O barco bêbado do projeto europeu
Desde que o apoio norte-americano à Ucrânia começou a minguar, a União Europeia decidiu assumir sozinha o financiamento das necessidades de Kiev. Mas os países-membros têm condições de fazê-lo? Mantidos à margem das negociações e envolvidos em um amplo rearmamento com vistas a um conflito sem fim com a Rússia, eles agora temem que a interrupção das hostilidades exponha sua falta de estratégia
Até que ponto pode chegar a discrepância entre os fatos e os discursos das autoridades, ou seja, a negação política?[1] Durante muito tempo restrita, no Ocidente, aos regimes totalitários, essa questão agora se coloca em relação à União Europeia (UE). É verdade que seus dirigentes já haviam demonstrado capacidade de sustentar uma interpretação ideológica cada vez mais distante das realidades políticas. Depois das derrotas nos referendos sobre o Tratado Constitucional Europeu, em 2005, na França e nos Países Baixos, a “democracia” europeia contornou a rejeição popular maciça ao fazer pequenos ajustes em seu projeto de blindagem do neoliberalismo.
Vinte anos depois, os líderes alemão Friedrich Merz e francês Emmanuel Macron, assim como Ursula von der Leyen e Kaja Kallas, da Comissão Europeia, enfrentam outro desafio: levar os povos a aceitar uma militarização ilimitada, financiada por uma redução drástica das despesas sociais e ambientais, em meio ao endividamento maciço dos Estados. No entanto, como convencer os habitantes do Velho Continente a aceitar uma piora de suas condições de vida? Como fazê-los admitir que só a esse preço poderá surgir uma Europa livre, democrática e fortalecida por uma Ucrânia restabelecida em suas fronteiras de 1991?
Nas palavras de Macron, durante uma coletiva de imprensa com o presidente Volodymyr Zelensky, em 17 de novembro de 2025, “a União Europeia deverá continuar oferecendo à Ucrânia um apoio financeiro previsível e estável a longo prazo. Conseguiremos fazê-lo, inclusive, se necessário, explorando novos caminhos, como soubemos fazer em outros casos, quando a situação exigiu. Penso, em particular, no endividamento comum no contexto da pandemia de Covid-19”.
Como sugerem as mobilizações estudantis atuais na França, é cada vez mais ilusório apostar que o custo social do apoio à guerra e ao “grande rearmamento” não abalará a adesão ao projeto político europeu nem a popularidade dos dirigentes que o promovem. Como uma camada de reboco aplicada às pressas, a narrativa heroica construída desde a invasão russa da Ucrânia está se desfazendo: considerados isoladamente, cada um de seus elementos tem certa credibilidade; mas, no conjunto, a distância em relação à realidade é tão grande que a narrativa não se sustenta. A Europa se diz envolvida em uma luta existencial contra uma ameaça russa que se tornou onipresente e cada dia mais agressiva, com a multiplicação dos ataques cibernéticos e das ameaças de drones. O bloco reafirma que compensará as limitações de seu aliado norte-americano e atenderá sem falhar às necessidades financeiras cada vez maiores de Kiev.
De um lado, a “guerra híbrida” conduzida por uma Rússia superpoderosa nas fronteiras da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) justificaria uma mobilização europeia permanente. De outro, a Ucrânia e seus invencíveis aliados enfraqueceriam Moscou, sufocando sua economia, invariavelmente descrita como exaurida, e marcando pontos contra seu exército de brutamontes incompetentes e mal comandados.
Ao mesmo tempo que mísseis europeus lançados da Ucrânia matam soldados e civis russos e os governos ocidentais examinam a possibilidade de um conflito generalizado, o apoio a Kiev expressaria, antes de tudo, uma vontade de paz. “Diante do que também se tornou uma espécie de dependência da Rússia em relação à guerra”, afirmou Macron em 17 de novembro de 2025, “nós permanecemos determinados e obstinados na busca pela paz.” A essa paz pela guerra, o papa Leão XIV, em visita ao Palácio do Eliseu em 25 de setembro passado, respondeu: “A paz não é um equilíbrio de forças; ela se constrói todos os dias por meio do diálogo e da justiça”.

© European Union, 2026/Wikimedia Commons
O oceano e o conta-gotas
Depois de quatro anos e meio de combates, a linha de frente, relativamente estável, mas ainda tão mortífera quanto antes, está sendo acompanhada por uma campanha de destruição mútua de infraestruturas. A Ucrânia é particularmente afetada: já não consegue exportar cereais nem produzir aço nas condições habituais. Em 16 de outubro, Kiev solicitou mais 70 bilhões de euros para financiar o esforço de guerra em 2027. O país continua resistindo militarmente à agressão russa, mas agora só se mantém em razão dos empréstimos concedidos pelos Estados europeus, eles próprios sob forte pressão orçamentária e aos quais Trump transferiu o ônus.
Os dirigentes do Velho Continente, porém, não estabeleceram oficialmente nenhum limite temporal ou quantitativo para seu compromisso, embora tenham dificuldade em concretizar anúncios frequentemente bombásticos. Apresentada como solução milagrosa, a proposta de destinar à Ucrânia os 200 bilhões de euros em ativos russos congelados esbarra em sérios riscos jurídicos. O empréstimo de 90 bilhões de euros, finalmente aprovado pelo Conselho da UE em 23 de abril de 2026, após o levantamento do veto húngaro, ainda não foi inteiramente desembolsado… e os repasses a conta-gotas não são suficientes para cobrir as enormes necessidades do país. Mesmo Von der Leyen traçou um cenário sombrio ao falar de “um inverno de guerra que será o pior de todos” (discurso sobre o Estado da União, 16 set. 2026).
O futuro Quadro Financeiro Plurianual (QFP, ou “orçamento europeu”), proposto pela Comissão Europeia em 2025, aprovado pelo Parlamento em abril de 2026 e cujo montante total chega a 2 trilhões de euros ao longo de sete anos, ilustra a profunda contradição das políticas econômicas adotadas em quase toda a Europa. Vários dirigentes dos chamados países-membros “frugais”, liderados pelo chanceler Friedrich Merz, já manifestaram a opinião de que os gastos totais são excessivos.[2] Querem reduzir as despesas, mas assegurar os 131 bilhões de euros destinados à defesa. Essa verba pode parecer “pequena” quando comparada aos orçamentos nacionais de defesa, também em forte crescimento, como o da Polônia (cerca de 45 bilhões de euros anuais), mas é cinco vezes maior que a do QFP anterior. É preciso acrescentar ainda a “reserva para a Ucrânia”, fora do teto orçamentário, fixada em cerca de 90 bilhões de euros, além de um empréstimo de igual valor destinado a cobrir as necessidades crescentes decorrentes da sofisticação tecnológica do conflito. Esses montantes elevados farão falta à mobilidade estudantil, à pesquisa (exceto nas aplicações da inteligência artificial e da física quântica à defesa), ao setor agrícola e à transição energética na Europa. Ainda assim, são insuficientes do ponto de vista ucraniano.
Esse tonel das Danaides[3] se transformará em um barril de pólvora e, depois, em uma explosão social e política? O contexto macroeconômico, extremamente desfavorável, leva a crer que sim. A pesada conta da guerra na Ucrânia para as finanças públicas europeias somam-se, desde 2022, às consequências da redução da dependência dos hidrocarbonetos russos. A alta dos preços da energia que se seguiu já afetou duramente a indústria europeia, sobretudo a alemã, enquanto a manutenção dos dogmas do livre-comércio mantém a economia do continente aberta à concorrência de bens e serviços baratos importados da China, dos Estados Unidos, da Índia e do Mercado Comum do Sul (Mercosul). A taxa de crescimento do PIB da Alemanha ficou estagnada por três anos. Mais importante, sua base industrial sofreu muito com a nova configuração do comércio mundial. Até mesmo Pascal Lamy acabou reconhecendo que a Europa perdeu terreno diante da concorrência chinesa. O diretor-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC) de 2005 a 2013 e defensor da globalização liberal propõe agora generalizar a “cláusula de salvaguarda” para o aço, em vigor desde julho de 2026, o que representaria uma inflexão significativa em direção a um novo protecionismo (Le Monde, 7 out. 2026).
A falta de dinamismo econômico, alimentada pela pressão para reduzir o custo do trabalho e pelos cortes nas despesas públicas, deve persistir.A crise no Oriente Médio está pressionando os preços da energia e levou o Banco Central Europeu a aumentar novamente as taxas de juros de referência em 10 de setembro, limitando ainda mais os investimentos das empresas e das famílias. A combinação entre a alta dos juros e a redução dos déficits por meio do corte das despesas públicas – o mantra oficial na maioria dos países-membros – não promete, portanto, dias melhores para a população, sobretudo para os mais vulneráveis.
É provavelmente essa a origem da perda de atratividade do projeto europeu, cada vez mais apontada pelos observadores: a Islândia rejeitou em referendo a possibilidade de iniciar negociações para aderir à UE; e as dificuldades para dar início ao processo de integração da Ucrânia somam-se a iniciativas arriscadas tomadas por Von der Leyen, como a proposta de associar o Canadá à União Europeia justamente quando vários países candidatos, pobres e periféricos, gostariam de ter acesso aos recursos orçamentários de Bruxelas.
Nas antigas regiões industriais da Europa, onde as pessoas precisam se deslocar de carro para trabalhar e as políticas sociais e os serviços públicos se deterioram, o choque socioeconômico é duro. Ele começa a provocar abalos políticos, em particular na Alemanha, com o avanço eleitoral da Alternativa para a Alemanha (AfD, extrema direita) na Saxônia-Anhalt, em 6 de setembro passado, seguido de um replique na Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental, duas semanas depois. Esses resultados contribuem para pôr em xeque a narrativa de uma integração bem-sucedida dos Lander do leste, pouco contestada desde 1989. O rompimento total com a Rússia alimenta o avanço eleitoral da direita radical na região, e a postura moralista dos autoproclamados democratas do oeste consegue convencer cada vez menos a maioria, mesmo quando a participação eleitoral é elevada. O colapso histórico da União Democrata Cristã (CDU), que desapareceu do Parlamento da Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental, oculta uma reviravolta já perceptível nas pesquisas de intenção de voto: a AfD aparece agora com quase 30% das preferências em âmbito nacional, praticamente igualando a soma dos percentuais dos dois partidos no poder (CDU e Partido Social-Democrata [SPD]).
As políticas econômicas e sociais adotadas na Europa já levaram ao sucesso dos partidos da direita nacionalista e de extrema direita. A esquerda radical, por sua vez, não tem espaço em parte dos países da Europa Central e Oriental, onde o socialismo, aliás, praticamente desapareceu do cenário político em alguns casos, como na Hungria, na República Tcheca e na Eslováquia. Em algumas regiões ou cidades (Saint-Denis, na França, e Berlim, na Alemanha), avanços eleitorais “vermelhos” refletem, esporadicamente, a dimensão do descontentamento social.
Rumo à ingovernabilidade?
De forma mais estrutural, o processo em curso pode levar a uma situação de ingovernabilidade e até, a longo prazo, à paralisia política, à medida que o “centro”, constituído por uma coalizão que vai dos sociais-democratas aos democratas-cristãos, perde espaço eleitoral e se divide. O caso francês desde 2022 e, sobretudo, desde 2024 ilustra esse processo, com uma divisão instável em três blocos e um “bloco central” em decomposição.
Os indicadores eleitorais e os dados de pesquisas revelam uma revolta social em diferentes países. Na França, ela se manifesta em um poderoso movimento de estudantes do ensino médio e universitários (ler o dossiê nas págs. 2 a 4 e 13 a 18). A guinada militarista e de austeridade da UE não oferece nenhuma solução para o descontentamento das classes populares e médias, que alimenta o sucesso da extrema direita. Acuada, a tecnocracia de Bruxelas não pretende abrir um debate aprofundado sobre o futuro do modelo econômico, social e político europeu. Nada parece capaz, a curto prazo, de deter essa dinâmica, cujo caráter fatal todos reconhecem agora: aumento dos orçamentos de defesa e radicalização belicista, redução das despesas públicas, sobretudo as sociais, inflação provocada pelos choques energéticos, abertura da economia, em nome do livre-comércio, à concorrência internacional, que elimina as empresas mais frágeis, pressão para reduzir o custo do trabalho…
Neste momento, a perspectiva de um conflito aberto com a Rússia parece ainda menos plausível e aceitável, já que a Europa continua amplamente dependente dos Estados Unidos, tanto no plano militar quanto no ideológico. Contudo, a paz na Ucrânia representaria para a União Europeia uma ameaça igualmente premente: colocaria seus dirigentes diante do enorme vazio de sua estratégia.
*Frédéric Lebaron é sociólogo.
[1]Marc Joly e Christian Savestre, En finir avec le déni. Gaza, chaos climatique, finance prédatrice et masculinité toxique [Pôr fim à negação. Gaza, caos climático, finanças predatórias e masculinidade tóxica], Anamosa, Paris, 2026.
[2]Mette Frederiksen et al., “Five EU leaders: Europe must spend better, not just more” [Cinco líderes da UE: a Europa precisa gastar melhor, não apenas mais], Politico, Arlington, 18 set. 2026.
[3]Na mitologia grega, as Danaides eram as cinquenta filhas de Dânao, condenadas no Hades a encher eternamente com água um tonel furado.

