No rastro do povo de Luzia - Le Monde Diplomatique

Entrevista

No rastro do povo de Luzia

por José Tadeu Arantes
Maio 4, 2009
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Ela tinha traços parecidos com os dos primeiros australianos e africanos. E viveu no território brasileiro há mais de 11 mil anos. Quase uma década depois do estudo sobre a morfologia da mais antiga habitante da América até hoje encontrada ter virado a arqueologia de ponta cabeça, seu autor relata em livro os pormenores

A descoberta de Luzia1, o mais antigo esqueleto humano até o momento encontrado na América, seria suficiente para assegurar o ingresso da arqueologia brasileira na maioridade. Mas o estudo desse fóssil traria ainda duas revelações bombásticas. Sua idade, estimada entre 11.000 e 11.500 anos, desafiava o modelo hegemônico sobre o povoamento do continente, chamado de maneira simplificada de Clovis First 2. Mais espetacular ainda, sua morfologia craniana nada tinha a ver com a mongolóide, característica dos atuais indígenas americanos, mas com a negróide, dos primeiros habitantes da África e da Austrália. Por conta de Luzia, o mineiro Walter Alves Neves, principal responsável pelo estudo dessa remota ancestral (inclusive pelo simpático nome que a popularizou), tornou-se uma celebridade internacional. Porém, teve que sustentar uma guerra prolongada contra os “clovistas”, que dominavam a arqueologia norte-americana e faziam de seu modelo um dogma opressivo. Graças a ele e outros, o modelo Clovis First  está hoje desacreditado e propostas de povoamento muito mais instigantes podem ser debatidas. Professor titular do Departamento de Genética e Biologia Evolutiva da Universidade de São Paulo, Neves, que acaba de publicar um livro destinado ao grande público sobre sua aventura científica 3, falou com muita descontração e bom humor a Le Monde Diplomatique Brasil.

Diplomatique Quando pensei em entrevistá-lo, imaginei o seguinte título para a matéria: “No povoamento da América, o negro chegou primeiro”. Este tipo de afirmação se sustenta?

Walter Neves Pode esquecer. Aliás, tem duas coisas que a imprensa poderia me ajudar a esclarecer, até porque foi ela que produziu o mal-entendido. Primeiro: afirmaram que eu teria dito, em algum paper, que os primeiros americanos vieram diretamente da Austrália para cá. Eu jamais disse isso. Nunca me passou pela cabeça. Inclusive porque essa tese já havia sido apresentada por Paul Rivet 4 nos anos 1940, e foi massacrada. A partir de outros elementos, ele percebeu o mesmo que eu percebi, e propôs uma migração direta. Não há necessidade dela, porque a gente sabe que essas populações estavam na Ásia também. Elas podem, perfeitamente, ter entrado por cima, pela região que corresponde atualmente ao Estreito de Behring. Quando eu digo que os primeiros americanos são mais parecidos com os australianos e os africanos, não estou propondo uma migração direta da Austrália ou da África.

Diplomatique E a segunda coisa?

Neves A segunda coisa, na qual você pode me ajudar muito, é informar que a gente não tem a mais remota idéia da cor da pele de Luzia e de seu povo. Quando uso o termo negróide, digo isto a partir do formato do crânio. Não da cor da pele. Nós não sabemos e nunca saberemos qual era a cor da pele dos primeiros americanos. Nada contra que fossem negros. Acho perfeito que fossem. Mas não temos evidência nenhuma.

Diplomatique A imprensa simplificou suas idéias?

Neves Eu tenho uma relação muito boa com a imprensa e me orgulho disso, porque acho que a imprensa disponibiliza rapidamente o conhecimento gerado. Posso escrever um artigo científico, publicar um livro, promover uma exposição, mas acho que a divulgação feita pela imprensa encurta muito o caminho até o grande público. Por isso, gosto de trabalhar com a imprensa. Mas, às vezes, ela faz certas simplificações. E acabou sacralizando as duas idéias erradas que eu tenho feito um esforço danado para mudar.

Diplomatique Só um parêntesis. A Niède Guidon5 propõe uma migração direta, não é? Ou estou enganado?

Neves O modelo que ela mais gosta é o da migração direta da África para cá.

Diplomatique Via Atlântico?

Neves Via Atlântico.

Diplomatique Ainda quero falar da proposta de Niède. Mas, neste momento, gostaria de voltar ao seu modelo.

Neves Você pode explicar perfeitamente o povoamento da América sem recorrer a travessias oceânicas, porque, antes dos asiáticos do tipo atual, que a gente chama de mongolóides, populações parecidas com os australianos e africanos estavam presentes na Ásia.

Diplomatique Os adivasis 6, que existem até hoje na Índia, poderiam ser descendentes dessas populações?

Neves Talvez. Mas a gente sabe que os mongolóides também surgiram a partir das populações de tipo australiano ou africano por meio de um processo de seleção natural causado pelo frio intenso.

Diplomatique Pensei que fossem populações distintas.

Neves Não. Alguns autores acham que possa ter havido uma contribuição européia, pelo Norte. Mas a maioria acredita que a gênese da morfologia mongolóide se deu no nordeste asiático, a partir dessas populações mais antigas, de morfologia generalizada.

Diplomatique Essa suposta diferenciação teria ocorrido em que época?

Neves Isso é muito discutido. Existe pouco material na Ásia para uma datação precisa. Estima-se que tenha ocorrido por volta de 10 mil anos atrás.

Diplomatique Tão recentemente assim?

Neves Muito recentemente. Aliás, vou lhe dizer uma coisa, nós estamos descobrindo, cada dia mais, que o processo de raciação é muito tardio. Veja o caso dos famosos Cro-magnons, que são os primeiros europeus. Nós vamos lançar um paper mostrando que há uma grande identidade morfológica entre os Cro-magnons e os primeiros americanos. Por quê? Porque o homem surgiu na África. Da África, espalhou-se pelo mundo. Então, num primeiro momento, o planeta estava coberto por uma população original de tipo africano. Foi a submissão desses humanos a diferentes situações ambientais que deu origem ao processo de raciação. Quando digo que os primeiros europeus, os Cro-magnons, são muito parecidos com os primeiros americanos não estou afirmando que houve uma migração dos Cro-magnons para cá. A semelhança vem do fato de que todos nós repartimos um ancestral comum, que saiu da África por volta de 50 mil anos atrás. O mundo inteiro tinha essa cepa, que a gente chama de morfologia primitiva ou morfologia generalizada. As especializações morfológicas, ou seja, o processo de raciação, ocorreu bem depois.

Diplomatique Vamos pensar em uma seqüência cronológica.

Neves Vamos lá. O Homo sapiens surge na África há cerca de 200 mil anos. Alguns autores acham que possa ter havido uma expansão modesta há 120 mil ou 100 mil anos. Mas o que todo o mundo fecha mesmo é que nós saímos retumbantemente da África por volta de 50 mil anos atrás.

Diplomatique Isso significa que, até há 50 mil anos, não havia homens fora da África?

Neves Homens do tipo Homo sapiens não. É claro que sempre existem dissidências, seja em relação a este, seja em relação a qualquer ponto de vista. Por exemplo, a Austrália está ocupada há, no mínimo, 45 mil anos. Alguns autores recuam o povoamento para 60 mil anos. Então, fica complicado você dizer que o homem só saiu da África há 50 mil anos. Mas, no geral, a grande saída, a saída retumbante, para todos os lados, ocorreu realmente por volta de 50 mil anos atrás. Há vestígios humanos na Europa com 36 mil, 34 mil anos. E vestígios na América com, pelo menos, 12 mil.

Diplomatique Diante desta periodização, não estou entendendo por que alguns autores datam o início do Paleolítico Superior em algo como 100 mil anos.

Neves A opinião predominante é que o Paleolítico Superior começou por volta de 45 mil atrás. Acontece que tem duas grutas na África, uma na África do Sul e outra no Zaire, em que apareceram algumas ferramentas de osso, características do Paleolítico Superior, em níveis datados entre 100 mil e 110 mil anos. Mas existe muita discussão sobre esse material. O consenso é situar o início do Paleolítico Superior há 45 mil anos.

Diplomatique Vamos retomar a cronologia.

Neves Então, há 200 mil anos, aparece o Homo sapiens na África. Há 50 mil anos, ele se generaliza pelo mundo. E, provavelmente, há 15 mil anos, começam os processos de raciação. No caso do nordeste da Ásia, que é o que nos interessa, os mongolóides devem ter surgido por volta de 10 mil anos atrás. Depois, entraram na América. A minha contribuição é mostrar que, antes desses mongolóides entrarem na América, já haviam entrado grupos constituídos por aqueles Homo sapiens de morfologia generalizada, semelhante à dos australianos e africanos. Quer dizer que, também na América, entrou esse estrato básico generalizado dos primeiros Homo sapiens. O que eu digo, em resumo, é que esses não mongolóides, que entraram na América, deram origem, na Ásia, aos mongolóides. E que os mongolóides, depois, entraram na América, também.

Diplomatique Qual é a sua hipótese para esses grandes deslocamentos humanos?

Neves Crescimento demográfico e competição. Eu não gosto de usar a palavra “migração”. Migrações lineares, para destinos distantes, são coisas muito raras entre os seres humanos. O que ocorre, em primeiro lugar, é o crescimento demográfico; com o crescimento demográfico, surge a necessidade de ocupar novos territórios; com ocupações territoriais sucessivas, a população acaba se expandindo por vastas áreas. Você pode dizer que houve uma, duas ou três populações do Velho Mundo que contribuíram para formar os americanos. Agora, quantas levas migratórias entraram, isto nós não vamos saber nunca. Porque não houve um processo linear de migração.

Diplomatique Foram deslocamentos muito lentos, muito pequenos, muito pontuais, que se somaram durante um longo período. É isso?

Neves Exatamente. Exceto ao longo do litoral. Porque, como o litoral é uma faixa estreita, o grupo precisa rapidamente se fissionar e dar origem a outro grupo. Fissionar e criar um outro grupo. Fissionar e criar um outro grupo. Então, as colonizações costeiras são sempre muito mais rápidas. E, neste caso, já existe uma linha de migração, um eixo a seguir.

Diplomatique Dado pela própria topografia.

Neves Exato. Pense no Istmo do Panamá, por exemplo. Nele, há pouquíssimos quilômetros entre as duas costas. Muito provavelmente, quando os grupos humanos chegaram ao Istmo do Panamá, uns escolheram continuar descendo pela costa do Pacífico, outros pela costa do Atlântico e outros por dentro da Amazônia. Existem sítios arqueológicos na Amazônia brasileira com datações de 11.300 anos.

Diplomatique Com fósseis humanos?

Neves Não. Sítios datados por carvão.

Diplomatique Seu modelo, que se apóia no estudo da morfologia craniana, poderia ser corroborado pelo rastreamento do DNA?

Neves Não necessariamente. Não é preciso supor uma diferença de DNA entre as duas hordas, porque a segunda originou-se da primeira. Então, ela pode ter conservado as mesmas imagens de DNA e ter mudado muito a morfologia. É a seleção natural agindo sobre as mutações.

Diplomatique Esse raciocínio se aplica também ao Homem de Neanderthal?

Neves É uma outra espécie, com desenvolvimento paralelo ao do homem moderno. De um mesmo ancestral africano, o Homo heidelbergensis, surgiu, no ambiente tropical da África, o Homo sapiens, e, nas regiões muito frias do norte europeu, o Homo neanderthalensis. Essas duas espécies aparecem mais ou menos ao mesmo tempo. Tanto é que os primeiros Neanderthais clássicos, completamente Neanderthais, são datados de 180 mil anos. Veja que coisa incrível: locais completamente distintos, mas com a temporalidade evolutiva muito próxima.

Diplomatique Quero insistir em um ponto relativo ao povoamento da América: os dois grandes aportes humanos a que você se referiu, o dos negróides (vamos chamá-los assim para simplificar) e o dos mongolóides, teriam ocorrido, ambos, pelo Estreito de Bering?

Neves Sim, ambos.

Diplomatique Foram, ambos, deslocamentos pedestres?

Neves Não necessariamente. Como sabemos hoje que a América do Norte estava completamente coberta de gelo, estamos apostando muito na chamada via costeira. Com o interior congelado, populações dotadas de canoas muito primitivas, fazendo navegação de cabotagem, podem ter se deslocado ao longo do litoral, chegando ao noroeste da América do Norte, e, daí, descendo pela costa até a América do Sul. Isso explica, por exemplo, porque existe um sítio arqueológico de 12.300 anos no sul do Chile 7.

Diplomatique A navegação costeira teria facilitado o deslocamento?

Neves Exatamente. A navegação costeira permite uma expansão muito rápida. O sítio encontrado no Chile está a apenas 60 quilômetros da costa atual. Veja, não temos nenhuma evidência direta de que houve mesmo essa migração costeira. Mas está todo mundo apostando nela.

Diplomatique Porque o interior estava intransitável.

Neves Sim. Antes, acreditava-se na existência de um corredor livre de gelo no oeste norte-americano. Hoje, sabemos que não foi assim. O gelo cobriu tudo. É por isso que estamos apostando na rota costeira.

Diplomatique Não bastasse a descoberta do sítio chileno, o cenário de um interior completamente gelado já poria em xeque o modelo Clovis First, não é?

Neves É…esse modelo que, durante três décadas, os norte-americanos tentaram enfiar goela abaixo dos sul-americanos.

Diplomatique Qual é a data de Clóvis?

Neves Até alguns meses atrás, falava-se em 11.400 anos. Agora, o sítio foi redatado para algo entre 11.200 e 10.800. Enquanto a idade de Clóvis diminui, surgem outros achados cada vez mais antigos. Além da descoberta do Chile, acabaram de encontrar uma “paleobosta” nos Estados Unidos com 12.400 anos.

Diplomatique Fezes humanas?

Neves Humanas. Fizeram a datação: 12.400 anos!

Diplomatique Para você, isso é ótimo.

Neves Ótimo, porque, quanto mais antiga tiver sido a migração para a América, mais provável se torna que aquela morfologia generalizada de origem africana tenha chegado aqui também.

Diplomatique Sabemos alguma coisa sobre a morfologia do povo de Clóvis?

Neves Nada. Não tem nenhum esqueleto humano claramente associado ao sítio.

Diplomatique Só restos líticos?

Neves Restos líticos e da fauna que eles abatiam, processavam e comiam. Não temos a mais remota idéia da morfologia do grupo humano. Há duas alternativas. Uma que, de fato, Clóvis seja resultado da segunda ocupação, a ocupação mongolóide. A outra – apoiada agora pela maioria dos autores – que aqueles grupos de morfologia generalizada de origem africana tenham descido pela costa do Pacífico da América do Norte, toda coberta de geleiras, e que, mais ou menos onde fica hoje a divisa entre os Estados Unidos e o México, uma parte tenha podido se internalizar, porque lá não havia mais gelo. Na medida em que, devido à elevação da temperatura, as geleiras foram retrocedendo em direção ao Pólo, as populações que se interiorizaram começaram a subir. Então, vamos dizer assim, Clóvis seria um rebote dos mesmos grupos que entraram no continente por volta de 13 mil anos atrás.

Diplomatique O modelo Clovis First foi virado de cabeça para baixo.

Neves Não é fantástico? Essa interiorização a que me referi teria sido a primeira. Muito provavelmente, do gelo para baixo, todas as vezes em que houve oportunidade, eles se interiorizaram. A restrição à costa só vale para o trecho coberto de gelo. Dali para baixo, eu acho que houve tanto o deslocamento costeiro quanto a interiorização. O deslocamento costeiro é sempre mais expresso, porque já existe uma organização linear norte-sul, uma faixa litorânea, limitada pelas cordilheiras, que facilita demais o movimento. E que, além disso, oferece recursos extremamente abundantes. Por isso, alguns autores acham que os primeiros habitantes percorreram todo o litoral do Pacífico para só depois começarem a se interiorizar. Eu acho que não. Acho que a interiorização ocorreu sempre que houve oportunidade. Senão a gente não explica as datas encontradas aqui.

Diplomatique Que datas são essas? Quais são os vestígios comprovadamente humanos mais antigos encontrados no território brasileiro?

Neves Os do Vale do Peruaçu, no norte de Minas Gerais, estudados pelo André Prous 8. Foram datados entre 11 mil e 12 mil anos.

Diplomatique E a idade de Luzia?

Neves Nós não conseguimos estabelecer.

Diplomatique Não?!

Neves Não, porque, para você datar um osso, ele precisa ter conservado o colágeno. Um osso é, vamos dizer assim, uma matriz cartilaginosa de proteína que passa, depois, por um processo de mineralização. A mineralização confere a estrutura final ao osso, mas fica dentro dele um resíduo da matriz de matéria orgânica. É esse resíduo que responde ao teste do carbono 14. Se o osso perdeu esse resíduo, se o osso não tem colágeno, não há como datar. Agora, de uns três anos para cá, apuraram uma técnica para datar dentes humanos. Antes não se fazia isso porque o dente humano tem menos de 5 miligramas de colágeno e não havia aparelhagem capaz de datar uma quantidade tão pequena. Agora já existe. Então, eu estou negociando com o Museu Nacional do Rio de Janeiro para estabelecer definitivamente a idade de Luzia. Vamos sacrificar um dente dela e rezar para que dentro dele haja colágeno em quantidade suficiente. Nos ossos não tem colágeno. Isso nós já sabemos.

Diplomatique Eu podia jurar que a datação havia sido feita.

Neves Não. O que houve foi um chute calculado. O sítio onde ela foi encontrada, a Lapa Vermelha 4, é um local de sedimentação extremamente homogênea. Então, quando escavamos a Lapa Vermelha 4, pudemos fazer um levantamento detalhado dos objetos. Pela idade dos vestígios encontrados pouco acima e pouco abaixo, dizemos, com relativa segurança, que Luzia deve ter entre 11.000 e 11.500 anos. Eu, pessoalmente, me inclino pelos 11 mil. É um chute. Porém, como o material foi muito bem escavado, e os estratos arqueológicos são todos horizontais, bonitinhos, eu acho que usar essa referência estratigráfica não foi uma solução ruim. Mas é claro que seria melhor se nós tivéssemos uma datação direta. Agora, temos essa chance.

Diplomatique E será por dente?

Neves É. Se o Museu Nacional concordar em sacrificar. Porque a Luzia se tornou um ícone da pré-história brasileira.

Diplomatique Não foram encontrados outros fósseis humanos nesse sítio?

Neves Nesse sítio, não. Só a Luzia.

Diplomatique E os outros fósseis com os quais você trabalhou?

Neves São de outros sítios.

Diplomatique Foram datados?

Neves Eu datei vários. Meu último trabalho publicado apresenta uma relação de 31 crânios. Todos com cerca de 10 mil anos. Posso dizer que 99,99% dos esqueletos de Lagoa Santa já estão em museus. E que os que nós estamos escavando agora possuem idades na faixa dos 8 mil aos 10 mil anos, com uma maior expressão ao redor de 8.500. São todos de morfologia generalizada, não mongolóide.

Diplomatique E o sítio do Vale do Peruaçu, pesquisado pelo André Prous?

Neves Não tem esqueleto. Infelizmente. Há vestígios da presença humana. Mas não há esqueletos. O mesmo acontece com o sítio de Monte Verde, no Chile.

Diplomatique Pelo que você está dizendo, em todo o território americano, há poucos fósseis humanos nessa faixa cronológica fora da coleção de Lagoa Santa?

Neves Tem uma boa amostra na Colômbia, com idades entre 6 mil e 11 mil anos. E, no México, existem vestígios de cinco esqueletos, com cerca de 10 mil. Todos eles mostram exatamente a mesma morfologia. Como é que eu vou explicar? Lagoa Santa e Bogotá são as duas grandes exceções. Foi onde realmente os paleoíndios sepultaram dezenas e dezenas de pessoas. Recentemente, a Niède encontrou um fóssil no Piauí. Na época, foi chamado de Zuzu, mas, na verdade, deveria ser Zulu, porque o esqueleto é de homem, não de mulher. Tem cerca de 9 mil anos. Nós mostramos, a Niède e eu, que esse fóssil possui exatamente a mesma morfologia generalizada de Luzia e dos demais esqueletos de Lagoa Santa. O grosso do material de Lagoa Santa já estava nos museus, mas ninguém nunca havia comprovado a antiguidade dele. Incrível, não? Para construir uma cronologia confiável para esses esqueletos, ou datando diretamente ou reescavando os sítios, gastamos cerca de 2 milhões de dólares. Isso mostra que, para fazer pesquisa competitiva, você tem que ter muito dinheiro. Se não fosse pela Fapesp 9, nós não teríamos como encarar os norte-americanos

Diplomatique É bom que você diga isso, porque muita gente imagina que o desenvolvimento da ciência seja um jogo limpo, uma marcha tranqüila. E, na verdade, o sucesso ou fracasso de uma teoria depende, muitas vezes, menos de seus méritos intrínsecos do que do poder de lobby das pessoas envolvidas.

Neves É claro. Só para você ter idéia, uma das principais revistas científicas de nossa área é o American Journal of Physical Anthropology, onde está todo mundo que faz oposição às minhas idéias. Eu consegui publicar em 2005 no famoso PNAS 10 e só consegui publicar nessa outra revista, que tem um décimo de impacto, em 2007, porque fui bloqueado até o último momento. Até o final da década de 1990, eu tinha analisado basicamente os materiais de Lagoa Santa que já haviam sido escavados, que estavam nos museus, inclusive a coleção de Lund11  na Dinamarca. Eu não tinha feito novas escavações. Mas percebi que, se não fizesse novas escavações em Lagoa Santa, primeiro, eu não iria conseguir construir a cronologia para as coisas que já estavam nos museus, e, segundo, meu modelo não seria tão bem aceito. Então, em 2000, nós começamos um grande projeto, chamado “Origens e microevolução do homem na América”, financiado pela Fapesp. De 2000 para cá, temos conduzido nossas próprias escavações na região. Entre outras preciosidades, descobrimos 23 esqueletos humanos, excelentemente conservados, datados entre 8.000 e 8.300 anos, todos com a morfologia original, generalizada, dos sapiens. E submetemos mais de 400 amostras à datação, juntando osso, dente e carvão. Cada datação custa em média uns 800 dólares. Então, só aí, já enterramos 360 mil dólares.

Diplomatique Essas datações são feitas no Brasil?

Neves Não, você está louco! Eu mando para a melhor empresa do ramo, nos Estados Unidos. Esse negócio é um ninho de marimbondos: ou você entra em grande estilo ou é melhor não se meter. Tudo o que eu publiquei, entre 1989 e 1998, foi solenemente ignorado. E eu publiquei em boas revistas internacionais. Foi só com o efeito de mídia produzido pelo estudo de Luzia que meus adversários se sentiram, digamos assim, pressionados…

Diplomatique: …A rever posições.

Neves A ver o que aquele louco da América do Sul, da República da Banana, estava dizendo. E, ainda assim, tentaram tornar o meu trabalho ridículo, dizendo que eu propunha uma migração direta da Austrália para cá. Eu nunca disse isso.

Diplomatique Neste ponto, é inevitável voltar a Niède Guidon. Porque você fala em navegação de cabotagem. E ela propõe a travessia do Atlântico. Você trabalha durante duas décadas, gasta 2 milhões de dólares, enfrenta o maior bloqueio dos americanos para inserir os negróides no modelo e fazer a datação recuar em mil, dois mil anos. E ela sustenta que os primeiros habitantes chegarem diretamente da África, há…

Neves Cem mil anos! Quando conversamos pela última vez, foi mais ou menos em cima desta data que ela se posicionou. Ela encontrou pedras que acredita terem sido usadas em fogueiras e que foram datadas em cem mil anos. Então, acha que tem evidências suficientes para propor um povoamento nessa faixa cronológica. Eu fui, durante 20 anos, o inimigo público número um das tais ferramentas líticas e fogueiras da Pedra Furada. Mas, em 2005, ela me convidou para visitá-la. Fomos eu e o geoarqueólogo do laboratório. Pedi para ver todos os achados líticos de Pedra Furada e ela me mostrou. Como tive uma boa formação em tecnologia lítica no início da carreira, eu me sentia preparado para ver aqueles objetos. E, realmente, saí 99% convencido de que se tratava de ferramentas feitas por humanos e que os carvões eram, de fato, restos de fogueiras. Isto até um nível de 32 mil, 34 mil anos atrás.

Diplomatique Mesmo que fossem 20 mil anos, isto já seria uma revolução!

Neves É. Mas faltava 1% para eu ter certeza. Uma coisa que eu nunca entendi foi por que a Niède não convidou o maior especialista em tecnologia lítica para examinar seus achados. Ela podia ter feito isso há muito tempo: esses especialistas estão na França e ela tem as melhores relações com a arqueologia francesa. No ano passado, finalmente, veio um dos grandes especialistas franceses, viu o material e também chegou à conclusão de que eram humanos. Então, agora, eu estou 99,99% convencido. Mas, honestamente, não quero nem pensar no assunto. Porque é uma mudança tão grande de paradigma que eu não sei se tenho físico para agüentar.

Diplomatique Pois, se isso for verdade…

Neves Eu posso jogar fora tudo o que fiz! Nós estamos agora trabalhando com um esqueleto humano que ela achou recentemente e que desconfia que tem mais de 25 mil anos.

Diplomatique Ah, então existe esse esqueleto?

Neves Existe. Eu mandei datar duas vezes. Não tem colágeno. E também não tem dente. Mas, muito próximo do esqueleto, foi encontrada uma mandíbula de veado. Estão datando. O resultado deve chegar a qualquer momento. Porém, a gente percebeu que o processo de preenchimento da caverna foi muito mais complexo do que o pessoal da Niède pensava. Então, o fato de uma peça estar ao lado da outra não significa, necessariamente, que tenham a mesma data. Mas estamos estudando. Porque, se realmente conseguirmos provar, mesmo que só estratigraficamente, que esse esqueleto tenha, não precisam ser 25 mil anos, basta que sejam 13 mil, isso já será um arraso, você me entende?

 

*José Tadeu Arantes é jornalista, foi editor de Le Monde Diplomatique Brasil entre agosto de 2007 e agosto de 2008.



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