Nova Economia - Le Monde Diplomatique

EDITORIAL N

Nova Economia

por Ignacio Ramonet
1 de abril de 2000
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A velocidade de comunicação da Internet está gerando, além de uma sociedade completamente nova, enormes possibilidades de enriquecimento. Mas é preciso desconfiar deste Eldorado. A atual prosperidade faz lembrar uma miragem e as revoluções econômicas também devoram suas criasIgnacio Ramonet

É conhecida a frase em que Marx diz: “Dai-me o moinho de vento e eu vos darei a Idade Média”. Parafraseando-o, poderíamos acrescentar: “Dai-me a máquina a vapor, e eu vos darei a era industrial.” Ou, em relação à época contemporânea: “Dai-me o computador, e eu vos darei a globalização.”

Ainda que tais determinismos sejam forçosamente excessivos, eles resumem bem a seguinte idéia central: em momentos cruciais, uma invenção capital — que não é jamais obra do acaso — altera a ordem das coisas, desvia a trajetória de uma sociedade e engrena um novo “movimento de longa duração”. Quase sem perceber, já há uma década entramos em um movimento deste tipo.

No final do século 18, a máquina a vapor mudou a face do mundo, dando origem à revolução industrial: desenvolvimento do capitalismo, surgimento da classe operária, nascimento do socialismo, expansão do colonialismo, etc. E pensar que ela só requeria braços!

Com vocação para substituir o cérebro, o computador está provocando mutações mais espetaculares e inéditas, diante de nossos olhos. Cada qual constata que tudo está mudando em torno de si: o contexto econômico, as questões políticas, os parâmetros ecológicos, os valores sociais, os critérios culturais e as atitudes individuais.

As tecnologias da informação e da comunicação, bem como a revolução digital, fazem-nos entrar, quer queira quer não, em uma nova era, cuja principal característica é o transporte instântaneo dos dados imateriais e a proliferação das ligações e das redes eletrônicas. A Internet constitui o coração, a encruzilhada e a síntese da grande transformação em curso. A este respeito, é possível dizer que as vias expressas de comunicação representam para o momento atual o mesmo que a estrada de ferro significou para a era industrial: vigorosos fatores de impulso e de intensificação das mudanças.

Apostas pesadas

Com esta comparação em mente, numerosos pequenos investidores da Bolsa lembram que “as vantagens econômicas de um sistema de transporte aumentam com as linhas entrecruzadas, com os saltos repentinos, quando novas conexões são feitas”. E que: “Por volta de 1840, a construção das estradas de ferro constituía, sozinha, o fator mais importante de crescimento industrial na Europa ocidental.” [1] Portanto, nesta fase de decolagem, os neocapitalistas apostam no crescimento exponencial de todas as atividades ligadas às vias virtuais, às tecnologias das redes, à Internet. É o que se chama de “a nova economia”.

No momento de uma das mutações mais rápidas já vistas, muitos investidores estão convencidos de que, para se adaptarem, as empresas serão obrigadas a gastar mais em equipamentos de informática, telecomunicações, redes, etc. As perspectivas de crescimento parecem enormes. Na França, mais de 10 milhões de pessoas compraram telefones celulares nos três últimos anos. A quantidade de equipamentos para computadores dobrou.

Considera-se que o número de usuários da Internet, estimado em cerca de 142 milhões em 1998, deverá atingir até 2003 o contingente de 500 milhões. A grande batalha por vir será a do confronto entre as empresas americanas, européias e japonesas para controlar as redes e para dominar o mercado das imagens, dos dados, do som, dos suportes para jogos, enfim, do conteúdo. E também, ou principalmente, para se impor no comércio eletrônico. A Internet transformou-se num vasto shopping center. Embrionário em 1998, com apenas 8 bilhões de dólares em transações, o comércio eletrônico deverá atingir 40 bilhões em 2000 e ultrapassar o montante de 80 bilhões em 2002.

Em todos os cantos, tomados por uma febre ardente de opulência, sonhando com uma mina de ouro fácil, encorajados pela maior parte da mídia, enxames de investidores (antigos e novos) lançam-se sobre as bolsas como outrora os garimpeiros sobre o Eldorado. Explodem os fluxos de certos valores ligados à galáxia Internet. No ano passado, uma dezena de companhias viu o valor de suas ações se multiplicar por cem. Algumas por 370! Outras, como a American on Line (AOL), fizeram melhor: a partir de 1992, tiveram seu valor multiplicado em 800 vezes.

Um poupador que tivesse investido apenas mil dólares no dia de lançamento em Bolsa das ações de cada uma das cinco grandes empresas da Internet (AOL, Yahoo!, Amazon, AtHome, eBay), teria ganho, em 9 de abril de 1999, um milhão de dólares… O índice de Nasdaq (Bolsa de Nova Iorque na qual é negociada a maior parte dos valores da alta tecnologia) registrou, apenas para o ano de 1999, um ganho de 85,6%.

Prosperidade frágil

Mas enriquecer tão rapidamente, sem esforço ou trabalho, só pode ser miragem. Apesar do enriquecimento global, as desigualdades não param de crescer nos Estados Unidos. Elas atingem níveis jamais vistos desde a Grande Depressão. A prosperidade da nova economia parece tão frágil que ela faz pensar no boom econômico dos anos 20 quando, como hoje, a inflação era baixa e a produtividade elevada. A ponto de alguns ousarem falar em “risco de fracasso”, deixando entrever o espectro de 1929…! [2]

Apenas 25% das empresas da Net-economia deverão sobreviver, a médio prazo. As altas autoridades financeiras não hesitam mais em alertar os poupadores. “Sejamos prudentes com relação aos títulos das empresas Internet”, afirma, por exemplo, Arnout Wellink, presidente do Banco Central da Holanda, que compara os operadores a “cavalos enlouquecidos que correm uns atrás dos outros em busca de uma mina de ouro”. [3]

Ignacio Ramonet é jornalista, sociólogo e diretor da versão espanhola de Le Monde Diplomatique.



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