Artigo Nada como antes - Le Monde Diplomatique Brasil

OS EVANGÉLICOS DIANTE DA PANDEMIA

Nada como antes

por Ariovaldo Ramos
12 de junho de 2020
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Não há fanatismo político que diante de um quadro como este, que pode acabar numa vala comum, sobreviva à reação de um presidente que tudo o que consegue dizer é: “E daí?”. E muitos evangélicos começaram a repensar o seu voto

I

Na ditadura, líderes denominacionais estudaram na Escola Superior de Guerra, entregaram pastores para os órgãos de repressão, e incutiram nos fiéis que era uma luta contra o comunismo ateu. A partir da década de 1970, o anticomunismo foi acirrado pelas campanhas de apoio aos mártires da cortina de ferro, e da cortina de bambu. Esses dois movimentos criaram no povo evangélico uma postura anticomunista, por medo do martírio. Esses movimentos aconteceram, primeiramente, entre as igrejas históricas.

Essa questão do medo da esquerda é, portanto, antiga entre os evangélicos, e, principalmente, a igreja estadunidense alimentou isso de forma abusiva.

A questão, no Brasil, não foi ideológica, no sentido de discutir qual o melhor regime para a solução da questão da riqueza. A questão sempre foi religiosa, porque os evangélicos foram alimentados com o medo de ser perseguidos pelos comunistas.

Na década de 1980, em meio ao inicio do que seria o grande crescimento do movimento pentecostal, a chamada teologia da prosperidade, de origem estadunidense, chegou com força no Brasil. A ideia básica dessa pregação é que a principal marca da salvação recebida de Deus é a prosperidade econômica, e a saúde obtida por imunidade, ou por cura divina, graças ao uso da fé.

Pela primeira vez, a riqueza, sempre repudiada pela pregação do Cristo, se tornava a marca maior da vida cristã. O capitalismo tinha achado a teologia que sempre procurara!

No Brasil, essa pregação foi aliada a duas outras, também, de origem estadunidense: a pregação da batalha espiritual, e a pregação sobre a necessidade de ganhar a cidade para Cristo.

Na pregação da batalha espiritual, a questão era a de localizar a presença e as ações dos agentes espirituais da maldade, e desalojá-los, fazendo, assim, cessar tais ações para assumir o domínio espiritual da cidade. Isso não tardaria a se transformar numa batalha contra as outras expressões de fé. Na pregação do ganho da cidade para Cristo, a questão era a de levar o maior número de pessoas da cidade à conversão.

A soma disso tudo gerou metodologias e redefinições hierárquicas. Apareceram figuras, até, então, desconhecidas da lógica evangélica, na liderança da comunidade. Apóstolo, por exemplo, que, antes, era título dos seguidores imediatos de Cristo, passou a ser título na hierarquia. E extremamente importante, pois só o apóstolo teria autoridade para livrar a cidade dos agentes espirituais da maldade. 

A liderança evangélica foi, cada vez mais, se tornando tirânica. Cada apóstolo tinha seus doze discípulos imediatos, que deviam honra máxima a este, e, como, com a pregação da prosperidade, a riqueza se tornou o sinal maior da benção divina, esse apóstolo tinha de ser, convincentemente, rico.

Os líderes se tornaram seres intocáveis, uma vez que “ungidos” por Deus, se tornaram gente de quem tudo se tolerava, porque o juízo, em relação a eles, deveria ficar, exclusivamente, com Deus. Era a semente da tirania, da autocracia, do direito divino ao poder. 

Essas ênfases ganharam espaço, primeiramente, nas comunidades independentes, ou pequenas denominações incipientes, provenientes de movimentos evangelísticos ou comunitários, que nasceram de cisões no movimento evangélico mais ligado à reforma protestante. Depois, esse movimento avançou para o mundo pentecostal, e viu surgir um novo fenômeno que veio a ser conhecido como neopentecostal.

Do lado mais protestante da igreja evangélica surgiram os movimentos de gerenciamento de igreja, sempre com a ênfase no crescimento, que, em muito, se assemelhavam com o processo de manipulação dos fiéis, usado pelo pessoal da prosperidade para gerar engajamento para a consecução dos objetivos da liderança. Esses movimentos, a pregação da prosperidade, assim como o movimento da batalha espiritual, eram segregacionistas, tanto quanto a questão racial, como quanto a questão econômica, e passaram a formar igrejas para cada classe social, numa ação segregacionista ora confessada ora não, mas, efetivada.

O crescimento se tornou um fim em si mesmo, o sonho de resgate da unidade humana deu lugar à formação de uma massa critica em direção ao poder.

Em meio a toda essa convulsão, a pregação do amor e do perdão deu lugar ao moralismo e à meritocracia. Na prática, o pecado deixava de ser um alteração da natureza humana para se tornar uma escolha moral, e a manutenção da salvação deixava de ser parte do presente de Deus para se tornar uma conquista humana, à custa do cumprimento de tarefas e de investimento financeiro, numa busca desenfreada por mérito diante de Deus.

Com toda essa mudança, a questão moral ganhou uma relevância central; em meio a isso surge a pauta, sem dúvida, legítima, da luta pelos direitos civis da comunidade homoafetiva. 

Aguçada pela PL 122 que, inadvertidamente, resvalava na questão religiosa, que é clausula pétrea na constituição, o que acabou por derrotá-la na CCJ, a comunidade evangélica rearmou as suas baterias: atacou a proposta e voltou a desconfiar da esquerda. A comunidade, então, se abriu para aceitar como verdade tudo o que fosse dito contra a esquerda, principalmente, no que tange à acusação de que a esquerda quer acabar com a família e com a igreja, dado ao seu ateísmo, e à sua visão da família como mantenedora da sociedade pequeno-burguesa.

 

II

O governo popular foi benfazejo para os evangélicos, uma vez que todos os avanços sociais beneficiaram, diretamente, aos fiéis, majoritariamente, presentes na população com maior vulnerabilidade. Contudo, os crescentes ataques ao governo popular encontraram guarida entre os evangélicos por causa do crescimento da pauta moral e do medo, quanto às intenções da esquerda, já mencionado.

A bancada, dita, evangélica que antes era acusada de se formar para conquistar concessões de mídia, agora começa a se posicionar sobre as questões morais, e a fazer acordos com os grupos que se dispuseram a apoiá-la em suas lutas, mesmo que fossem representantes de temas, até então, aversos aos cristãos, como a política armamentista.

A bancada evangélica, julgando representar todos os evangélicos, adere ao impeachment. Aqui inicia-se uma ruptura, os evangélicos, concordes quanto a não quererem ser pressionados em sua fé, fosse o motivo que fosse, revelam sua divisão ideológica. Cerca de um terço se recusa a acompanhar a maioria. 

A possibilidade de dissidência eventual, já havia aparecido quando um grupo de pastores pediu para que os evangélicos não votassem em candidatos de esquerda, especialmente, no PT. Os evangélicos que, na primeira eleição de Dilma Rousseff, descarregaram os seus votos em Marina Silva no primeiro turno, no segundo turno ficaram com Dilma – isso aconteceria, também, na eleição para o segundo mandato.

Depois do golpe, a comunidade evangélica, em sua maioria, graças a movimentação de pastores influentes, começa a apoiar o governo interino, assumido pelo vice-presidente, que estes mesmos pastores haviam atacado, alegando suspeição quanto à sua confissão de fé. Uma mudança importante acontecia aqui, os evangélicos, em sua maioria, caminhavam para uma postura politico-partidária assumida à direita.

A direita rapidamente percebeu que os pastores tinham cada vez mais povo, principalmente, da periferia, onde desde a década de 1980 a igreja evangélica, em seu seguimento pentecostal, havia aportado, graças à sua pregação sobre o poder do Espírito Santo e à sua resposta intuitiva à escravização, que nunca foi discutida a contento pela sociedade brasileira, à direita ou à esquerda. No acolhimento da igreja e no empoderamento pelo Espírito Santo, o homem preto e a mulher preta se livravam do estigma da escravização, vivido por quatro séculos. Empoderados pelo Cristo, pretos e pretas deixavam de ser vistos como escravizados, que é a forma do racismo brasileiro, e passavam a ser vistos como ungidos por Cristo, filhos de Deus e ministradores do poder do Espírito Santo. Lamentavelmente, essa intuição não alcançou a questão da segregação econômica por meio de uma política, intencional, de empobrecimento.

A direita percebeu que os pastores lhe propiciariam o que, até então, era impensável: uma multidão pronta a apoiar um discurso que garantisse seus valores, mesmo a custo de seu progresso econômico, o que, óbvio, não seria exposto. E o candidato que melhor se preparou para essa nova realidade, ainda que tendo de mentir muito e fugir dos debates’ para não expor suas fraquezas, ganhou as eleições.

 

III

Com o governo Bolsonaro, a maioria dos evangélicos se sentiu no poder, e começou a expulsar de suas comunidades os evangélicos que compõem o terço que não só não aderiu, como, ostensivamente, começou a se opor. Estes evangélicos começaram, então, a organizar a resistência. Alguns, que já tinham grupos formados, como a Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito, começaram a visibilizar a sua oposição, outros aderiram aos movimentos já organizados, e outros começaram a se organizar, inclusive formando novas comunidades de fé.

O primeiro ano do governo, hoje sem partido, parecia anunciar aos resistentes uma derrota fragorosa, até porque toda a direita estava alvoroçada e o apoio ao governo parecia irrestrito. E nada parecia abalar a convicção dos dois terços de evangélicos, que continuaram a campanha da destruição dos opositores dentro da comunidade, para evitar defecções, uma vez que as diatribes do presidente causavam preocupação, por ferir os ouvidos mais sensíveis dentro da comunidade.

A postura autoritária do presidente era tolerada pelos evangélicos, principalmente, os de corte pentecostal, porque já conviviam com esse tipo de comportamento em seus líderes, e a nova visão da hierarquia propagava que o Reino de Deus não era uma democracia, embora, a primeira decisão tomada na Igreja primitiva, o estabelecimento da diaconia, tenha acontecido por meio democrático, onde cada pessoa valeu um voto, talvez, o primeiro grupo humano a fazer isso, sem corte social ou de gênero. Além disso, o presidente tinha o apoio de presbiterianos e batistas, tidos, pelo povo, como a reserva teológica da reforma protestante. 

O quadro começa a mudar, a favor dos resistentes, com a pandemia. A irresponsabilidade, a insensibilidade, e o desgoverno começaram a ficar, gradativamente, claros para a comunidade à medida que começavam a enterrar os seus mortos. 

No primeiro momento, a maioria dos evangélicos, também, aderiu à tese da gripezinha e do resfriadinho, e da cloroquina e, principalmente, a da não necessidade de isolamento social horizontal. Houve quem começou a propagar que os fiéis ficariam imunes ao flagelo, enquanto outros entendiam ser um castigo frente a devassidão moral, logo, não atingiria aos que se preservaram, moralmente. Daí a fala de um grupo de pastores afirmando que a ciência não era a única autoridade sobre o flagelo. 

Colaborou com a teimosia em acreditar no presidente o fato de muitos movimentos evangélicos dependerem muito da reunião presencial, por necessidade financeira. Tinham construído corporações ou igreja de eventos e de sensação de catarse coletiva, por manipulação emocional, que lhes garantia vultosas arrecadações de recursos financeiros, sem a qual começaram a se ver em palpos de aranha, com dívidas astronômicas se avolumando.

As mortes, entretanto, chegaram. Muitos crentes e muitos pastores foram contaminados e não poucos morreram e estão morrendo. Um momento de angústia onde toda a fé parecia não ser suficiente, se instalou. Nesse momento, os erros do presidente, na condução do combate à pandemia, começaram a saltar aos olhos. Com a agravante de que essa enfermidade é cruel, principalmente, do ponto de vista emocional. 

 

Ontem fui me despedir de você…

Nada pude ver, só caixão lacrado!

Foi por Covid, tudo bem isolado.

Sem escolha, só ficar à mercê!

 

Impossível ir ao tal hospital…

Amor que não pôde ser demonstrado;

Carinho que não foi comunicado;

Distância que virou dor abissal!

 

Sem velório, foi mesmo proibido!

Cena dantesca, tanta dor aos gritos!

Gente distada sem pudor algum!

 

Eu, você sabe, com grito contido.

Os seus estavam fora, qual proscritos!

Não viram você na vala comum.

(Ariovaldo Ramos)

 

A pessoa leva um ente querido ao hospital, se despede ali, na porta, sem saber se o verá de novo, e fica sem saber como se despedir, constrangida pelo fato que não pode sugerir ao ente querido que ele ou ela não voltará para casa, embora, saiba que essa possibilidade é real, e que se isto acontecer, aquela é a ultima vez que se encontrarão, porque se a pessoa for internada não poderá ser visitada, não haverá como acertar arestas, ou comunicar amor, e não haverá velório, e nem uma última visão do ente amado. 

Não há fanatismo político que diante de um quadro como este, que pode acabar numa vala comum, sobreviva à reação de um presidente que tudo o que consegue dizer é: “E daí?”. E muitos evangélicos começaram a repensar o seu voto.

É claro que o mesmo dilema que se abate sobre todos alcança os evangélicos. A necessidade de sustento, diante de um governo irresponsável, que poderia ter se responsabilizado pelo sustento do trabalhador durante a quarentena, assim, como pela manutenção do emprego, mas optou por expor a todos à Covid-19, sem se importar com os custos para a pessoa humana. 

Alguns pastores, que, no inicio, pregaram que a política do governo estava certa, estão, gradativamente, perdendo a autoridade diante da lambança do presidente. Pastores há, que já estão em busca de recuperar a teologia  protestante, uma vez que a antes adotada, já não dá conta de apascentar gente que se desiludiu com o triunfalismo e que, aos poucos, percebe que foi enganada.

Um novo quadro está se desenhado, cujo contorno final ainda não se fez claro. Mas uma coisa parece certa, no campo evangélico: nada será como antes.

Ariovaldo Ramos é coordenador nacional da Frente de Evangélics pe Estao de Direito.



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