O apagamento da história preta em favor da branca não se limita aos EUA

Entre a Cruz e a Infância

O apagamento da história preta em favor da branca não se limita aos EUA

por Mirna Wabi-Sabi e Fotos: Fábio Teixteira
1 de setembro de 2020
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Ao longo dos últimos quatro meses, o fotógrafo Fabio Teixeira acompanhou o trabalho de um menino de 14 anos, Josué Vicente Pereira (apelidado de “Fumaça”), no Cemitério do Caju. O ensaio fotográfico resultante, denominado Entre a Cruz e a Infância, mostra a criança a limpar os túmulos, a pintar cruzes e a trocar flores. Ele faz esse trabalho desde os 7 anos em troca de gorjetas das famílias que visitam. Durante a pandemia de coronavírus, sua renda (da qual seus irmãos mais novos também dependem) caiu significativamente, mas ele continua a trabalhar mesmo com um risco enorme de infecção por Covid-19.

Josué Vicente Pereira limpando uma sepultura de mármore preto no Cemitério do Caju no Rio de Janeiro, Brasil. (Crédito Fábio Teixeira – série Entre a cruz e a infância)

Em meio à violenta polarização no cenário político dos Estados Unidos, um fato com que muitas pessoas concordam é que monumentos fazem parte da história. Derrubar moldes de bronze de homens brancos mortos não apagará a escravidão e a guerra do passado. Mas pode ser um passo em direção à abrir espaço para as histórias que esses homens lutaram para apagar — não apenas nos EUA, mas em todos os lugares que abrigam a diáspora africana. Essas histórias invisibilizadas revelam o legado por trás da opressão racializada ainda vista em todo o mundo hoje. O Cemitério do Caju, no Rio de Janeiro, construído sobre os corpos de africanos escravizados, é um dos maiores do Brasil, e sua história de 180 anos é um símbolo do apagamento obstinado de corpos e histórias pretas que persiste até hoje.

No Brasil, onde a população da diáspora africana é maior do que a dos EUA (e é a maior do mundo), um cemitério de escravizados foi aterrado para acomodar outros corpos, incluindo os notáveis túmulos de escravagistas e fascistas. Muitos, senão todos, esses “notáveis” aderiram à visão europeia do racismo ‘científico’ de que os pretos não tiveram história, porque a história move em direção ao “Ocidente como o sol”, ao seu estágio mais avançado — a civilização “germânica”. Essas ideias moldaram a estrutura institucional sobre a qual o governo brasileiro foi construído, e seus antepassados ainda têm seu legado gravado em pedra. Os mais distantes da civilização germânica não eram apenas os africanos, mas também os povos indígenas.

Josué Vicente Pereira pinta cruzes de branco e ganha 0,50 centavos por cruz. Suas costas estão sujas de cal porque ele precisa entrar nas gavetas do Cemitério do Caju para pintar. (Crédito Fábio Teixeira – série Entre a cruz e a infância)

 

Livros de história e enciclopédias ainda perpetuam a falsa ideia de que o Brasil foi “descoberto” pelos europeus, como se antes não existisse. Este artigo do New York Times, por exemplo, não só descreve o Brasil como “descoberto”, mas logo depois menciona os indígenas que já estavam aqui. Essa “História do Brasil” de alguma forma começa em 1500, e não milhares de anos antes, com civilizações sofisticadas de povos indígenas que cuidadosamente construíram florestas, litorais, e monumentos que são rotuneiramente aterrados e reconstruídos em concreto.

Somente quando o Brasil passou a ter um rei é que se tornou uma nação soberana e, portanto, colocada no mapa. Uma figura proeminente por trás desta aquisição, José Clemente Pereira, descansa em paz no Cemitério do Caju, e ainda recebe elogios por ter ajudado a “estabelecer uma subordinação política com base na razão universal dos Homens” nestas terras.

Homens influentes do período da independência foram imortalizados por muito mais do que apenas o espaço que ocupam neste cemitério. Eles também deixaram uma marca histórica ao administrar o papel de pessoas pretas na sociedade, com o objetivo principal de extrair o máximo de lucro delas.

O barão Antônio Pereira Passoso, um cafeicultor escravizador também enterrado ali, testemunhou um movimento lento mas constante em direção à abolição da escravatura, um sistema do qual ele dependia altamente para construir sua riqueza. O filho deste barão, Francisco Franco Pereira Passos, tornou-se prefeito do Rio de Janeiro em 1902. Sua principal realização foi um grande projeto de planejamento urbano para suavizar essa transição de “força de trabalho” para a era industrial. Inspirado pela rápida industrialização de Paris e pelos interesses da indústria do café, ele demoliu casas e construiu estradas para acomodar a crescente imigração européia. Mas, ao fazer isso, Francisco Passos essencialmente deslocou inúmeras famílias ‘libertadas’ e semeou o que hoje chamamos de favelas.

Josué Vicente Pereira limpa uma estátua sobre o túmulo de uma família tradicional, rica. (Crédito Fábio Teixeira – série Entre a cruz e a infância)

A “libertação” de pessoas escravizadas foi um processo escrupuloso, planejado por homens brancos poderosos por pelo menos meio século. Embora a abolição tenha se tornado oficial no Brasil em 1888, essas famílias pretas foram usadas como peões nas negociações entre os países ocidentais e as colônias americanas logo depois que essas colônias se proclamaram “livres” e independentes. Essa independência ameaçava os ex-colonizadores, que perdiam acesso à mão de obra colonial barata e não queriam competir com os preços mais baratos das mercadorias vindas do Brasil.

Também sepultado no Cemitério do Caju está José Maria da Silva Paranhos, o visconde conhecido por negociar um lento plano de abolição, a fim de satisfazer os ingleses sem ameaçar o domínio da monarquia brasileira, o que não era do interesse de nenhum deles. Este plano era a “Lei do Ventre Livre”, que dava ao escravagistas “a escolha de entregar crianças nascidas depois de 1871, cujas mães eram escravizadas, ao estado ou mantê-los em seu poder e educá-las”. Certamente, a lei não era tão humanitária quanto parece. Como uma brecha juridica, ela nada mais fez do que garantir que as elites não perdessem riqueza ou poder enquanto o sistema fazia a transição do colonialismo alimentado pela escravidão para o capitalismo alimentado por trabalhadores industriais. Isso nos leva à próxima onda de monumentos problemáticos — os fascistas.

Ditaduras do século XX e sepulturas sem nome

Com o capitalismo industrial veio a resistência anticapitalista, que marcou a maior parte do século XX. O Brasil se viu com uma ditadura anticomunista icônica para cada metade daquele século. Enquanto alguns dos que resistiram simplesmente desapareceram, outros receberam mausoléus. No Cemitério do Caju, está o Mausoléu dos Integralistas, onde se encontram os restos mortais de integrantes de um movimento fascista inspirado no italiano Benito Mussolini. Sua oposição à primeira ditadura daquele século certamente colocou o Brasil entre a espada e a parede — uma ditadura nacionalista em oposição a um fracassado levante fascista.

Enquanto isso, o desaparecimento de vários anarquistas responsáveis pela Greve Geral de 1917 permaneceu sem solução até mais de 70 anos depois, com a descoberta de uma vala comum clandestina num cemitério de São Paulo. O Cemitério de Perus foi fundado durante a segunda ditadura brasileira do século XX (na década de 1970) e era conhecido por enterrar pobres, pessoas não identificadas e em situação de rua. Dezenas de corpos não identificados eram enterrados ali diariamente. Hoje, o cemitério tem um monumento grafitado para homenagear militantes mortos e desaparecidos. Muitos dos corpos que foram encontrados lá ainda não foram identificados, e é dolorosamente evidente que a impunidade se deve em grande parte à flagrante falta de respeito pelos corpos das pessoas pobres — o que possibilitou que militantes mortos continuassem desaparecidos por tanto tempo. Essa falta de respeito pelos corpos pretos, pobres ou sem-teto persiste ao longo dos séculos. Isso continuamente rouba as pessoas de sua história e de seu lugar na psique coletiva. Seria ingênuo pensar que essa condição não foi carregada conosco para o século XXI.

Josué Vicente Pereira carrega as cruzes pintadas para os túmulos. (Crédito Fábio Teixeira – série Entre ea cruz e a infância)

 

Durante quase 150 anos, o Cemitério do Caju foi gerido pela Santa Casa de Misericórdia, uma entidade de caridade portuguesa do século XV. Em 2015, mudou de mãos após um escândalo de corrupção altamente televisionado envolvendo evasão fiscal, transações imobiliárias ilícitas, construções irregulares e violações de direitos trabalhistas. A nova administração, a Concessionária Reviver, não apresentou grandes avanços, uma vez que está envolvida em cerca de 300 ações judiciais, incluindo uma ação coletiva sobre cobrança indevida de taxas de manutenção. Enquanto os administradores do cemitério coletavam essas taxas indevidas de manutenção, uma criança trabalhava na manutenção en troca de gorjetas.

Ao longo dos últimos quatro meses, o fotógrafo Fabio Teixeira acompanhou o trabalho de um menino de 14 anos, Josué Vicente Pereira (apelidado de “Fumaça”), no Cemitério do Caju. O ensaio fotográfico resultante, denominado Entre a Cruz e a Infância, mostra a criança a limpar os túmulos, a pintar cruzes e a trocar flores. Ele faz esse trabalho desde os 7 anos em troca de gorjetas das famílias que visitam. Durante a pandemia de coronavírus, sua renda (da qual seus irmãos mais novos também dependem) caiu significativamente, mas ele continua a trabalhar mesmo com um risco enorme de infecção por Covid-19.

Josué Vicente Pereira e um amigo pintando cruzes de branco. (Crédita: Fábio Teixiera – série Entre a cruz e a infância)

 

“Eu tenho medo do coronavirus, mas não posso parar de trabalhar aqui”, disse Fumaça. “Minha mãe perdeu o bebê faz 2 meses, a gente recebe o bolsa família, mas tenho mais dois irmãos menores, e minha mãe está doente com depressão, meu padrasto também não conseguiu o auxílio do governo, foi negado, por isso preciso trabalhar.”

Este tipo de corrupção e exploração é uma expressão moderna da opressão racial que permanece ao longo do tempo — trabalho de baixa remuneração para o lucro dos proprietários de terras. Um século e meio após a aprovação da “Lei do Ventre Livre”, crianças pretas e pobres ainda não nascem livres. Elas não podem nascer livres quando a riqueza que suas famílias produziram foram acumuladas por outras famílias durante séculos, e elas ainda são forçadas a trabalhar em condições deploráveis para sobreviver. Um corpo sem nome lançado em uma vala comum, sem sua história, também não pode ser livre. Quando os nomes e corpos de pessoas livres são forjados em materiais que resistem ao teste do tempo — e isso é chamado de História — faz sentido que aqueles que não se vêem nesta história se sintam compelidos a mostrar que é hora de resistir.

Paradoxalmente, foi comum na história apagar a história de um povo. Os monumentos de “grandes estadistas” podem apagar a história não só dos EUA, mas de toda a diáspora africana. Como o regime escravista mais antigo da América Latina, o Brasil passou por sua própria versão da Guerra Civil. Os nacionalistas brasileiros defenderam a escravidão como se ela simbolizasse a soberania política em contraposição aos estados da Europa Ocidental, da mesma forma que os sulistas dos EUA proclamavam os direitos dos estados. Nossa rejeição a essas narrativas distorcidas da história enraizada na supremacia branca é mais do que urgente.

Josué Vicente Pereira que pinta cruzes no cemitério do Caju. (Crédito Fábio Teixeira – série Entre ea cruz e a infância)
Josué Vicente Pereira carrega as cruzes pintadas para os túmulos. (Crédito Fábio Teixeira – série Entre ea cruz e a infância)

PLATAFORMA 9
Texto: Mirna Wabi-Sabi (escritora, editora e tradutora em Niterói. Membro fundador do coletivo de midia Plataforma 9).
Fotografia: Fabio Teixeira (foto jornalista premiado, residindo na Maré. Membro fundador do coletivo de midia Plataforma 9).

Este artigo foi originalmente publicado na Truthout.org em inglês.
[Copyright, Truthout.org. Reproduzido com permissão]



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