Na Bolívia as eleições reeditam o cenário de violência de 2019

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Na Bolívia as eleições reeditam o cenário de violência de 2019

Acervo Online | Bolívia
por Verônica Zapata
15 de outubro de 2020
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A militarização da Bolívia é um fato com o anunciado toque de recolher por seis dias. A estratégia é generalizar a violência com o objetivo de suspender o processo eleitoral e adiá-lo para 2021 com o pretexto de que “não há garantias para sua realização”

No dia 13 de agosto foi aprovada a lei de eleições “definitivas, impostergáveis e inamovíveis”. Um acordo entre a Assembleia Legislativa, Jeanine Áñez e o Tribunal Supremo Eleitoral (TSE) Condição para este acordo foi que se levantassem os 150 pontos de bloqueios por todo o país, que foram os mais massivos dos últimos 35 anos e marcaram o momento de maior debilidade do governo de fato. A própria Áñez buscava asilo. O Pacto de Unidade e a Central Obrera Boliviana (COB) acusam a Assembleia Legislativa de “traição” por deliberar “de costas para o povo”, mas de toda maneira aceitam o acordo e suspendem os bloqueios. No dia seguinte prendem Wilson Cáceres, dirigente de Interculturales, começando uma nova ofensiva contra comícios e para destruir a organização do movimento indígena.

Os meios de comunicação avançam criando um clima idêntico ao de 2019 de que “se o do Movimiento al Socialismo (MAS) ganha as eleições seria por fraude”. Como o MAS poderia cometer uma fraude?

(Crédito: Fabrizio Neitzke)

Salvador Romero, presidente do TSE foi designado por Áñez e é amigo de Carlos Mesa, de Comunidad Ciudadana (CC). Ele aparece nas mensagens reveladas por Wikileaks evidenciando seus vínculos com o Departamento de Estado dos Estados Unidos e a USAID, cumprindo funções em Honduras para legitimar a fraude posterior ao golpe de estado de 2009 contra Manuel Zelaya.

Por outro lado, o MAS não maneja o aparato estatal e nem o Poder Judiciário que persegue através de “Lawfare” a seus dirigentes. Além disso, o TSE anunciou que a custódia e o translado das cédulas e das atas eleitorais estarão a cargo da polícia e dos militares golpistas. Foram eles que levaram o material eleitoral desde o TSE até os recintos de votação e levarão as urnas até os centros de apuração, função que era dos fiscais eleitorais.

As pesquisas são utilizadas para manipular o voto e afirmar a ideia de que haverá um segundo turno porque faltariam os votos ao MAS para ganhar no primeiro turno, que exigiria 50% mais um dos votos apurados ou obter um mínimo de 40% com uma diferença superior a 10 pontos à frente ao segundo candidato.

O funcionamento das empresas de pesquisa como a CIESMORI é exemplar. Apresenta Luis Arce, do MAS com 42,2% e a Carlos Mesa (CC) com 33,1%. Luis Arce estaria a somente 0,9% de ganhar no primeiro turno com a renúncia da candidatura de Áñez.  José Luis Gálvez, diretor de CIESMORI, foi surpreendido em uma reunião com a cúpula de “Juntos”, de Áñez, que selou uma aliança com Carlos Mesa.  A empresa, autorizada pelo TSE a divulgar suas pesquisas eleitorais, tem contratos sem licitação com Y.P.F.B. (a Petrobras da Bolívia) da ordem de um milhão de dólares e, como contrapartida, infla a figura de Carlos Mesa.

O que dizia CIESMORI sobre o MAS nas eleições de 2009-2014 e 2019? Que o MAS em 2019 teria 36% dos votos quando na realidade obteve 47%; em 2014 afirmou que o MAS teria 56%e este obteve 63%; em 2009 que teria 54% e obteve 64%. Na média suprimiram 10 pontos em cada previsão.

As verdadeiras porcentagens de apoio ao MAS se obtém ao considerar os que nunca são levados em conta: o voto rural do MAS, que se subestima e chega dos lugares mais remotos e inclusive por meio de canoas; o “voto do exterior”, massivo em apoio ao MAS; o “voto oculto”, que representa os que escondem sua preferência política em uma ditadura e que serão majoritariamente do MAS; e a porcentagem de indecisos que vem sendo capitalizadas por Luís Arce. O MAS ganha em seis dos nove departamentos em que se divide a Bolívia, a vitória pode ser superior a 45%.

O que diz a verdadeira pesquisa que está nas ruas? Bolívia está coberta de azul, a cor que representa o MAS; todos os dias multidões se mobilizam nos nove departamentos do país. Os golpistas reúnem pouca militância.

Os golpistas sabem que serão derrotados nas urnas e por isso: 1) convocam o voto útil “todos contra o MAS”, como em 2019; 2) Áñez retira sua candidatura. 3) A Ação Democrática Nacionalista (ADN) se retira com 0,8% dos votos e adverte que haverá uma fraude por parte do MAS e convoca os candidatos a retirarem-se do pleito. 4) Tuto Quiroga, de “Libre 21!”, com 2,8% dos votos, também retira sua candidatura. Camacho, com 16,7% dos votos é pressionado para retirar-se do pleito, com suas propostas econômicas incorporadas, já que seria a carta que poderia mudar o panorama político do país.

A violência como estratégia para suspender ou anular os comícios

Se registraram numerosos atos de violência da parte de militantes dos golpistas contra o MAS durante a campanha eleitoral. As forças de choque, protegidas e financiadas pelo governo de fato, são os grupos paramilitares da Resistencia Juvenil Cochala, da Resistência KM Zero, da União Juvenil Cruceñista, convocadas pelas plataformas, os comitês cívicos, e por dirigentes golpistas como a senadora Carmen Eva Gonzales que confirmou nas redes sociais seu objetivo de suspender as eleições. Suboficiais denunciaram a entrega de armas e a “ordem de matar” que se deu aos grupos paramilitares, à polícia e às Forças Armadas.

Os alvos são os militantes, candidatos, e dirigentes do MAS, seus escritórios eleitorais, suas caravanas. E também instituições do Estado como o Tribunal da Justiça e da Paz, que tratava da anulação de personalidade jurídica do MAS, ação que foi suspensa. Assim como a Fiscalia General com o objetivo de obter a renúncia do Fiscal Geral, Dr. Juan Lanchipa, em Sucre, por não processar os militantes do MAS por fraude e bloqueios. Também a casa de Saúl Paniagua, presidente do Tribunal Electoral Departmental (TED) de Santa Cruz por se recusar a investigar o “caso de fraude eleitoral”; a Defensoria del Pueblo; o TSE, que pressionam para que este suspenda as eleições. Há que se considerar que no dia 17 de agosto alguns presidentes dos tribunais departamentais golpistas ameaçaram renunciar para comprometer as eleições.

A militarização do país é um fato com o anunciado toque de recolher por seis dias. A estratégia é generalizar a violência com o objetivo de suspender o processo eleitoral e adiá-lo para 2021 com o pretexto de que “não há garantias para sua realização”.  E no caso de as eleições ocorrerem, anulá-las se o MAS vencer no primeiro turno. Neste contexto Carlos Mesa antecipou que voltará a convocar a sua militância como em 2019, quando incendiaram os tribunais departamentais e essa tornou-se a iniciativa que desatou a violência.  “É inaceitável que o MAS declare que se não ganhar no primeiro turno é por fraude”, declarou.

Os golpistas não estão dispostos a entregar o poder, sabem que está em jogo um negócio milionário com o lítio para Trump. Não vão desistir de tentar voltar à república colonial de apartheid e quase escravidão indígena, sabem que terão de enfrentar julgamentos por subverter a ordem democrática, cometer massacres e atos de corrupção.

A Fraude

O plano é cometer uma “fraude” ao estilo hondurenho para ir ao segundo turno das eleições. O TSE implementará o DIREPRE, um novo sistema rápido de contagem de votos que não enviará as fotografias das diferentes atas eleitorais, que são o resultado do escrutínio dos votos nas diferentes mesas. O que impede que as cidadãs e cidadãos, os fiscais eleitorais e a imprensa possam comparar as fotografias que tiraram dos resultados de sua mesa eleitoral (que contém o resultado final) e confirmar que estes dados são os que alimentam a base de dados que se poderá ver na página do TSE O que se conhecerá a partir do sistema é o resultado final por colégios eleitorais e não pelas atas.

É nesta perspectiva que se vê a estratégia de designação do croata Branco Marincovich como Ministro da Economia e a viagem de Murillo, ministro do governo, aos Estados Unidos para reunir-se com integrantes do Departamento de Estado e com Luís Almagro, secretário da O.E.A., reeleito de maneira escandalosa há poucas semanas. Almagro declarou que Murillo expressou sua preocupação sobre uma nova “fraude” nas eleições por parte do MAS. e ratificou seu compromisso em “fortalecer a missão eleitoral da OEA” na Bolívia.

Neste contexto se revela que se gastou 850 mil dólares com a compra de armas em 2019 e este ano se gastou 15 milhões de dólares, segundo o Instituto Nacional de Estatísticas (I.N.E.). São para defender a democracia, sustentou Murillo. Por outro lado, no dia 14 de setembro se adiantaram as promoções dos policiais, logo após as eleições, continuando com as promoções ilegais, como as outorgadas aos militares.

O deputado Edgar Montaño, do MAS, denunciou que gabinetes de ministros golpistas registraram massivamente armas de fogo ilegais e a “perda” de armamento de guerra da Escola Naval Militar Eduardo Abaroa. Também a federação dos trabalhadores em aeroportos e navegação aérea denunciou a intenção do governo de militarizar a aviação nacional.

Possíveis Cenários

Segundo Turno: o MAS conquista a primeira posição nas eleições, mas não obtém mais de 10 pontos à frente do segundo colocado devido à uma “fraude”, ao estilo hondurenho, o que pode provocar uma reação popular. Num segundo turno é difícil que o MAS ganhe, mas existe esta possibilidade porque o MAS cresce aceleradamente.

Novo golpe de Estado: o MAS ganha no primeiro turno e os golpistas não podem esconder a magnitude dos votos destinados a este partido, apesar das manipulações eleitorais. Durante a apuração, ou posteriormente, os golpistas denunciam irregularidades (falsos positivos) e “fraude”, reeditando o cenário de violência de 2019 para não reconhecer a vitória do MAS e pede que se anulem as eleições. Áñez poderia renunciar e assumiria um governo interino militar.

Se suspendem as eleições, que ficam postergadas para 2021: devido à generalização da violência aprofunda-se o atual quadro e/ou agrega-se “falsos positivos” mediante atentados em pontos estratégicos, atribuídos ao MAS  Também poderiam “plantar” armas e explosivos nas casas de candidatos, dirigentes, sedes ou rádios das organizações sociais.



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