“Nossos corpos por nós mesmas”: um projeto de tradução feminista

Feminismos transnacionais

“Nossos corpos por nós mesmas”: um projeto de tradução feminista

por Érica Lima, Janine Pimentel e Giselle Botelho - arte de Gisele Braga
16 de julho de 2020
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O que é isso no meu corpo? Tenho 35 anos, meu cabelo está caindo e minha menstruação começou a falhar. Será que já estou na menopausa? Não consigo engravidar: será que preciso de algum tratamento? Por que quando me masturbo tenho orgasmo, mas nunca quando faço sexo com alguém? Por que mulheres brancas com qualificação igual à minha ocupam lugares que eu poderia ocupar, enquanto eu estou na equipe de serviços gerais? Tá bom, as mulheres têm caminhado e conquistado direitos, mas e eu, que sou queer, lésbica, trans, negra, deficiente, onde posso achar informações sobre meu corpo, saúde e sexualidade?

Essas e muitas outras questões nos afligem todos os dias. De algumas delas temos até medo de falar em voz alta. Por isso, ao nos depararmos com um livro que discute a saúde e sexualidade da mulher e, mais ainda, dá visibilidade àquelas de nós que são marginalizadas e estigmatizadas, como as negras, pobres, deficientes, gordas, lésbicas, trans, mais velhas, dentre outras, ficamos maravilhosamente surpresas com a qualidade e relevância do Our Bodies, Ourselves (popularmente conhecido como OBOS) e com a forma como ele foi feito: por mulheres e para mulheres. 

O OBOS surgiu como resultado do trabalho de um coletivo feminista conhecido como The Boston Women’s Health Book Collective. Publicado pela primeira vez na década de 1970 nos Estados Unidos, tornou-se um best seller traduzido para mais de trinta países e discute assuntos como aborto, gravidez, imagem corporal, menopausa, parto, racismo, contracepção, reprodução, sexo seguro, violência, questões LGBTQIA+, além de muitos outros temas. A combinação de informações práticas – a partir de relatos honestos de mulheres reais e de posicionamentos científicos e políticos claros, que visam ao conhecimento necessário para o  empoderamento feminino e para a visibilidade de todas nós – faz com que o livro continue famoso e seja tão inspirador, um verdadeiro legado de e para os movimentos feministas.

Além do livro, cuja última edição inclui mais de 900 páginas, o OBOS também é uma organização não-governamental que tem por objetivo auxiliar mulheres para que nós possamos exercer o direito de fazer as nossas próprias escolhas a respeito de nossos corpos e vidas. Por vezes, um movimento que começa apenas com uma pessoa, ou, nesse caso, um grupo de mulheres em um workshop em Boston, em 1969, compartilhando suas frustrações com algumas médicas, por saberem tão pouco sobre seu corpo, torna-se um catalisador. 

A partir desse evento, criou-se o Doctor’s Group (antecessor do coletivo The Boston Women’s Health Book Collective) e conteúdos relevantes sobre saúde, sexualidade e aborto (ainda ilegal naquela época e ilegal até hoje no Brasil, salvo raras exceções) começaram a ser produzidos e distribuídos de forma acessível, a baixo custo. A parceria com a New England Free Press levou à criação do livro Women and Their Bodies, que em 1971 teve seu título alterado para Our Bodies, Ourselves, a fim de enfatizar o poder que as mulheres exercem sobre seus corpos. Desde 1974, o livro tem passado por sucessivas traduções e adaptações e muitas outras publicações foram feitas, inspiradas nele. 

A globalização e o acesso à internet trouxeram, então, maior facilidade de contato com outras mulheres e grupos ativistas, criando uma rede de comunidades que nos ajudam a dar visibilidade às nossas vozes e histórias. O livro que chegou a nós através dessa conexão internacional levou-nos à constatação da não existência de um material informativo, confiável, inclusivo, com linguagem acessível e livre de preconceitos no Brasil, país ainda marginalizado e estigmatizado, onde a educação sofre constantes boicotes e questões sobre saúde e sexualidade ainda são tabus não só nos lares, mas nas próprias instituições de ensino. Assim, decidimos nos unir a esse conjunto de mulheres com o objetivo de não apenas traduzir o livro para o português, mas também de apresentar a nossa realidade, como o funcionamento do nosso sistema de saúde, a forma como a mídia nos afeta, as políticas ou a ausência de agendas políticas inclusivas etc.

Arte de Gisele Braga
Tradução e Feminismo

A relação entre tradução e feminismo não é, de todo, nova. Ela está presente em analogias que refletem a forma como nossa sociedade machista se estrutura tradicionalmente. É o caso de verdadeiros bordões como “o original é homem e a tradução é mulher” (e, por isso, subalterna); traduções são “belles infidèles” (só são bonitas quando infiéis), que perduram mesmo com os movimentos de valorização da mulher que aparecem em obras e traduções feministas ao longo do tempo. Segundo Marie Dépêche, em 1832, uma das tradutoras mais lembradas quando se fala em tradução feminista, Nísia Floresta, ao traduzir A vindication of the rights of woman: with strictures on political and moral subjects, de Mary Godwin Wollstonecraft, por “Direitos das mulheres e injustiça dos homens”, incluiu trechos de De l´égalité des deux sexes e Woman not inferior to man, textos pelos direitos das mulheres que causaram grandes impactos nas sociedades da época.

Em 1996, Sherry Simon, estudiosa da tradução canadense, escreveu que um dos resultados da globalização da cultura é que todas nós vivemos em mundos traduzidos. Os movimentos feministas e ativistas não ficaram de fora desse fenômeno e se beneficiaram, direta ou indiretamente, de diversos projetos de tradução liderados por tradutoras feministas ativistas, como é o caso das quebequenses Barbara Godard, Carol Maier e Susanne de Lotbinière-Harwood, que valorizaram a escrita de autoras feministas usando estratégias de tradução bastante ousadas e subversivas.

Paralelamente, campos disciplinares como os Estudos de Tradução, a Linguística Aplicada e, mais recentemente, a Linguística Queer têm conseguido mostrar que linguagem e tradução exercem uma influência determinante na construção da nossa realidade e identidade, uma vez que, através de nossas práticas discursivas, podemos aderir ou não às relações de poder intra e interculturais que regem nossas sociedades e, assim, contribuir para a manutenção ou contestação do status quo (desigualdades sociais, racismo, preconceitos, violações de direitos, etc.). 

Como a atividade de tradução envolve pelo menos duas culturas distintas, tradutoras precisam assumir aquilo que teóricas e teóricos da tradução têm caracterizado como “responsabilidade dupla”, ou seja, somos responsáveis não só pelo trabalho da autora do texto em língua estrangeira, mas também pelos anseios e expectativas das novas interlocutoras e interlocutores da cultura para a qual traduzem. No caso específico do nosso projeto de tradução do livro Our Bodies, Ourselves, isso significa que, de um lado, traduzir para o português é passar a fazer parte de um coletivo mundial que já traduziu o livro, disponibilizando informações essenciais de maneira significativa para as mulheres e, de outro, adaptar o conteúdo é fazer com que o livro responda às necessidades específicas das mulheres brasileiras. 

Essa até poderia parecer uma tarefa relativamente fácil, se não tivéssemos consciência de que a atividade de tradução é, como sugerido acima, um ato ideológico de mediação intercultural envolvendo um amplo leque de escolhas e decisões. Uma delas exige um posicionamento teórico e pragmático em relação a questões de identidade de gênero, uma vez que temos aqui a oportunidade de traduzir de um idioma sem marcação morfológica de gênero (o inglês) para um idioma com uma marcação geralmente binária (o português). Nesse sentido, é nossa intenção usar estratégias que contestem e contrariem a binaridade da língua portuguesa e adotar uma linguagem que seja a mais inclusiva possível, reconhecendo que isso, às vezes, poderá criar um certo estranhamento na leitura. 

A tradução está sendo feita por alunas e alunos do Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp e da Faculdade de Letras da UFRJ, que fazem parte de uma ação coletiva e voluntária de pesquisa e extensão, cujo objetivo é traduzir e adaptar o livro para a realidade brasileira com a ajuda de equipes médicas especializadas, para então ser publicado, em três volumes, pelo Coletivo Feminista Sexualidade e Saúde, de São Paulo, responsável pelo convênio com a OBOS. 

 

O poder do masculino na linguagem e os desafios da tradução feminista

Já nas primeiras discussões foram traçadas estratégias para dar visibilidade ao feminino, de forma que se percebesse uma intervenção na tradução, ou sejam, foram estabelecidos critérios pontuais a fim de mostrar que temos consciência do poder do masculino na linguagem (reflexo do falocentrismo estrutural de nossa sociedade) e nos posicionamos contra ele. Uma decisão foi a de não empregar “x” ou “@” (como médic@ ou médicx) por questões de acessibilidade e exclusão, nem usar uma linguagem sexista, assumindo simplesmente a concordância no masculino quando o gênero não é marcado no inglês. Assim, traduzimos doctor por “classe” ou “equipe médica”, ou, em casos em que a relação era explicitamente estabelecida com uma pessoa, optamos por “médica ou médico” (com o feminino vindo primeiro). 

Em caso de palavras em que a especificação do gênero não era relevante tentamos não usar artigo, evitando a concordância no masculino, muitas vezes assumida como natural e “neutra”, o que pode ser ilustrado com o uso de  “bebês” e não “os bebês”; “pacientes” e não “os pacientes”; “falar sobre contracepção com a pessoa com quem você está” (e não “com sua parceira ou seu parceiro”). Essas posições mostram a compreensão de que a linguagem é, como mencionado anteriormente, um espaço em que aparecem as relações de poder, e, como afirma a estudiosa de tradução Mona Baker, quando alimentamos uma “narrativa de neutralidade” cabe perguntar “contra quem” estamos sendo neutros.

Além de trazer o contexto de mulheres estadunidenses, a versão do livro que está sendo traduzida, inclui relatos das adaptações feitas para outros países ao longo dos anos, proporcionando tanto o conhecimento de identidades culturais distintas quanto mostrando que vários problemas que nos assolam estão entrelaçados e são mundiais. Esses problemas são muitas vezes decorrentes da sociedade capitalista altamente industrializada em que nos inserimos, tais como fatores ambientais que afetam nossa saúde, controvérsias médicas em relação a tratamentos ou ainda demandas sociais aos órgãos governamentais.

Por exemplo, no primeiro capítulo do livro, que trata de anatomia, há um relato de que em japonês, até a década de 1990, usavam-se termos que traziam o sentido de “vergonha” ou “obscuridade” para nomear os pelos pubianos e que, com a tradução, foram propostos termos mais assertivos, como “seimo”, significando “pelo sexual” ou “pelo púbico”. Essa pequena mudança fortaleceu a ideia de que falar de nosso corpo não deve ser motivo de vergonha. Outro relato veio das traduções para hebraico e árabe, que optaram por usar palavras mais respeitosas e que celebram o corpo para fazer referência a fases pelas quais as mulheres passam. Tradicionalmente, as palavras relacionadas à menopausa traziam a ideia de estar “desgastada” ou “usada”, em hebraico; e de “anos de desespero”, em árabe. Nas traduções, optou-se por um termo com os sentidos, respectivamente, de “meia-idade” e “anos de segurança”. 

O nosso projeto de tradução, iniciado na segunda metade de 2019, assume uma atitude feminista condizente com a própria postura da Ong OBOS durante seus 50 anos de ativismo: uma postura multidirecional, de respeito à diversidade, de luta pelos direitos reprodutivos e pela igualdade de salários, ou seja, uma postura engajada social, cultural e politicamente. Esperamos que a publicação do livro em português, com informações médicas atualizadas, nos auxilie no conhecimento de nós mesmas, de nossa saúde, de nossas opções de tratamentos, e nos encoraje a lutarmos contra agressões, assédios, salários mais baixos, e a favor de direitos reprodutivos e de direitos lésbicos, rumo a uma sociedade com equidade de gênero. Esperamos que nossa tradução consiga mostrar que já passou da hora de assumirmos “Nossos corpos, por nós mesmas”.   

 

Referências:

BAKER, Mona. Translation and Activism: Emerging Patterns of Narrative Community. The Massachusetts Review, vol. 47, no. 3, p. 462–484, 2006. 

BOSTON WOMEN’S HEALTH BOOK COLLECTIVE. Our Bodies, Ourselves. New York: Simon & Schuster, 2011.

DÉPÊCHE, Marie-France. A tradução feminista: teorias e práticas subversivas de Nísia Floresta e a escola de tradução canadense. Textos de História, v.8, n.1/2, p.157-188, 2000. 

OBOS. Our Story. 2020. Disponível em: https://www.ourbodiesourselves.org/our-story/

SIMON, Sherry. Gender in Translation: Cultural Identity and the Politics of Transmission. New York: Routledge, 1996.

 

Érica Lima é docente do Instituto de Estudos da Linguagem na Unicamp, mestre em Linguística Aplicada também pela Unicamp e doutora em Letras pela Unesp. Atua na área de interpretação de textos e tradução, e faz pesquisa sobre a interface entre estudos de tradução e tendências do pensamento contemporâneo, abrangendo temas como: questões de identidade, gênero, ideologia, subjetividade e tradução voluntária. 

Janine Pimentel é PhD em Estudos da Tradução pela Universidade de Montreal e Professora Adjunta da Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Leciona disciplinas de tradução, teorias da tradução e linguística de corpus na graduação e pós-graduação. Os seus interesses de pesquisa mais recentes incluem: tradução feminista, tradução e ativismo, tecnologias da tradução e tradução especializada.

Giselle Botelho é professora e pesquisadora. Possui bacharelado em Letras (Português-Inglês) pela UFRJ e seus interesses de pesquisa são processos tradutórios e ensino de línguas. Atualmente, suas atividades concentram-se na tradução de textos técnicos e no ensino nas instituições Maple Bear Canadian School e BRASAS English Course.



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