Natureza humana ou condição humana: uma questão pré e pós-pandemia

Natureza humana ou condição humana: uma questão pré e pós-pandemia

por Genauto Carvalho de França Filho e Jean-Louis Laville
14 de Maio de 2020
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O período atual testemunha os resultados desastrosos dessas escolhas irresponsáveis no plano social e ambiental, conforme revelam os inúmeros desastres socioambientais provocados pela necessidade de contenção de custos em atividades empresariais intensivas

Se o neoliberalismo tem marcado tanto nossas sociedades nas últimas décadas é porque ele está longe de se reduzir a sua dimensão econômica e se constituiu num verdadeiro projeto antropológico. Formulado por autores como F.Hayek e M.Friedman, sob inspiração de L.Mises, tal doutrina nasce em reação à emergência de novos movimentos sociais no último terço do século XX. Segundo Hayek, novos movimentos como a ecologia ou o feminismo provocariam um excesso de democracia e engendrariam a desordem. Ele se mantém, assim, fiel à Mises que já havia se pronunciado a favor do fascismo em anos anteriores. O neoliberalismo articula então a recusa de uma democracia considerada ingovernável, segundo os seus termos, com o projeto de reorganização inteira da sociedade em torno do princípio da concorrência, graças as autoridades públicas adquiridas no mercado.

Com base nessa recomendação, o modelo da empresa dotada de gestão racional é difundido para todos os domínios da atividade humana, tornando a ideia de eficiência e de eficácia prisioneiras de uma avaliação unicamente com base em resultado econômico-financeiro. Ora, esta é incompatível com exigências específicas em áreas como a saúde, a educação ou a assistência social, entre outras. Além disso, tal maneira de pensar acaba alimentando o extrativismo predatório, ou seja, a utilização de recursos sem a preocupação com sua renovação. O neoliberalismo tem, desse modo, engendrado o reino de uma lei da selva, que agrava as desigualdades sociais e maltrata a natureza.

O período atual testemunha os resultados desastrosos dessas escolhas irresponsáveis no plano social e ambiental, conforme revelam os inúmeros desastres socioambientais provocados pela necessidade de contenção de custos em atividades empresariais intensivas. Brumadinho no Brasil é apenas uma ilustração de tantos outros casos conhecidos. Diante dos riscos de catástrofes mais amplas evidenciados pelos estudiosos do colapso, dois autores franceses, Servigne e Chapelle, invertem a lógica e nos propõe uma reconexão com a ajuda mútua que eles designam como “a outra lei da selva”, conforme título do seu livro recente. Ao elogio da competição, eles substituem aquele da cooperação, inscrevendo-se na linhagem de P.Kropotkin, para quem, a lei natural não era a lei do mais forte e sim a ajuda mútua, na qual ele desvela os traços e suas raízes tanto nas espécies animais quanto nas sociedades humanas mais antigas e sem Estado.

Esta aposta sobre o diálogo e a empatia carrega em si dois valiosos argumentos. Em primeiro lugar, tem o mérito de nos lembrar que as atitudes instrumentais e estratégicas não são inatas. Em segundo lugar, põe em evidência que, na natureza, é a cooperação que pode ser considerada uma norma comum, sendo a competição uma ocorrência apenas em situações excepcionais. A narrativa justificadora de um certo “enobrecimento do egoísmo” não encontra então fundamentos nos sistemas vivos que são incapazes de sobreviver sem cooperação.

Entretanto, o argumento de Kropotin esbarra num problema elementar: ele nos faz crer que o sistema dominante perverteu seres essencialmente bons. Ao atribuir aos humanos uma essência anterior a cultura, ele acaba alimentando a ilusão de uma sociedade reconciliada no amanhã e desvia nossa atenção sobre as divisões e conflitos inerentes a qualquer democracia. Ora, o presente ilustra a ambivalência do comportamento humano, entre retraimento individualista e disposição para a solidariedade. E num passado recente, H.Arendt nos mostra, através da sua análise do totalitarismo, como o mal pode ser banalizado numa sociedade com a disseminação do ódio às instituições democráticas. No lugar de uma visão sobre a natureza humana, nossa reflexão, mais do que nunca, deve ser dirigida sobre a condição humana e as possibilidades de uma comum humanidade.

O futuro não endossará nenhuma lei da selva, nem a baseada no egoísmo, nem a baseada na ajuda mútua. O desafio é outro: trata-se de mudar, antes que seja tarde demais, a estrutura institucional promovida pelo neoliberalismo que favoreceu a uniformização do mundo. Torna-se então crucial reconhecer que a preocupação com o que é comum, bem como com a lógica do público e da solidariedade, deve encontrar pontos de referência específicos para não serem reduzidos aos da empresa privada. Não existe natureza humana ruim ou boa por definição, mas existem formas institucionais que podem incentivar a padronização ou, pelo contrário, facilitar a expressão da pluralidade. Se a diversidade é uma condição elementar para a saúde de uma sociedade democrática, é preciso reconsiderar o valor das variadas iniciativas de solidariedade que estão reemergindo em tempos atuais. Elas desenham os contornos de uma transição necessária em termos de novos modelos de organização socioeconômica, mas devem encontrar respaldo político.



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