Nosso cotidiano revolto - Le Monde Diplomatique

OPINIÃO

Nosso cotidiano revolto

por Augusto Caccia-Bava
9 de janeiro de 2023
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A opinião pública vem de um processo de formação de opiniões individuais ou coletivas. Vem dos estímulos provocados pelo o que vemos e ouvimos, nos programas de rádio, de televisão, ou lemos nos jornais cotidianos para pensarmos sobre experiências que também vivemos, ou outras que grupos humanos distintos dos nossos vivem. Vem também das leituras que fazemos dos jornais editados semanalmente, ou mensalmente. E quanto mais distante uma publicação da outra, do mesmo jornal, mais densas as matérias que encontramos e mais difícil sua leitura

Opinião, opinião pública, conhecimento cotidiano, conhecimento científico, consciência social, consciência política são experiências humanas vividas no processo social de formação de todos nós, os integrantes das sociedades constituídas. A opinião é expressão do conhecimento imediato que temos, de nossas vidas, em consequência das relações sociais que vivemos junto aos nossos grupos de referência: na família, na escola, no trabalho doméstico, no trabalho contínuo fora de casa, no trabalho formal, com registro em carteira. No caminho para o trabalho, ou para a escola, ou para encontrar pessoas conhecidas, também formamos opiniões, sobre as condições de segurança, ao caminharmos pelas ruas e atravessarmos avenidas, ao encontrarmos pessoas que não conhecemos e nas relações sociais que surgem com desconhecidos nossos, mas que também andam nas ruas.

A opinião pública vem de um processo de formação de opiniões individuais ou coletivas. Vem dos estímulos provocados pelo o que vemos e ouvimos, nos programas de rádio, de televisão, ou lemos nos jornais cotidianos para pensarmos sobre experiências que também vivemos, ou outras que grupos humanos distintos dos nossos vivem. Vem também das leituras que fazemos dos jornais editados semanalmente, ou mensalmente. E quanto mais distante uma publicação da outra, do mesmo jornal, mais densas as matérias que encontramos e mais difícil sua leitura.

(Foto: Unsplash)                                                                        

Há distinção nos processos de formação de opinião, assim: daqueles que trabalham em instituições que não conhecemos, sobre assuntos que não conhecemos, mas que um dia chegam a nós. Nesse processo passamos a ter conhecimento do que é feito em outros lugares, por outras pessoas. Esse é o conhecimento chamado empírico e juntando os dois, opinião e conhecimento empírico, vivemos o processo de formação da opinião pública. E quem escreve para formarmos opinião são todos os cientistas, jornalistas, representantes de instituições laicas, ou religiosas e, com mais frequência do que antes, as parlamentares e os parlamentares, de todas as instituições legislativas, em nosso País.

Quando algumas opiniões pegam, quando são compartilhadas por muitas pessoas com as quais convivemos, aí formam-se os consensos. E os consensos podem fazer parte da opinião pública, através de profissionais da imprensa, os jornalistas, que saem para entrevistar representantes de grupos que estão vivendo uma intensa experiência, que está nos impactando. E os consensos podem ser ativos e passivos. Quando formamos uma opinião que é compartilhada por muitos, que se manifestam através das instituições onde se encontram, o consenso é ativo. Já, quando as opiniões formadas são motivo de bate-papos de vizinhança, ou nos trabalhos, ou nos bares, ou nos encontros religiosos, aí o consenso é passivo. Porque, de forma passiva compartilhamos de opiniões e seguimos em frente, fazendo o que temos que fazer.

O conhecimento cotidiano circula por todos os grupos que convivem nas mesmas cidades, nas mesmas instituições e são referência para darmos exemplos de nossas opiniões. Esse conhecimento cotidiano pode ser adquirido, de forma espontânea, ou através de um processo reflexivo, resultante de leituras de jornais, de livros de divulgação, de livros científicos, ou ainda filosóficos. Por isso, com o conhecimento cotidiano pode vir a possibilidade de nos enriquecermos intelectualmente. Mas, para que isso ocorra, devemos escolher os grupos que frequentamos, para deixarmos para traz a mesmice, aquele diálogo que termina com: “é a vida é assim mesma, vamos deixar para lá esses assuntos”. E, porque muitos de nós não deixam para lá nada é que nos chegam os conhecimentos científicos e filosóficos. E vem daqueles que dizem que precisam estudar mais um assunto e estudam, para formarem uma opinião melhor. Daí a importância dos cientistas e das cientistas.

Hoje, sob o impacto desfigurador das ondas humanas de ataque às instituições democráticas é importante identificarmos a opinião pública e colocá-la diante de nossas consciências, para refletirmos se vamos aceitá-la, ou deixá-la para traz. Nossa consciência deve ser o filtro de todas as manifestações de opinião pública, para que nossas reflexões não virem uma salada, uma confusão, um emaranhado de ideias.

Agora, uma breve reflexão sobre consciência social e consciência política, que são também produtos de nossa experiência cotidiana. Consciência social vem do conhecimento que formamos junto a nossos grupos de referência, em especial junto às famílias. Ela é resultado das primeiras referências de valores que são transferidos pelos jovens e adultos, com quem convivemos diariamente. Dito de outra maneira, no nosso dia a dia, no nosso cotidiano é que tomamos conhecimento de muitas experiências vividas por nossos grupos familiares, ou comunitários e, na troca de opiniões sobre elas formamos nossa consciência inicial. Ela surge de forma espontânea e é base de nossa orientação para nos relacionarmos com que vive nos grupos que frequentamos.

A consciência política vem das relações que nossos grupos, mantém com organizações políticas de toda ordem, de proteção da infância, de proteção dos ambientes da natureza, como de proteção das mulheres e dos idosos, além da proteção dos valores étnicos e culturais de todos os grupos que se unem em torno de suas experiências étnicas, muitas vezes denominada raça.

Assim, se quisermos ampliar a nossa participação no processo de formação de opiniões talvez fosse bom fazermos o caminho de volta identificando as etnias, as referências culturais, os gêneros, as idades, o habitat de todos os que se manifestam, cujas opiniões pensamos tornar públicas. Com isso recuperaríamos as referências de nossa nacionalidade, nossa territorialidade, nossa diversidade que tanto valor guarda para o estabelecimento das relações internacionais.

 

Augusto Caccia-Bava é sociólogo.

 

 

 

 

 

 

 



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