Narcotráfico, um inimigo conveniente
Assim que foi nomeado ministro do Interior francês, Laurent Nuñez, ex-prefeito de polícia de Paris, anunciou que a “guerra contra os narcotraficantes” seria uma de suas duas prioridades. Esse tema tem sido alvo de discursos cada vez mais alarmistas, num contexto de analogias com a América Latina. No entanto, a crescente demanda por drogas parece interessar menos do que a caça aos fornecedores
“O crime não só é normal; também é fácil provar que ele tem, de fato, utilidades.” No momento em que o “narcotráfico” parece ter se tornado um dos principais flagelos da sociedade francesa, essa frase de Karl Marx, retirada de um curto texto redigido no início da década de 1860, merece atenção.[1] No contrapé da criminologia da época, inclinada a ver a delinquência como uma patologia (social ou mental), o autor sugere que ela seria, na realidade, consubstancial à vida coletiva. A pista foi explorada mais sistematicamente por Émile Durkheim: o sociólogo mostraria alguns anos depois que o agrupamento de certos atos ou comportamentos sob a categoria de “crime” serve para fixar as fronteiras morais de uma sociedade, separando uma maioria de “homens honestos” de uma minoria de “criminosos”.[2] Contudo, Marx tem uma intuição adicional quando se interroga sobre os “benefícios secundários” dessa criminalidade, ou seja, sobre o conjunto de…

