Nem sinal de faísca - Le Monde Diplomatique

O QUE EU DIREI AO MEU IRMÃO?

Nem sinal de faísca

por Mariana Ferrari
15 de junho de 2022
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O feijão seguiu normalmente na panela quando era preciso um incêndio generalizado

Meu irmão tem 6 anos e eu tenho medo de seus olhos de menino. O olhar curioso, que busca encontrar respostas para as suas dúvidas, faz com que eu me angustie pelo dia em que ele perguntar: “Por que nada aconteceu? Como era possível a vida seguir normalmente?” Terei medo, e como mecanismo covarde de defesa, talvez chore compulsivamente, soluçando para silenciar as palavras que eu não desejaria pronunciar. Observo seus pés apressados diante do impulso infantil, os pés que pouco tocam o chão. Queria que assim sempre fosse, os pés distantes daquilo que nos enraíza na realidade. Enquanto meu irmão pula, corre, gargalha… vive, o país que ele carrega em sua nacionalidade simplesmente seguiu. Acordou, tomou café da manhã enquanto 22 corpos eram executados na Vila Cruzeiro, no Rio de Janeiro. Vinte e dois corpos que, assim como eu, poderiam seguir observando o mundo, mas que foram cravados de balas, ensanguentando o chão e escancarando a miséria social na qual vivemos, aquela que valida, somente pelo olhar, aqueles corpos que devem viver e os que terão de morrer.

Tenho medo quando meu irmão já crescido, mas ainda com seus olhos curiosos, me perguntar: “Como acreditaram que assim chegaríamos a algum lugar?” Mesmo observando as calçadas da Vila Cruzeiro serem tingidas de sangue vivo, quente, nenhuma faísca parecia ser suficiente para o país pegar fogo, fazer da nação um inconformismo unânime e incendiário. Peço licença a Emicida para fazer de seu descontentamento o meu também: “Era para esse país estar pegando fogo”. O que eu direi ao meu irmão quando ele me perguntar: “Por que não existiu nem a possibilidade do início de um incêndio?” A resposta virá como parte da história.

Ainda que a Vila Cruzeiro seguisse ensanguentada, ainda que as padarias tenham nascido com um murmurinho de vozes que comentavam o inconformismo ou a aceitação, a vida seguiu normalmente nos dias em que se passaram. Ainda que o café estivesse um pouco mais amargo que o normal. Ainda que o pão tenha queimado na chapa, a vida seguiu, patrões seguiram comprando o tempo, suplicando pela normalidade.

Quando a mentira da ordem parecia ter de novo fincado em nosso projeto de nação, às 11 horas da manhã, no momento em que a panela de pressão gritava dentro dos lares, Genivaldo de Jesus Santos agonizava dentro de uma viatura policial em Sergipe, agonizava porque foi preso vivo dentro da viatura que estava com portas e vidros fechados, asfixiando o homem de 38 anos que disputava a respiração com gás lacrimogênio e spray de pimenta. Genivaldo de Jesus Santos, que morreu asfixiado em uma viatura de gás, teve os seus últimos segundos de vida gravados. O vídeo está aberto ao público, à nação, disponível para os curiosos e também aos indignados.

Ainda assim, a panela de pressão foi aberta, o feijão temperado, os restaurantes seguiram com filas de espera para o almoço, a reunião não pôde ser adiada, em alguns lugares foi preciso comentar no sussurro a indignação – se o funcionário falasse muito alto que a polícia no Brasil mata, que estamos sob um estado de exceção, que já não há mais democracia, seria ele o errado, com chance de perder o sustento: porque a indignação neste país tem de ser velada, os que muito gritam, estão com a corda no pescoço, tem de silenciar para não perder o emprego, afinal, mais de 11 milhões de brasileiros não podem nem seguir com a normalidade, falta emprego, falta feijão e há muita fome.

O Brasil que se acomodou com a barbárie, que já não mais chora pelos seus mortos, que acredita na mentira de que é possível viver em segurança quando execuções são chamadas de ações policiais, que não palpita ao ver um homem agonizando dentro de uma viatura até morrer asfixiado pelo gás, é o mesmo país que não esbanja o mínimo de faísca possível para atear fogo contra esse Estado, para atear fogo contra as mortes, para atear fogo em um projeto anti-nação, para atear fogo e começar de novo. Atear fogo para que no dia em que meu irmão me perguntar o que fizemos diante disso, eu possa falar, sem medo: “O país pegou fogo”.

Mariana Ferrari é escritora e jornalista.



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