O abandono de pessoas trans durante a pandemia

DISCRIMINAÇÃO E INVISIBILIDADE

O abandono de pessoas trans durante a pandemia

por Wendel Limeira e Anne Nunes
22 de maio de 2020
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Nesse contexto de pandemia, é preciso possibilitar uma reflexão sobre a gravidade do isolamento social no dia a dia das travestis e transexuais que se encontram em situação completamente vulnerável, sofrendo com o desamparo da sociedade e do Estado

Com o distanciamento social, muitos profissionais informais sofrem com a paralisação dos seus serviços. Para alguns grupos sociais já marginalizados, a situação se agrava. E nesse aspecto o isolamento social deixa de ser uma novidade para quem cresce num contexto de violência e vulnerabilidade social. 

A discriminação social dos “diferentes” é um elemento presente no discurso social. Esse processo de exclusão impacta diretamente na vida de mulheres e homens transexuais, permeando durante toda a sua vida, seja dentro das próprias famílias, nos estabelecimentos educacionais ou no mercado de trabalho. Observa-se que os sujeitos que se identificam como pessoas trans, em sua grande maioria, são excluídos de todos os campos sociais. Eles não são apenas marginalizados, violentados, calados e ignorados pela sociedade. São mortos, não só fisicamente, mas socialmente.

Sharon McCutcheon/Unsplash
O reflexo da exclusão em números

O reflexo dessa exclusão se dá muito mais fortemente no mercado de trabalho. De acordo com estimativa levantada pela Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), com raras oportunidades de emprego, cerca de 90% das pessoas trans no Brasil acabam recorrendo à prostituição. Apenas 4% da população trans feminina se encontra em empregos formais, com possibilidade de promoção e progressão de carreira e 6% estão em atividades informais e subempregos.

Nesse contexto de pandemia, é preciso possibilitar uma reflexão sobre a gravidade do isolamento social no dia a dia das travestis e transexuais que se encontram em situação completamente vulnerável, sofrendo com o desamparo da sociedade e do Estado. Esse segmento social ao seguir, as recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS) no que diz respeito ao distanciamento, acaba por enfrentar, inclusive, necessidade alimentícia e de higiene. 

Ainda de acordo com a Antra, o Brasil é o país que mais mata pessoas trans no mundo. Em 2019, 121 travestis e mulheres transexuais e três homens trans foram assassinados. A maioria das mortes foi registrada na região Nordeste. 

Desde que o isolamento social começou a ser adotado, foram contabilizados 26 assassinatos de mulheres trans e travestis no país. Um aumento de 13% em relação ao mesmo período do ano passado, segundo a Antra.

Entre janeiro a abril, foram 64 casos. Alta de 49% em relação às 43 ocorrências registradas no mesmo período do ano passado. O número do primeiro quadrimestre de 2020 também foi superior ao de 2018 (63) e 2017 (58), quando a Antra começou a divulgar o relatório. Os casos são contabilizados a partir do noticiário ou de notificações feitas diretamente à entidade, existindo ainda o problema da subnotificação.

Cenário brasileiro não permite emancipação e visibilidade do segmento

Apesar da luta de ativistas pelo direito ao trabalho e renda vir alcançando pequenos e tímidos avanços, o congelamento dos investimentos na área de educação e na saúde por vinte anos no Brasil, as reformas trabalhistas e previdenciárias, o aumento da pobreza e da informalidade e a crescente violência contra a população LGBT se mostram como grandes responsáveis pelo isolamento e invisibilidade das pessoas trans, que são levadas a recorrer ao trabalho sexual, em regra precarizado, para a garantia de sua subsistência.

Keila Simpson, travesti e presidenta da Antra, explica como o isolamento social infere no dia a dia da população trans que tem na prostituição a sua fonte de renda. De acordo com ela, muitas travestis e transexuais estão recorrendo a opções secundárias, como trabalhar em sites, muito embora as dificuldades sejam intensas. “A pandemia veio para tolher o direito das pessoas trans de estar nas ruas trabalhando, e claro, ninguém quer ficar refém desse vírus. Mas precisamos pensar que isso afetará, mais adiante, o psicológico dessas pessoas, e essa tem se tornando nossa preocupação também. A prostituição se refere a contatos corporais, e com a existência do coronavírus, não há como fazer sexo, até via internet é difícil. Todo o contexto é vem sendo muito grave”, detalha.

Segundo Keila, o governo federal é ineficiente em atender e solucionar as reais demandas, especialmente desse segmento. Para ela, é impossível confiar em um governo que desqualifica a população LGBT e retira direitos constantemente. “O Poder Público vem trabalhando de forma emergencial, mas efetivamente de amparo social, não tem feito nada. Muitas de nós estamos dependendo do auxílio emergencial do governo federal, mas até nesse acesso encontramos dificuldades, como milhares de brasileiros. É um paliativo necessário, mas é preciso muito mais. Esse governo frequentemente não sabe o que diz, e ninguém em sã consciência pode confiar num presidente que veio para destruir o que foi conquistado e construído com muita luta ao longo dos anos”, afirmou.

A Antra lançou em março uma cartilha para orientar travestis e mulheres trans que atuam na prostituição a se prevenir contra a Covid-19. O documento conta com cuidados e medidas que podem ser adotados por quem depende da prostituição, para que as pessoas não sofram o baque econômico, nem tenham problemas com sua saúde física e mental durante o isolamento, ofertando dicas de como, por exemplo, trabalhar de forma virtual em plataformas e sites que paguem por strip tease e exibição ao vivo on-line, além de evitar receber clientes em casa, para não contaminar o ambiente pessoal.

Instâncias de exclusão e impactos psicológicos

A partir de uma representação arraigada na sociedade, onde se estabelece que as pessoas LGBT devam permanecer à margem da sociedade – nos guetos – desencadeia-se todo um processo de exceção e abandono. Essa é uma das temáticas de atuação do doutor em Psicologia Social pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB), Leogildo Alves Freire. Atualmente docente e coordenador do curso de Psicologia da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), ele destaca o conceito elaborado durante a sua tese, referente às instâncias de exclusão LGBT. A proposta inicial foi identificar as três principais instâncias e avaliar como elas impactam na vivência e trajetória da pessoa LGBT. “Toda pessoa homossexual passa, ao longo da sua vida, e em função da sua orientação sexual e/ou identidade de gênero, por processos graves de exclusão. Enquanto pesquisador, identifiquei as três instâncias que afetam esses indivíduos. A primeira é a familiar, onde a pessoa LGBT passa a experienciar o primeiro processo de discriminação e rejeição de um núcleo que, em tese, deveria acolher e proteger. A segunda instância de exclusão é a escolar, onde o indivíduo passa a confrontar os valores, as crenças e as modificações destas. E nesse momento, esses ambientes podem se tornar bastante hostis, fazendo com que muitas dessas pessoas tendam a evadir do contexto escolar. A terceira é o mercado de trabalho. A população trans em especial frequentemente possui duas vias de profissionalização, que são atividades relacionadas à estética – manicure, cabeleireira, maquiadora – ou à prostituição, e esta acaba sendo uma via de maior acesso, em função da manutenção da sua própria existência”, aponta.

O pesquisador afirma que, para entender os processos de invisibilidade vivenciados pelas pessoas LGBT no contexto de pandemia, é necessário compreender que a exclusão sempre existiu, mas que nesse momento de fragilidade, tende a se acirrar, potencializando as instâncias já existentes especialmente às travestis e transexuais.

“A expectativa de vida de uma travesti no Brasil é de 36 anos. E infelizmente essa população lidera as mais tristes estatísticas de vulnerabilidade e mazelas sociais. Durante o isolamento social, obviamente as suas atividades profissionais estão suspensas, de forma que essas profissionais ao não trabalharem deixam de garantir o seu sustento. Nós precisamos pensar que por trás desses acontecimentos temos toda uma história de exclusão que faz essas pessoas terem pouca ou nenhuma oportunidade. Essas mulheres dedicaram toda uma vida em busca da manutenção do seu sustento e da sua independência em função dos variados processos de exclusão, e agora, elas se encontram impossibilitadas de prover seu mantimento”, destacou Leogildo.

Aliado a isso ainda surgem os impactos psicológicos provocados pelo distanciamento social. Solidão, abandono, LGBTfobia no ceio familiar e ansiedade diante de um cenário de incertezas, todas essas peculiaridades convergem entre si em um processo de vulnerabilidades psicossociais, a partir de uma perspectiva cisheteronormativa que discrimina e emite práticas preconceituosas contra grupos minoritários.  

“Também encontramos três cenários no contexto de pandemia. O primeiro são as pessoas LGBT que ainda não saíram de casa, o que acarreta maior exposição aos processos de discriminação e LGBTfobia praticados pelas figuras parentais. O segundo é aquele indivíduo que não aguentou mais a hostilidade em seus lares, e fugiram ou foram expulsos de casa, e durante a pandemia, vivenciam a solidão e o abandono. E o terceiro cenário, que é uma parcela mínima de pessoas, são aquelas que encontraram suporte familiar e de apoio à sua orientação sexual e identidade de gênero. É preciso identificar que as minorias sempre serão violentadas, discriminadas, alvo de preconceito. Isso já acontece em condições ‘normais’, em condições sanitárias de estabilidade, e nesse momento de pandemia, esses aspectos tendem a se reforçar. É necessário que tenhamos a manutenção da saúde mental da população LGBT, e o caminho passará sempre pela formação em cidadania LGBT. Precisamos lançar esse olhar, para que possamos dar visibilidade a essa discussão, mas, sobretudo, dar visibilidade às travestis, transexuais e tantas e tantos outros, que estão sofrendo e padecendo. Vocês não estão sozinhas e sozinhos! O ano é 2020, e nós não vamos mais suportar preconceitos e discriminação. Fora do campo de pesquisador, minha fala é de quem vivencia esses processos ao longo de 31 anos. É muito importante e fundamental que essa população seja atendida, pois o sofrimento psíquico é silenciado na maioria das vezes”, reforça o ativista e psicólogo.

Anne Nunes é graduada em Comunicação Social pela Universidade Federal da Paraíba e pós-graduada em Comunicação e Marketing Político. 

Wendel Limeira é graduado em Comunicação Social pela Universidade Federal da Paraíba com habilitação em Rádio e Televisão.



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