “eleições das mudanças climáticas”, confirmaram o poder de Scott Morrison, pentecostal e ardente defensor do carvão. No entanto, como explica Lesley Hughes, climatologista membro do Climate Council e professor emérito de Biologia, “seria muito simplista considerar que os australianos não se importam com as mudanças climáticas pelo fato de que a coalizão [da direita conservadora] foi reeleita […]. Os desafios ligados ao emprego foram cruciais para alguns dos assentos perdidos pelo Partido Trabalhista”. Em Queensland, os eleitores preferiram a firmeza da coalizão de Morrison à posição confusa dos trabalhistas, que não se declaravam nem realmente pró-minas nem sobretudo pró-impostos.

A Austrália poderia, no entanto, seguir outro caminho. Uma centena de governos locais e trezentas cidades estão reunidas no programa Cities Power Partnership, que visa promover um “futuro energético sustentável”. O surgimento de países interessados, em graus diversos, na descarbonização de suas economias – como Japão, Coreia do Sul, China e Taiwan – motiva Canberra a rever sua agenda. É hora de “ativar o mercado”.15

Mas os estados federados pretendem mudar de rumo? “Isso é outra história”, admite Anne Poelina, que mora perto do Rio Mardoowarra-Fitzroy, em Kimberley, região situada no norte da Austrália Ocidental. Guardiã tradicional da tribo Nyikina Warwa, parteira e médica, Anne é a voz das comunidades indígenas locais. Diretora da Madjulla Inc., uma organização comunitária dedicada à educação, à pesquisa e à formação profissional, ela trabalha com cientistas, ecologistas, artistas, contadores de histórias e juristas. “Os aborígines querem participar da transição energética, e é muito frustrante para eles não serem reconhecidos no debate. Eu defendo uma abordagem pacifista, para demonstrar que a transição beneficiaria tanto os aborígines como as grandes empresas.” Cultura local, medicina tradicional, conhecimento agrícola milenar e energias renováveis são alguns argumentos nesse sentido. “Kimberley é um lugar único no mundo, onde outro modelo de desenvolvimento é possível”.

O animismo dos aborígines coloca a “lei da terra” acima da lei dos homens. Há 60 mil anos se transmite, de geração em geração, uma memória cantada que mistura conhecimentos geográficos e astronômicos. Essas songlines, ou “trilhas de cantos”, cartografam o continente e refazem ao mesmo tempo a história e o itinerário de uma terra, um rio, uma floresta. No polo oposto a essa filosofia, a pecuária industrial hoje ameaça o ecossistema do Rio Mardoowarra-Fitzroy. Diante das evidências de uma Austrália em vias de desidratação, Anne conclui: “A água é o novo ouro. É um artigo raro”.

Para além da costa de Perth, a corrida pela exploração do gás natural liquefeito deixou perplexo o escritor Tim Winton, dedicado há mais de 25 anos à proteção dos mares (ler boxe nesta página). A empresa de engenharia Subsea 7 planeja construir uma fábrica de gasodutos ao sul de Exmouth. Tubos de dez quilômetros de comprimento alcançariam jazidas offshore atravessando o recife de Ningaloo. A preservação dessa área, listada em 2011 como Patrimônio Mundial da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), mobilizou a população da Austrália Ocidental no início dos anos 2000. Hoje, a luta está sendo retomada. Em Perth, a Autoridade de Proteção Ambiental anunciou em junho a intenção de submeter a proposta da Subsea 7 à forma mais rigorosa de monitoramento: a análise ambiental pública. “Ningaloo é um dos santuários marinhos mais incríveis do mundo. Observar as baleias é inspirador. Elas são curiosas”, explica Winton, sempre maravilhado. A área abriga a maior população mundial de baleias jubarte. Ali elas se reproduzem na companhia de dugongos, arraias e golfinhos.

No outro extremo do país, perto de Cairns, encontra-se o maior organismo vivo do planeta: um recife de coral. Essa maravilha natural é protegida desde 1981 como Patrimônio Mundial da Unesco. Ela gera uma atividade turística considerável, garante a renovação dos recursos pesqueiros e preserva as margens da erosão. Mas o aquecimento global ameaça sua existência. David Cazzulino, que trabalha em Cairns para a Australian Marine Conservation Society, explica: “Os fertilizantes da indústria canavieira há muito tempo poluem as águas costeiras. Hoje, o governo incentiva os agricultores a adotar práticas mais benéficas, embora sempre haja resistência quando se trata de mudar hábitos”. David não está otimista: como podemos pedir às nações do mundo que reduzam suas emissões de gases de efeito estufa quando Queensland, o cenário da Grande Barreira de Corais, decide construir uma mina gigantesca?

Oceanos mal protegidos

No poder desde 2013, os conservadores incentivam o setor industrial a revirar o ventre dos oceanos. Porém, já em 2012 o governo trabalhista defendia um ambicioso plano de gestão do oceano, fruto de dez anos de pesquisa científica. Na época, o líder da oposição, Tony Abbott, considerava que uma regulamentação excessiva dedicada à criação de santuários marinhos “trancaria” os oceanos. Ele prometeu suspender o plano se vencesse. Durante a campanha, inflamou a multidão de marinheiros amadores presentes na convenção da Australian Fishing Trade Association. Durante a infância, Abbott pescava com seu avô na Gold Cost, e queria que “as gerações futuras pudessem desfrutar do mesmo privilégio”.16 Eleito em setembro de 2013, ele logo começou a trabalhar. “De 2013 a 2017, o governo federal gastou muito dinheiro para elaborar um novo texto, com o apoio dos lobbies de pesca industrial e esportiva”, explica Jessica Meeuwig, diretora do Centre for Marine Futures da Universidade da Austrália Ocidental e uma das criadoras do plano de gerenciamento inicial. “O resultado: um plano desolador ficou pronto em julho de 2017.” Mais de 1.400 cientistas de todo o mundo expressaram sua preocupação com a mudança iniciada pela Austrália.17 Em vigor desde 1º de julho de 2018, o documento reduziu em 400 mil quilômetros quadrados a área marinha até então interditada à pesca e à exploração de petróleo e gás (Marine National Park Zone IUCN II), colocando-as sob o regime de proteção parcial (Habitat Protection Zone IUCN IV).

A zona de pesca recreativa cobre 97% das águas australianas e se estende por mais de 100 quilômetros da costa. No momento, dos 44 parques marinhos criados em 2012, dezesseis estão sem nenhuma forma de proteção. “Em 1975, o professor neozelandês Bill Ballantine ajudou a criar o primeiro santuário marinho do mundo, a Cape Rodney-Okakari Point Marine Reserve, também conhecido como Parque Leigh”, conta Jessica, admiradora do trabalho desse biólogo marinho engajado e visionário. De fato, há quarenta anos, as pesquisas de Bill Ballantine demonstraram a importância vital dos santuários para repovoar o oceano e organizar áreas específicas de pesca. Essa proteção também aumenta a resiliência dos corais no contexto do aquecimento global.

Embora as zonas protegidas devessem ser ampliadas, o continente segue o caminho inverso. A maior reserva nacional de petróleo estaria na Grande Baía Australiana, segundo a empresa norueguesa Equinor (ex-Statoil). A companhia planeja perfurar o poço de exploração Stromlo-1, que estaria operacional em 2020-2021. Esse é um projeto razoável, quando se sabe que o Oceano Antártico é varrido por tempestades que propagam pela superfície do globo uma onda de energia excepcional? Em 2018, uma boia registrou uma onda de 23 metros de altura.18 A Equinor tenta tranquilizar os ânimos: a atividade do poço seria limitada ao período entre outubro e maio, de relativa clemência meteorológica.

Até o momento, a interação entre as correntes oceânicas e a geologia da Grande Baía permanece um mistério. Entre 2013 e 2017, pesquisas científicas revelaram a existência de 277 novas espécies. Nesse ecossistema onde coexistem baleias-francas-austrais, grandes tubarões-brancos, leões-marinhos, cachalotes e diversas criaturas batipelágicas, é difícil mensurar a extensão das interconexões. Mais recente empresa a ameaçar esse tesouro, a Equinor parece tranquila: “Há petróleo na Grande Baía Australiana? Talvez. Podemos descobrir isso com total segurança? Com certeza”.

Nenhum estudo científico parece capaz de prejudicar a confiança da companhia norueguesa. Não mais do que a lembrança do pior derramamento de petróleo da história da Austrália: há dez anos, o poço de Montara explodiu, liberando milhões de litros de petróleo no Mar de Timor. Mais um desastre na longa lista de crimes ambientais da Austrália moderna.

Guiado pelas estrelas

“A expressão cinematográfica está ajudando a desconstruir o discurso nacionalista australiano, que não para de ganhar terreno”, afirma Greta Morton Élangué, historiadora e diretora artística do Festival de Cinema Aborígene da Austrália, em Paris. Com o documentário We Don’t Need a Map [Não precisamos de mapa], o diretor Warwick Thornton explora o símbolo do Cruzeiro do Sul, que figura na bandeira nacional. Já premiado pelos filmes Samson e Delilah (2009) e Sweet Country (2017), ele analisa a representação dessa constelação, tão popular nos círculos nacionalistas, e seu lugar no imaginário australiano.

“O documentário ecoa as palavras da canção “(I’m) Stranded”, da banda punk australiana The Saints. A trilha sonora lembra que a Austrália continua sendo um país em crise quanto à sua identidade e herança colonial”, prossegue Élangué. Lançada em 1976, “(I’m) Stranded” trata da alienação sentida pelos músicos de um Queensland então dirigido pelo governo racista de Joh Bjelke-Petersen. Na época, a Austrália não tinha hino nacional. O documentário de Warwick Thornton explora, então, as songlines que compõem a cultura aborígine há 50 mil anos. As cerimônias, a pintura, a dança e o cinema expressam a permanência desses mapas orais, traçados no solo e no céu. We Don’t Need a Map destaca sobretudo o saber dos “homens da lei ritual” (law men), oriundos dos povos warlpiri, yolngu e wardaman. “Entendemos, graças a suas histórias, que a constelação do Cruzeiro do Sul é um mapa cosmológico, um mapa dos saberes sagrados”, conclui Élangué. “É a história do mesmo céu que conecta todos nós.”

Maxime Lancien é jornalista e um dos organizadores da revista Paysageur.

1 “Pumped” [Bombeado], ABC, 24 jul. 2017.
2 Entrevista concedida a Paul Kennedy, “ABC News Breakfast”, 14 jan. 2019. Disponível em: <www.pm.gov.au>.
3 Climate Council of Australia, The Angriest Summer [O mais bravo dos verões], 2019.
4 Bret Walker SC, Murray-Darling Basin Royal Commission Report [Relatório da Comissão Real da Bacia Murray-Darling], Governo da Austrália Meridional, 29 jan. 2019.
5 John C. Z. Woinarski, Andrew A. Burbidge e Peter L. Harrison, “Ongoing unraveling of a continental fauna: Decline and extinction of Australian mammals since European settlement” [Observação de uma fauna continental: declínio e extinção de mamíferos australianos desde a chegada dos europeus], Proceedings of the National Academy of Sciences, Washington, DC, abr. 2015.
6 Elizabeth Kolbert, La 6e Extinction. Comment l’homme détruit la vie [A sexta extinção. Como o ser humano está destruindo a vida], Vuibert, Paris, 2015.
7 Justin Welbergen, “Canaries in the coalmine: Flying-foxes and extreme heat events in a warming climate” [Canários na mina de carvão: raposas-voadoras e eventos extremos de calor em clima quente], comunicação no Griffith Climate Change Seminar, Griffith University EcoCentre, Nathan, Queensland, 3 jul. 2014.
8 “At what price? The economic, social and icon value of the Great Barrier Reef” [A que preço? O valor econômico, social e simbólico da Grande Barreira de Corais], Deloitte Access Economics, 2017.
9 Ler Marc Laimé, “Crise de l’eau: le laboratoire australien” [Crise da água: o laboratório australiano], Le Monde Diplomatique, jun. 2007.
10 Joëlle Gergis, Sunburnt Country. The History and Future of Climate Change in Australia [Um país queimado de sol. A história e o futuro das mudanças climáticas na Austrália], Melbourne University Press, 2018.
11 Climate Council of Australia, op. cit.
12 Robert Manne, “Bad news: Murdoch’s Australian and the shaping of a nation” [Más notícias: os australianos de Murdoch e a modelagem de uma nação], Quarterly Essay, Carlton (Victoria), n.43, set. 2011.
13 James Bradley, “How Australia’s coal madness led to Adani” [Como a loucura do carvão da Austrália levou à Adani], The Monthly, Carlton (Victoria), abr. 2019.
14 Hannah Aulby (The Australia Institute), Undermining Our Democracy: Foreign Corporate Influence through the Australian Mining Lobby [Minando nossa democracia: a influência de corporações estrangeiras por meio do lobby mineiro australiano], ago. 2017.
15 Hydrogen Strategy Group, Hydrogen for Australia’s Future. A Briefing Paper for the COAG Energy Council [Hidrogênio para o futuro da Austrália. Um informativo para o COAG Energy Council], ago. 2018.
16 “Abbott coalition will suspend Marine Park process” [Coalizão Abbott suspenderá o processo do parque marinho], Sail World, Southampton (Reino Unido), 27 ago. 2013.
17 Ocean Science Council of Australia, “Safeguarding Australia’s Marine Parks Network: The science case” [Salvaguardando a rede de parques marinhos da Austrália: o caso científico], jul. 2017.
18 MetOcean, “A record wave height measured in the Southern Ocean” [Onda de altura recorde medida no Oceano Antártico], maio 2018.

 



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